Você tem sido generosa com a sua filha?

Tenho uma amiga que sempre teve muitos problemas com a mãe. A vida, de criança até os últimos anos, foi um grande campeonato que ela sempre perdeu. Na verdade, não se sabe se ela perdeu, mas isso foi o que sua mãe sempre lhe disse. Por ter tido sua história construída dessa forma, ela nunca soube que mulheres não precisam ser inimigas ou em uma eterna disputa — isso só foi descoberto muitos anos depois.

Essa amiga demorou muito tempo para conseguir confiar em mulheres. Se sua própria mãe lutava o tempo inteiro para parecer mais bonita do que ela, para que seus amigos olhassem para ela não como uma “tia”, mas como uma mulher atraente bem no momento em que a garota se apaixonava pela primeira vez, se a progenitora insistia em apontar seus defeitos com tanto afinco, do que seria capaz uma mulher sem nenhum laço de amor que as ligava?

As competições entre mãe e filha são muito comuns, mas não são naturais ou uma regra. É uma luta por poder que nenhum homem nunca entenderá. Estar certa, ter razão, dar a última palavra. Esses são objetivos muito difíceis de se alcançar no dia a dia mesmo que você esteja certa, tenha razão e deveria ter dado a última palavra apenas porque você é mulher. Ser mulher é difícil pra caramba. Para mães e para filhas. E em algumas casas há a lei do mais forte — ou daquele que tem mais idade e paga as contas.

Adolescentes buscam seu lugar no mundo. Eles querem ser valorizados. Querem sentir que seus esforços são vistos, seus desejos não são subjugados e que eles são pessoas assim como os adultos. Infelizmente muitos pais (conjunto de pessoas que geraram um filho) não os tratam com respeito. Muitas mães fazem o que mais abominam no mundo lá fora: criam problemas para meninas apenas por elas serem meninas.

Meninas devem ser limpas. Meninas devem ser apresentáveis. Meninas não podem ter opinião demais. Meninas precisam falar baixo. Meninas devem sentar de pernas fechadas. Meninas precisam ser delicadas. Meninas devem se valorizar. Meninas nunca podem aparecer suadas ou sujas. Meninas precisam ser organizadas. Meninas precisam. Meninas devem. Meminas não podem. Meninas nunca. Nunca. Nunca. Nunca. E é isso que ecoa na cabeça das meninas: um grande NÃO flutuando em todos os assuntos.

E aí começa o embate. Crianças aceitam. Adolescentes entram em guerras. Questionam. Rebelam-se. Pintam os cabelos. Colocam piercings. Querem fazer tatuagens. Usam roupas que os adultos odeiam. Garotos e garotas fazem isso, mas quem sente a fúria da mãe, normalmente, é a menina — o garoto está apenas passando por uma fase. Por quê? Porque a mãe nunca faria isso. Ela sente que deve ser um espelho inquestionável. E nada é inquestionável na vida.

Feche os olhos e lembre da sua adolescência. Você teve problemas em achar seu corpo bonito? Foi difícil se encaixar na escola? Você tinha milhares de dúvidas sobre tudo e fingia ter certeza só para parecer mais adulta? Você sentia que não era compreendida? Talvez 98% das meninas de todas as gerações, do começo do mundo até hoje, tenham se sentido assim. Então por que é tão difícil para mulheres adultas entenderem as limitações e necessidades de meninas?

Você e sua filha são humanas. As duas ficam de saco cheio, cansadas e sentem na pele o que é ser mulher. A diferença é que você já teve mais tempo para se acostumar com isso e talvez já tenha embarcado na ideia de que “é assim mesmo”. Sua filha ainda não aceita que seja assim, não quer que seja assim e vai lutar para que o mundo a aceite como é.

Mães e filhas podem aprender muito juntas. Ou depois, quando ela for adulta, vai fazer muita terapia e entender todos os bloqueios que essa competição levou para a vida dela. Com aquela minha amiga foi assim.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.