Uma mulher tem sofrido ameaças por causa de um site fake e ninguém faz nada. O que está acontecendo com a gente?

Sobre a Lola Aronovich, Olavo de Carvalho, Roger do Ultraje e a impunidade na internet

Ser feminista não é bonito. Ser militante é pior ainda. A gente se coloca em lugares que ninguém queria estar, somos alvos de chacota, ameaças e agressões. Seguramos a onda, olhamos ao redor e vemos todas as mulheres que conseguiram sair de relacionamentos abusivos, que conseguiram pedir um aumento, que passaram a amamentar seus filhos sem vergonha de ser vistas, que aceitam melhor seus corpos e questionam padrões que não deixam ninguém feliz de verdade e quando fazemos isso tomamos um novo fôlego para seguir em frente. Somos organizadas, temos grupos de mulheres que nos apoiam com palavras de carinho. Mas o outro lado também tem.

Ser militante de movimento social não dá grana. A maior parte de nós não nasceu com privilégios muito grandes. A gente sabe o que é ser calada. Só que nem todo mundo sabe. E quanto mais as pessoas cheias de privilégio — ou que acham que estar ao lado dos donos do mundo as torna importantes — precisam pensar duas vezes antes de abrir a boca, mais elas nos odeiam e se organizam para derrubar nossas ideias e ações. Esse papo de igualdade incomoda mais do que qualquer outro a quem tem poder e acha que o merece mais do que ninguém.

Talvez você nem imagine que existe um blog chamado Escreva Lola Escreva. Mas você deve saber quem é o Roger, da banda dos anos 80 Ultraje a Rigor. Ou então já tenha lido uma das análises políticas de Olavo de Carvalho. Esses caras são contra qualquer tipo de avanço dos movimentos sociais. Eles acham que mulheres exageram quando falam de assédio e que o Brasil está com problemas porque pensa-se demais nos pobres. E foram eles talvez os maiores responsáveis pela divulgação de um site falso que fizeram para incriminar a autora do blog que você nunca tinha ouvido falar.

É falso? Quem se importa?

Em oito anos Lola Aronovich, que é professora universitária e escreve textão desde quando essa expressão nem existia, não teve tanta audiência como teve nos últimos dias. Mas essa audiência não foi para o blog que divulguei ali em cima, mas para um site falso com textos que se encaixam perfeitamente no desenho de feminista construído pela direita nos últimos anos. “Somos as netas das bruxas que não conseguiram queimar”, né? Mas para quem luta contra o avanço das pautas sociais essas bruxas não eram bacanas, eram aquelas com verruga na ponta do nariz e que dão maçã envenenada a meninas inocentes.

Esse papo de igualdade incomoda mais do que qualquer outro a quem tem poder e acha que o merece mais do que ninguém

Sabe aquela ideia de que feministas querem que todo mundo aborte, que homens sejam jogados na sarjeta e que mulheres tomem todos os lugares ocupados por eles? Ela foi elevada a milésima potência. Um dos textos do site falso, inclusive, fala que mulheres devem castrar seus filhos homens. Sim, a loucura vai muito além do que a gente poderia esperar. Outro fala sobre uma grande queima de Bíblias. Há momento mais frutífero do que o atual para ter algo assim divulgado em grande escala?

Lola está acostumada com as ameaças. Ela recebe fotos da fachada da própria casa, existe uma competição valendo grana para ver quem consegue pular sobre ela no meio da rua como se fosse um touro mecânico, os trolls não precisam ser alimentados para estar ali, eles não desistem. E nos últimos anos esse grupo foi se tornando cada vez mais organizado.

A gente achava mesmo que um grupo organizado para barrar os avanços do feminismo não fosse ser criado? A gente é realmente tão ingênua assim? Nos ensinaram tanto a sorrir e ser educadas que esquecemos que a briga aqui no mundo real não tem ética? Pois é, parece que sim.

“Somos as netas das bruxas que não conseguiram queimar”, né? Mas para quem luta contra o avanço das pautas sociais essas bruxas não era bacanas, eram aquelas com verruga na ponta do nariz e que dão maçã envenenada a meninas inocentes.

Sempre que os movimentos sociais avançam os reacionários arregaçam as mangas e vão a luta. A diferença é o que cada grupo enxerga como luta. Eles acham que ocupar áreas improdutivas é um crime absurdo, mas que difamar alguém não tem problema. Tudo para manter o poder que na cabeça deles é um direito adquirido.

Lola já fez boletim de ocorrência. Já falou com a polícia. Já divulgou o site falso e as ameaças — que incluem até criar um site de pornografia infantil para incriminar o marido da blogueira. Já pediu ajuda. Já chorou. Já se arrependeu de ter tido a ideia de ter um blog. Já pensou em fechá-lo. E nada ainda aconteceu. A polícia não fez nada e ela tem praticamente um dossiê que liga todos esses absurdos a um grupo organizado.

Esse grupo é liderado por um cara que já foi preso por discurso de ódio na internet. Ele não é um desconhecido, é um cara bem famoso quando o assunto é difundir e incitar crimes. E todo mundo sabe como funciona a internet e como é fácil viralizar conteúdos absurdos. Quando mais “politicamente incorreto”, melhor.

Por que a internet continua sendo facilitadora de crimes? Porque existe a impunidade. A lógica aqui é a mesma do caso do MasterChef Jr: a culpa é sempre do outro que interpretou mal o que foi dito ou fez algo para que a pessoa agisse daquela maneira.

A gente defende o direito da mulher, das pessoas gays, das pessoas trans, das pessoas negras, das minorias. Buscamos um sociedade equitária. Discutimos tudo o que nos foi imposto para tentar sermos livres de verdade. Defendemos um mundo melhor. Mas quem defende a gente? Quem luta por nós quando isso acontece? Ninguém. Estamos à margem.

No último mês um grande evento sobre avanços tecnológicos e sociais, o South by Southwest (SXSW), cancelou seu debate sobre assédio online depois de ser ameaçada por um grupo bem parecido com o que assedia Lola. Isso aconteceu fora do Brasil e o resultado foi o mesmo: ninguém fez nada.

Se você vota, usa calças, pode trabalhar fora de casa e tomar suas decisões sem que um homem precise dar a palavra final, bem, você deve algo ao feminismo. Se você sonha em ganhar o mesmo salário que um homem e ter tempo livre para você sem ser chamada de vagabunda, bem, você também precisa do feminismo. Se você quer andar na rua sem que ninguém toque seu corpo de forma sexual, sem que alguém diga o que gostaria de fazer com você na cama ou sem que alguém a encoche no transporte público, você precisa do feminismo. Se você acredita que mulheres precisam parar de ser mortas por causa de ciume ou sentimento de posse, você precisa do feminismo. Se você quer que o mundo seja um lugar melhor e com oportunidades iguais para todo mundo você precisa do feminismo.

E se você precisa tanto do feminismo também precisa das pessoas que estão na linha de frente dessa luta. Você também precisa que elas estejam fortes para seguir em frente. Você também precisa lutar pela verdade e justiça. A luta não para nunca. E a gente precisa, mais do que nunca, estar unida.

Lola, estamos com você.

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