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9 canções para sacar o Brasil

Alguns versos e estrofes que nos ajudam a entender quem somos e onde estamos, para definirmos para onde queremos ir.

9 canções para sacar o Brasil

Alguns versos e estrofes que nos ajudam a entender quem somos e onde estamos, para definirmos para onde queremos ir.


Desde que comecei a receber perguntas e pedidos de gente interessada em se informar e se formar, tentando compreender melhor a situação em que estamos no Brasil hoje, tenho escrito textos. Um tipo de texto que eu não sei bem escrever, porém, mas que outros o fazem de maneira magistral, nos ajuda a aprofundar a percepção sobre a realidade social e política do Brasil seja hoje, seja em outros tempos. Os versos de canções são em geral reflexo da experiência e da percepção de seus autores.

Selecionei nove canções que eu adoro e que traduzem contradições e desigualdades que vivem no seio da sociedade brasileira ainda hoje. Estão vivinhas da silva (os noticiários e a forma de noticiá-los não me deixa mentir). Neste post coloquei contexto e trechos, mas

Neste post coloquei o contexto e trechos, mas recomendo que ouçam as canções completas, na playlist, aqui [dica: quem for à playlist vai ver uma canção-bônus que não está aqui]. Divirtam-se!

(e, claro, dêem sugestões pra aumentar a lista nas notinhas ao lado do texto!)


Primeiro trago “A Novidade”, que nunca sei se é do Gil ou dos Paralamas. A canção descreve a chegada de uma sereia na praia e as contraditórias reações de diferentes agentes sociais. De um lado, o esfomeado, do outro o poeta.

“A novidade era a guerra Entre o feliz poeta
E o esfomeado
Estraçalhando
Uma sereia bonita
Despedaçando o sonho
Prá cada lado….
Oh! Mundo tão desigual
Tudo é tão desigual”

O Funk Como Le Gusta, caso não conheçam, é uma big band paulistana sen-sa-cio-nal que tive o prazer de ver ao vivo em diversas ocasiões. O som é delícia e eles sempre trouxeram questões políticas em suas letras. Suas vocalistas mais conhecidas foram a Paula Lima e a Sandra de Sá. A música a seguir é dela mesma, Sandra:

“Você ri da minha roupa
Você ri do meu cabelo
Você ri da minha pele
Você ri do meu sorriso
Mas a verdade é que você,
Povo brasileiro
Tem sangue crioulo
Tem cabelo duro
Sarará crioulo”

Eu não sei vocês, mas quando eu escuto “Homenagem ao Malandro”, do Chico Buarque, só consigo pensar no Aécio Neves e no Eike Batista. Sério gente. Sério.

“Agora já não é normal o que dá de malandro regular, profissional
Malandro com aparato de malandro oficial
Malandro candidato a malandro federal
Malandro com retrato na coluna social
Malandro com contrato, com gravata e capital
Que nunca se dá mal”

A Legião Urbana e outras bandas de rock dos anos 1980 como Cazuza/Barão Vermelho, Capital Inicial, Ira!, e alguns cantores (viu, Lobão?) eram exemplos de uma contradição social muito forte. Filhos de famílias de classe média, mas com uma veia crítica de alguma maneira, expressavam muitas vezes em suas canções sua posição numa sociedade altamente desigual. O desconforto com essa posição também aparece em várias canções dessa geração.

Nesse trecho de “1965 Duas Tribos”, por exemplo, Renato fala do ponto de vista de uma criança de classe média. O início do verso mostra o contato distante com a realidade de crianças em outras situações sociais (“mataram um menino”), a confusão (a arma era de verdade? sem arma? de brinquedo?) e logo passa para uma simbologia dessa infância urbana (autorama, Hanna-Barbera, Guanabara, modelos revell - marcas e tipo de brinquedos e brincadeiras). No fim da estrofe, a referência ao lema ufanista muito popular nas bocas dos que apoiavam a ditadura militar no Brasil.

“Mataram um menino
Tinha arma de verdade
Tinha arma nenhuma
Tinha arma de brinquedo
Eu tenho autorama
Eu tenho Hanna-Barbera
Eu tenho pêra, uva e maçã
Eu tenho Guanabara
E modelos revell
O Brasil é o país do futuro”

Nos anos 1990, no Brasil, os movimentos sociais populares ganharam enorme força. A agenda de lutas do MST foi intensa, frente a uma gestão do governo federal que se declarou inimida da reforma agrária. Os “Sem Terra” tornaram-se um símbolo da luta popular no campo, e se tornaram cada vez mais conhecidos. Houve referências ao movimento numa novela da Globo (O Rei do Gado), e nessa música do Skank [banda mineira que se tornou conhecida nessa época].

“Na terra dos sem-terra
A barra vai pesar
Quem ignora erra
Quem quer ignorar
Sofrer o baque todos eles já sofreram
No Paraná, no Pará, no Espírito Santo
Bate imigrante nego véi de guerra
Quebratabaque o atraso, o quebranto
Na terra dos sem-terra
A barra já pesou
Quem ignora erra
Quem ignora errou”

A década foi extremamente fértil para a música nacional (em minha modesta opinião de quem não entende grandes coisas de música). Prova disso é o movimento maguebeat, liderado pelo Chico Science. O manguebeat já nasceu com um propósito extremamente politizado, de denunciar a desigualdade social e reforçar a cultura marginalizada das comunidades que vivem dos manguezais no nordeste. Essa é uma das minhas canções favoritas do compositor, que faleceu em 1997 num acidente de carro.

“Oi sobe morro, ladeira, córrego, beco, favela
A polícia atrás deles e eles no rabo dela
Acontece hoje e acontecia no sertão
Quando um bando de macaco perseguia Lampião
E o que ele falava outros hoje ainda falam
‘Eu carrego comigo: coragem, dinheiro e bala’
Em cada morro uma história diferente
Que a polícia mata gente inocente
E quem era inocente hoje já virou bandido
Pra poder comer um pedaço de pão todo fudido
Banditismo por pura maldade
Banditismo por necessidade
Banditismo por uma questão de classe!”

Nos anos 1990, a cena musical do rap paulistano também explodiu. Um de seus principais grupos, o Racionais MC’s, só chegou à televisão e à classe média no fim da década, embora existisse desde o fim dos anos 1980. O rap e o movimento hip hop nasceram extremamente politizados, como o manguebeat, da vontade de expressar vozes cotidianamente caladas e perseguidas - as vozes da periferia. Ligado às comunidades mais pobres e favelas paulistanas, o rap e o hip hop foram desde cedo perseguidos e sofreram/sofrem diversas tentativas de criminalização. Confusões com a polícia em shows, prisões de grupos e artistas,perseguição pelas letras cantadas, proibição de shows, bailes e duelos de MCs, entre outros eventos, marcaram e continuam marcando a marginalização desse tipo de arte.

A canção “Diário de Um Detento” explodiu no final da década. Longuíssima e extremamente popular, conta o ponto de vista de um preso no sistema penitenciário paulista. Vale a pena ser ouvida inteira, com atenção e a letra ao lado pra acompanhar. Destaco este trecho:

“Na muralha, em pé, mais um cidadão José.
Servindo o Estado, um PM bom.
Passa fome, metido a Charles Bronson.
Ele sabe o que eu desejo.
Sabe o que eu penso.
O dia tá chuvoso. O clima tá tenso.
Vários tentaram fugir, eu também quero.
Mas de um a cem, a minha chance é zero.
Será que Deus ouviu minha oração?
Será que o juiz aceitou a apelação?”

Um outro grupo extremamente politizado que explodiu nos anos 1990 foi o Planet Hemp, do qual Marcelo D2 era vocalista. A proposta da banda era militante, pela descriminalização da maconha e por uma política de drogas mais humana. As canções falavam de e para as periferias mas também de e para as classes médias. A denúncia contida nas letras é forte, e o grupo chegou a ser preso por “apologia ao uso de drogas”. A canção “Mantenha o Respeito” é uma das mais conhecidas:

“Me contem, me contem aonde eles se escondem
Atrás de leis que não favorecem vocês
Então por que não resolvem de uma vez
Ponham as cartas na mesa e discutam essas leis
Planet Hemp, meu irmão, os criminosos?
Porque eu luto pelos direitos dos nossos? Não !
Pessoas inocentes morrem e vão pruma gelada
Eu ouço “ bang bang “ e não vou fazer nada ?
Tem que parar com isso acabar com essa matança
Enquanto tem gente morrendo tem outros enchendo a pança”

A Elza Soares é uma linda, e dona de uma das biografias mais bonitas e duras da história da MPB. Sendo mulher, negra e revolucionária, ela quebrou diversos padrões e preconceitos ao longo da vida. Sempre envolvida com a militância anti-racista, interpretou a canção “A Carne” em seu álbum Do Cóccix Até o Pescoço que lhe valeu a indicação a um Grammy no início dos anos 2000.

“A carne mais barata do mercado é a carne negra
Que vai de graça pro presídio
E para debaixo de plástico
Que vai de graça pro subemprego
E pros hospitais psiquiátricos
A carne mais barata do mercado é a carne negra
Que fez e faz história
Segurando esse país no braço
O cabra aqui não se sente revoltado
Porque o revólver já está engatilhado
E o vingador é lento
Mas muito bem intencionado
E esse país
Vai deixando todo mundo preto
E o cabelo esticado
Mas mesmo assim
Ainda guardo o direito
De algum antepassado da cor
Brigar sutilmente por respeito
Brigar bravamente por respeito
Brigar por justiça e por respeito
De algum antepassado da cor
Brigar, brigar, brigar
A carne mais barata do mercado é a carne negra”