Será que você não está ensinando, sem querer, seus filhos a odiarem meninas?

Brincar de boneca? Não pode. Pintar as unhas? Não pode. Assistir Monster High? Não pode. Usar vestido? Não pode. Cor de rosa? Não pode. Abraçar demais os amiguinhos? Não pode. Rebolar na hora da dança? Não pode. Ser amigo das meninas? Não pode.
Mas pode brincar de guerra. E de carrinho. Ver desenho? De super-herói, pode. Pode também brincar de luta, bater no amiguinho porque é “coisa de moleque”. Pode usar bermudão que prende o joelho na hora de correr — shortinho não pode porque é coisa de menina. Imitar os machões dos filmes e novelas que explodem coisas sem trocar uma palavra para tentar resolver as coisas pode? Pode, claro que pode!
A gente cresceu e tá bem assim, não ficamos com nenhum problema porque meninas e meninos foram criados de forma diferente. Não? Tem certeza?
O menino passa todo o tempo livre com a mãe e a irmã — porque o pai, mesmo em casa, tem as “coisas dele” para fazer. Elas estão de unhas pintadas e brincam de bonecas. As bonecas são incríveis, fazem sons, trocam de roupa. Elas se abraçam, fazem companhia uma à outra e até quando brigam parece algo muito mais vívido do que o mundo azul, cinza, guerra, carros em alta velocidade que você precisa empurrar de um lado para o outro e eles nunca chegam a uma alta velocidade.
Não. Você não pode. Não pode ser igual menina. Não pode querer ser igual menina. Isso não é coisa de homem. Mas até onde vai essa separação?, pensa o menino. Pode abraçar quando gosta? Ser gentil, como ensinam minha irmã, é coisa de menina? Conversar sobre o que está sentindo, pode? Olhar para meninas e achar legal o que elas estão fazendo é errado?
Brincar de boneca? Não pode. Pintar as unhas? Não pode. Mas pode brincar de guerra. E de carrinho. Pode também brincar de luta, bater no amiguinho porque é “coisa de moleque”.
Uma criança não entende muito bem limites. Até aqui pode, daqui pra frente não. Onde é o “aqui”? Qual é o “daqui”? Num mundo em que tudo é novidade para quem acabou de chegar é estranho não poder conhecer algumas dessas coisas. É difícil entender os motivos disso tudo e aí pega-se o caminho mais fácil: VOCÊ NÃO PODE SER COMO UMA MENINA.
Mas as meninas podem. Tudo aquilo que lhe é negado elas podem ter e fazer. E ainda ganham palminhas. Ainda dizem que elas são educadas, gentis e fofas. O menino é só uma criança que não sabe lidar com a própria agressividade, que não conversa direito, bicho do mato, não aceita nem um beijo. E não chora, garoto, isso é coisa de menina. Vira homem!
Quando o menino olha para sua irmã ele vê tudo de proibido e ruim. Tudo o que é sobre ela é proibido e tudo que é proibido é errado. É proibido falar palavrão, machucar o amigo, responder para a professora, comer de boca aberta, ser mal educado, gritar, espernear. Ser menina é errado. É feio. É ruim. A irmã do menino não tem nada de bom. Nem as outras meninas.
Então a mãe se pergunta quando foi que os filhos deixaram de ser amigos. Quando foi que o menino passou a rir da irmã, a provocá-la, a diminui-la? Quando foi que isso tudo aconteceu? Como foi que tudo isso aconteceu? Ninguém consegue entender. Os dois eram tão amigos. O pai acha que é natural, coisa da idade, meninos passam por isso mesmo.
Não, ninguém passa por isso. Assim como bater nunca significa que se gosta. Assim como chorar nunca é errado. O mundo foi dividido. Eles não fazem mais parte das mesmas coisas, não têm nada em comum. Nem amigos eles conseguem ser. Os interesses são diferentes. O que é permitido a um é negado ao outro. O que dizem ser natural para um é defeito para o outro. Eles nem se conhecem mais.
Todos nós aprendemos as mesmas coisas. Todos nós fomos criados com ideias bem parecidas. E por que nós nunca questionamos? Por que nunca paramos para pensar em todo mal que isso poderia gerar? Não é culpa da mãe. Não é culpa do pai. Nem da professora que apoia tudo isso. Nem da avó. Ou do avô. A culpa é de cada pessoa, com ou sem filhos, que continua dividindo o mundo entre rosa e azul sem nem imaginar que rosa era a cor de guerreiros e que só se tornou “coisa de menina” quando a indústria quis assim. Não somos ensinados a questionar.
Então espera-se que esse menino que não consegue ver nada bom em uma menina, porque isso lhe foi ensinado, entre em um relacionamento. E seja feliz. Espera-se que ele respeite as mulheres ao seu redor, que não humilhe as mulheres que trabalham com ou para ele.Querem que ele entenda que a namorada dele pode fazer tudo o que ele faz — mesmo que a vida toda ele tenha aprendido que tem coisa que é de menino e coisa que é de menina.
A gente não ensina o ódio, apenas passamos para frente o que nos foi dito sem pensar muito nos frutos que nascerão dali. Como uma grande corrente que aquela sua tia manda no seu e-mail. Como aquele post de Facebook cheio de mentiras. Não somos ensinados a questionar. A gente cresceu e tá bem assim, não ficamos com nenhum problema porque meninas e meninos foram criados de forma diferente. Não? Tem certeza? Mesmo com o número de mulheres negras mortas crescendo? Mesmo com o número de mães solteiras sempre estável? Mesmo com mulheres agredidas porque resolveram ter opinião? Tá tudo bem? Tem certeza?
Queremos que o mundo seja um lugar cheio de paz e igualdade. Mas a gente não ensina igualdade. Não existe sociedade justa enquanto crianças forem tratadas como diferentes, como melhores e piores. Não existe sociedade justa enquanto meninos e meninas não forem respeitados pelo que são e enquanto não exaltarmos suas individualidades. Não existe sociedade justa enquanto não mudarmos toda a lógica que nos deixa aceitar que, simplesmente, não somos ensinados a questionar.
Será que você — e eu — não estamos ensinando nossos filhos a odiarem meninas mesmo sem querer?