foto: Cristiano Mascaro

Sobre conviver com o diferente

Ano passado me candidatei ao Conselho Participativo Municipal. O Conselho é um organismo da sociedade civil de São Paulo responsável pelo controle social de políticas públicas reconhecido pelo poder público municipal.

Em outras palavras é um lugar de pessoas intensas, que não se bastam nelas mesmas ou em desabafos superficiais e egocêntricos no facebook.

É um lugar que com todos seus prazeres e desgostos consegue nos fazer perceber que a gente não precisa estar sozinho todo tempo ou pior, rodeados sempre daqueles que pensam igual a nós.

Neste espaço onde normalmente a gente se reúne, não há atrativo algum — a não ser que alguém considere interessantes aquelas persianas de plástico barulhentas ou aquele logotipo da prefeitura na porta. Não é o meu caso. É um local sem graça. Uma salinha sem ar respirável, com lâmpadas fluorescentes piscando e uma energia de que foi esquecido no tempo, como grande parte das instalações das subprefeituras que ainda insistem em estar ambientadas a moda 1910.

Ali às vezes nossos encontros acontecem aos sábados pela manhã. Às vezes às quintas-feiras a noite. Nestes dias de reunião as pessoas vão chegando aos poucos. Por mais que existam incessantes pedidos de “não se atrasem”, este velho hábito brasileiro — o atraso — sempre impera sobre qualquer outra vontade.

Quando menos percebemos a sala insossa vai sendo tomada de ruídos, vozes, sacolinhas de bolachas, quebradinhas de copos plásticos. Chegam os senhores idosos — mais ativos que todos os jovens que ali aparecem; chegam os próprios jovens, cansados, com a correria da nova geração que a contemporaneidade globalizada impõe; chegam as mães, aquelas mulheres tão incrivelmente fortes capazes de cuidar de seus filhos e se dedicar ao ativismo com a mesma energia. Aos poucos a salinha sem ar começa a respirar, animada pelo boca-a-boca dos mais quietos, calmos e silenciosos; dos ruidosos; dos que demandam; dos que desmandam; dos pacifistas, dos briguentos, dos passivos, dos curiosos, dos duvidosos, dos falantes; dos de esquerda, dos de direita; dos atentos às leis, dos hackers, dos partidários, dos bairristas; dos comprometidos, dos impacientes, dos compreensivos, dos idealistas, dos conversadores, dos progressistas, dos burocratas, dos anarquistas….

Todos, todos juntos vão tomando lugar, e a sala que era até então desvirtuosa passa a ser templo de inquietudes. Templo de conversas, discussões, ideais, emoções. Templo de histórias de uma vida inteira de luta. E tudo que era sem sabor, entediante e descartável passa a se transformar em coração pulsante e vivo, com sangues azuis, vermelhos e amarelos que correm a velocidade tamanha que os olhos e ouvidos não acompanham, as mãos não brecam e a respiração ofega.

Aos poucos as ideias, propostas, frustrações e desejos tomam tão grandes proporções que transbordam, e despejam em corpos sedentos a incrível magia da interpretação de palavras que cada um carrega segundo suas histórias. Magia que nos faz descobrir um mundo todo, dentro e fora da gente, só por estar em meio ao diferente. Diferente de mim ou de você, que de tão diverso sufoca, ao mesmo tempo que apresenta completude. Diferente do outro, que gera dúvida na mente, que sua nas mãos, que range os dentes, que provoca os olhares, que aguça os ouvidos e que estimula a busca no dicionário mental de quais seriam as palavras certas a serem ditas naquele momento. Diferenças que fazem a gente conhecer nossos limites ao mesmo tempo que ultrapassamos fronteiras conhecidas. Diferenças tão incômodas e as vezes insuportáveis que deixam a cabeça maluca, a voz rouca e o coração acelerado, que quando tudo chega ao fim a gente sente como se um furacão tivesse entrado em nós e bagunçado toda aquela ordem tal de crenças que inventamos durante nossa existência — ou que inventaram por nós. E a bagunça é tanta que vira tudo de ponta cabeça e tira o pó do que estava parado há tempos e quebra o precisa se renovar.

Tudo isso porque somos simplesmente TÃO diferentes.

Talvez quem sabe esses acontecimentos todos sejam exclusivos a mim, que com minha pouca maturidade e experiência de vida dos meus insolentes vinte e sete anos ainda cria realidades fantasiosas de uma sociedade impossível. Pois bem, mas que assim seja. E me reconhecendo ilusória deixo que esse turbilhão de sentidos e sentimentos da conexão humana tome conta de mim. Permito que ele encha a sala insossa, que me faça ofegar, pensar, transpirar, repensar, enrouquecer, enlouquecer. Pois bem que assim o faça. E que eu aceite toda a diferença humana então.

Diferença que expande a zona de conforto, que constrói paciência, amacia indignações, amplia tolerâncias, abre espaço a empatia do olho no olho e nos faz reconhecer-se no outro, como um sutil ser humano complexo, pleno de marcas e cicatrizes, que no fundo é simplesmente TÃO igual a mim.