Por que um boquete deveria ser motivo de vergonha? (sobre Alexandre Borges e o resto da humanidade)

Se você é mulher hétero ou bi vai se identificar com o que vou dizer agora. Se você é homem hétero também. Se você é homem gay ou bi, também. No fim, só não vai se identificar quem é mulher lésbica que se relaciona apenas com mulheres cis. Então vamos lá.

Existe um roteiro quase cristalizado em relações com alguém que tem um pênis grudado em si. É assim: as coisas começam a esquentar, tá tudo uma delícia e de repente você está sendo levada, seja por palavras ou demonstrações gestuais, a fazer um boquete.

Quem nunca passou por isso, seja “ouvindo” o pedido ou pedindo, que atire a primeira pedra.

Boquete é paixão nacional. Todo mundo que tem pênis gosta de receber — e nesse caso a generalização nem costuma causar incômodo — e MUITA gente que gosta de pênis curte fazer. Tudo simples, afinal se organizar certinho… você sabe o fim do raciocínio. (aos desavisados, a continuação é: todo mundo transa)

Mas aí aparece um vídeo na internet em que, SUPOSTAMENTE, Alexandre Borges faz um boquete. Pronto, a internet vai a baixo. Quando soube que o nome dele estava nos trending topics do Twitter logo liguei ao fato de algum tempo atrás ele ter sido questionado se estava dando rolês com as travestis. Ele disse que sim, afinal, por que deveria ter vergonha que dar rolê com pessoas? Mas hoje o motivo foi além. Cliquei pra ver os tweets cruzando os dedos para:

1 — ver muita gente falando que ninguém tem que se meter com a vida sexual do cara

2 — ver muita gente morrendo de inveja da vida sexual dele

3 — ver muita gente explicando, pela milésima vez, que divulgar, compartilhar ou assistir esse tipo de material é crime

O que eu vi?

Pessoas fazendo piada por causa de um boquete.

(é louco como esse negócio de expectativa versus realidade é sempre horrível)

Mas, calma aí, quase todo mundo gosta de boquete — em maior ou menor grau. Quase todo mundo não vê o boquete como uma prática nojenta, como veem o sexo oral em mulheres. Quase todo mundo já fez ou pediu um boquete. Foi então que entendi o problema: boquete só é permitido, pro senso comum, quando é uma mulher cis com a boca em um pênis de um homem cis.

Olha que coisa louca: até uma coisa que poderia unir todos os povos desse Brasilzão segue regras tão ultrapassadas que nos separa.

O que o Alexandre Borges, seja ele ou não no vídeo, fez que brotasse nas pessoas é a junção de vários nomes feios: transfobia + misoginia + homofobia. Explico:

Transfobia porque as piadas giram em torno de dizer que a travesti que ganha o boquete não é uma mulher. Parece ser difícil demais entender que pessoas e gêneros vão muito além de órgão sexual.

Misoginia porque as pessoas estão ofendidas porque um homem se rebaixou a um posto teoricamente feminino: o de chupar um pau.

Homofobia porque a partir do momento que um homem chupa um pênis ele, no imaginário das pessoas, se torna gay, mesmo que esse pênis pertença a uma mulher.

O que a gente aprende com tudo isso é que a sensação de impunidade é tão forte que as pessoas não pensam duas vezes antes de assumir que assistiram um vídeo criminoso, que o machismo que estava dormindo dentro das pessoas acordou — tipo o gigante das manifestações de 2014 — e que sexo ainda é um tabu gigante.

“Tudo nesse mundo é sobre sexo exceto sexo. Sexo é sobre poder”

Oscar Wilde manjava das coisas. E é ele que pode nos dar a explicação mais simples e mais óbvia sobre a situação: é sobre controle. O sexo coloca o homem, principalmente ele, em uma posição de poder porque é dele o falo. Quando um homem abre mão desse poder, de elevar o falo à sua frente, como uma espada, ele ofende quem ainda está preso nesse papel de gênero tão cruel.

Homens e mulheres voltaram a ser crianças representando papeis de contos de fadas. Princesas cis esperando a salvação que nunca chega — porque o príncipe não quer levantar a espada por ela, mas por uma princesa trans. Príncipes e cavaleiros elevando suas espadas e jurando lutar por algo sem sentido, lado a lado, desde que todas as espadas apontem para o mesmo lado.

A sexualidade humana é muito mais complexa do que pênis, vaginas, homens e mulheres. A sexualidade é subjetiva, assim como o desejo e o prazer. Mas como tudo que não pode ser materializado e controlado, a sexualidade vira motivo de riso — que pode ou não esconder a boa e velha inveja, seja do boquete dado, ganhado ou apenas da liberdade em ser quem se é.

No fim não é sobre boquete ou Alexandre Borges, é sobre as amarras que cada um carrega do amanhecer até o fim do dia.

Um brinde
Já que você leu a palavra boquete 13 vezes, um vídeo com sinônimos pra você sair desse texto com um vocabulário belíssimo — porque o preconceito e a tentativa de controlar os outros você já deixou no passado, né!