Discurso de Abertura das “Jornadas Plantas Sagradas em Perspectiva”

Apresentado em 9 de agosto de 2016 no Auditório do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da UNICAMP

“Cogumelos”, de Yakoi Kusama (1995)

Em 1979, um grupo de etnobotânicos e estudiosos de mitologia criou o termo “enteógeno”. A ideia era substituir os conceitos de “alucinógeno” (um termo impreciso e preconceituoso) e de “psicodélico” (que estava excessivamente entranhado em um contexto não acadêmico e sofrendo o combate incessante do aparelho ideológico da Guerra às Drogas).

O termo é prenhe de significados. Pode ser reduzido a três partículas etimológicas que significariam ‘dentro’ ou ‘interior’ (endon); ‘divino’ ou ‘Deus’ (theos); e ‘gerador’ ou ‘produto’ (genes). Mas mais do que isso, a combinação das duas primeiras partículas, entheos, significa estar inspirado ou possuído pelo divino e é a origem da palavra ‘entusiasmo’ em português. Genesthai, o verbo usado para cunhar o sufixo científico ‘geno’, significa ‘tornar-se’.

Há, no campo interdisciplinar dos psicodélicos — plantas e substâncias cujos estudos são a minha predileção — uma longa e algo incessante discussão sobre a melhor forma de denominá-los. O termo ‘enteógeno’ parece ser preferido por algumas visões que se distanciam das ciências biomédicas. Algumas vertentes etnobotânicas e antropológicas a utilizam em contextos específicos, mas sua preferência é, por excelência, a o dos usuários, sobretudo daqueles que buscam estados de êxtase que são facilitados por tais substâncias, em contextos religiosos ou não.

Por que será que as ciências biomédicas estabelecidas preferem o termo ‘alucinógeno’, apesar da clara imprecisão fenomenológica dos efeitos destas substâncias, que somente raramente causam alucinações de verdade? Por que será que a nova ciência que defende o uso terapêutico destes mesmos compostos prefere o termo ‘psicodélico’, mesmo que ele seja profundamente influenciado pelo uso recreativo e o preconceito contra este uso?

Claro que não tem muito cabimento na breve apresentação deste evento eu querer responder a esta pergunta. Mas quero oferecer para vocês, a partir de uma anedota, algumas reflexões que poderiam nos ajudar, me parece, a entender a importância de estarmos aqui, hoje, amanhã e na quinta, juntos para discutir o tema das Plantas Sagradas.

A anedota conta sobre o encontro de William Burroughs com Richard Evan Schultes. Schultes foi um importante etnobotânico que inspirou um dos personagens do recente filme colombiano ‘O Abraço da Serpente’. Ele fez parte, aliás, do time que criou o termo ‘enteógeno’. Como muitos de vocês sabem, William Burroughs, escritor beat conhecido por seu uso intenso de substâncias psicoativas, viajou à Colômbia no início da década de 1950 para conhecer a ayahuasca, ou yagé. Sua correspondência com o poeta Allen Ginsberg durante a aventura se tornaram o livro chamado ‘Cartas do Yagé’.

Depois de tentativas frustradas de tomar ayahuasca, Burroughs consegue, por intermédio de Schultes — chamado de Dr. Schindler no livro — finalmente beber yagé com um velho brujo. Burroughs vomita copiosamente, sente-se embrulhado por inúmeras camadas de algodão, transforma-se em um pedaço de madeira carcomido por vermes, engole seis comprimidos do sedativo pentobarbital e passa boa parte da noite pensando que o xamã que lhe oferecera ayahuasca fazia carreira envenenando gringos. Quando, depois, ele confronta sua experiência com a de Schultes, que já havia bebido ayahuasca por mais de vinte vezes, a resposta do etnobotânico sobre sua experiência com a beberagem foi simples: “Só vejo cores, não tenho visões”.

Muitos de vocês que já passaram pelo que dentro da ciência cabocla da ayahuasca se chama carinhosamente de “uma bela duma peia”, compreendem perfeitamente o quanto a experiência da ayahuasca pode ser sofrida. Da mesma maneira, cores, cenários, entidades e formas angelicais podem ser apresentar nesta experiência… ou não.

Uma das respostas que eu já ouvi algumas vezes para justificar a rejeição do termo enteógeno é o argumento de que a experiência com psicodélicos pode não ter nada de divina, pode ser um mergulho nas profundezas infernais do ser. Portando, a ideia imediata de que essas substâncias contêm ou fazem manifestar o suposto ‘Deus’ amoroso do Novo Testamento seria uma falácia.

Mas apesar da língua do Novo Testamento ser uma das variantes do grego, os criadores desta língua não eram originalmente cristãos. Ainda que a palavra seja um neologismo recente, o ‘divino’ denotado pela palavra ‘theos’ que é supostamente gerado por estas substâncias poderia muito bem não ser o deus nem do Novo, nem do Velho testamento, e nem um só. Aqui, estamos falando de entidades que são relativamente mais próximas daquelas da cosmogonia indígena, que são capazes de possuir — e “entusiasmar” — os seres de carne e consciência que habitam nesse mundo.

Entendo que a rejeição que as Ciências empíricas fazem, na construção de sua metafísica, do termo enteógeno reside, em parte, nesse contraste entre a o Deus transcendente abraâmico e a divindade imanente que está dentro e fora. Essa divindade ou divindades, está tão imbuída no mundo que faz com que em diversas culturas autóctones não fosse fácil traduzir nem mesmo os ‘deuses’ ocidentais, quanto mais o Deus único judaico-cristão.

Por mais que se diga ateia, a ciência hard ainda bebe da tradição que se nutre na ideia de que a verdade está externa, que é algo a ser alcançado como transcendência. Essa é uma operação casada com aquela que advém de um processo de dessacralização do planeta. Animais, plantas, montanhas, o céu e a terra não são mais pessoas, mas coisas das quais se faz uso para o nosso complexo sistema de sobrevivência. Aqui, não há Deus interior. Seja Jeová, seja o mercado, ele não está no meio de nós.

Essa concepção nos dificulta que possamos olhar as plantas — não só as enteógenas, não só as psicoativas em geral, não só os alimentos, não só as utilitárias, mas todas as plantas — como nossas iguais — e iguais em sacralidade. Isso nos confronta com o fato de que o próprio macro-ecossistema nos faz dar conta de que precisamos mudar a maneira como estamos sentindo e usando o mundo nos últimos séculos, ou talvez tenhamos que passar por grandes dificuldades para continuar a estar por aqui.

Assim, aqui estamos nós, hoje, prontos para mergulhar em uma série de perspectivas que nos abrem outros caminhos para pensarmos as plantas e seus espíritos. Esse é um ato, eu penso, de resistência e de abertura.

Viemos aprender com quem pode falar dessas plantas por meio de outros olhares e quiçá, com isso, podermos compreender um pouco mais das pessoas dessas plantas e também das maneiras que nós humanos as percebemos e percebemos o mundo. Acho que com isso, potencialmente também há a chance de nos transformarmos um pouco mais e ajudarmos a transformar o mundo. Assim, meus votos é que nesses três dias sejamos capazes de crescer tanto no conhecimento acadêmico quanto na ampliação de nossos saberes que vão além da academia.

Por isso, por estarmos aqui, eu sou muito grato e lhes dou as boas-vindas.