O golpe e você

Por Aloizio Mercadante

Aloizio Mercadante em março de 2016. Valter Foto: Campanato/Agência Brasil

O golpe de 2016 não foi apenas contra a presidenta legítima, Dilma Rousseff. Não é contra Lula, o melhor presidente da história recente do país. Não é contra o PT. O golpe foi contra sobretudo contra os 54,5 milhões de votos que elegeram a presidenta em eleições livres e limpas. O golpe cassou o voto desses cidadãos e, com isso, passou a implantar um programa ultraneoliberal sem o apoio de um único voto popular. Eles estão desmontando todo o progresso nacional, social e democrático que tinham sido conquistados no início deste século pelos governos do PT.

Assim, o golpe é contra os 42 milhões de brasileiros que ascenderam à classe média, nos últimos 13 anos. É contra os 36 milhões de cidadãos que deixaram a pobreza extrema para trás. É contra as políticas sociais que praticamente eliminaram a miséria no Brasil. Miséria histórica, atávica, contra a qual os representantes do golpismo pouco ou nada fizeram, quando governavam.

O golpe é contra um processo de desenvolvimento que conseguiu tirar o Brasil, em 2014, do “Mapa da Fome” da ONU. Fome secular, vergonhosa, que os golpistas nunca conseguiram saciar. O golpe épara colocar de novo o Brasil no Mapa da Vergonha e tirar a comida do prato dos mais pobres.

O golpe é contra a igualdade e pela desigualdade. Os que apostam no governo do golpe também apostam na desigualdade como elemento essencial para o suposto bom funcionamento do mercado e da sociedade.

O golpe é contra a valorização do salário mínimo, que tinha aumentado 77%, nos últimos 11 anos. O golpe é pelos salários baixos para os trabalhadores, pois, para os golpistas, salários reduzidos são essenciais para o combate à inflação e a competitividade da economia. O golpe é também contra a geração de 23 milhões de empregos formais, ocorrida nos últimos 12 anos. Quem aposta no golpe aposta num desemprego, que já atinge 14,2 milhões de trabalhadores, para reduzir os custos do trabalho. Aposta também na redução dos direitos trabalhistas, na terceirização e na volta da precarização do mercado de trabalho. Aposta na eliminação prática da CLT de Getúlio Vargas e um ataque frontal as organizações sindicais de lutas e conquistas. Por isso, o golpe promove a Reforma Trabalhista, que entrou em vigência em novembro e fará o Brasil voltar ao estágio histórico da República Velha.

O golpe é também contra os aposentados, a Previdência e o Estado de Bem Estar criado pela Constituição Cidadã de 1988. Por isso, o governo ilegítimo quer aprovar uma reforma da Previdência que vai inviabilizar, na prática, a aposentadoria dos trabalhadores brasileiros, principalmente a dos mais pobres e menos qualificados.

O golpe é contra a Petrobras e pela “Petrobrax”. O golpe é contra a política de conteúdo nacional, que reergueu nossa indústria naval e reestruturou a cadeia econômica do gás e petróleo. O golpe é contra a nossa maior empresa e tudo o que ela simboliza. O golpe é pela privatização de tudo o que for possível e pela desnacionalização de tudo o que for necessário, como já está acontecendo com o pré-sal. A Eletrobrás e os bancos públicos são os próximos alvos. Até nossa terras serão vendidas aos estrangeiros.

O golpe é contra os programas que abriram as portas das universidades brasileiras para estudantes das escolas públicas do ensino médio, pobres, afrodescendentes e indigenas, pois a Emenda Constitucional nº 95, que congelou os gastos primários por 20 anos, vai inviabilizar a expansão e a melhoria desses e de outros serviços públicos essenciais. Ao contrário, o golpe vai comprometê-los e sucateá-los. Assim, o golpe é pelo retrocesso da educação de qualidade e pela exlusão educacional. O golpe é pela privatização do conhecimento. O golpe é contra as novas oportunidades e pelos antigos privilégios.

O golpe é contra o SUS, o Farmácia Popular e o Mais Médicos, programa que leva assistência básica à saúde a mais de 60 milhões de brasileiros que antes estavam desassistidos. O golpe é contra a saúde pública e pela mercantilização da medicina. O golpe é contra médicos cubanos e pacientes brasileiros. O golpe é pela doença que rende lucros. O golpe é uma patologia.

O golpe é contra a política externa ativa e altiva. O golpe é contra a soberania e por uma nova dependência. O golpe é contra o Mercosul e a integração regional. O golpe é para desintegrar a projeção dos interesses brasileiros no cenário mundial. O golpe é para nos alinhar aos interesses das potências tradicionais. O golpe é contra o grande protagonismo que o país assumiu recentemente. O golpe é para nos apequenar.

O golpe foi contra uma presidente honesta e pelos corruptos, como ficou provado por gravações amplamente divulgadas. O golpe derrubou o governo que mais combateu a corrupção. Que multiplicou as operações da Polícia Federal de 7 por ano para quase 300 por ano. Que fortaleceu e deu autonomia real a todas as instituições de controle. Que engavetou o engavetador–geral. Que deu total transparência ao Estado brasileiro. O golpe é contra apurações isentas e pela impunidade das elites de sempre. O golpe é cínico e hipócrita. O golpe é uma grande mentira.

O golpe é contra o futuro e pela restauração do passado. O golpe é contra a esperança e pelo ódio, para o ódio. O golpe é intolerante. O golpe é mesquinho.

O golpe é contra a grande nação e pela republiqueta de bananas. O golpe é contra a democracia. Contra o Brasil.

O golpe é, sobretudo, contra você, cidadão brasileiro.

Por isso, saúdo com vigor o lançamento do “Observatório de Políticas Públicas” do Instituto Lula, na certeza de que logo se constituirá num espaço de reflexão para aqueles que julgam valores inalienáveis a democracia e a luta intransigente por justiça social.


Aloizio Mercadante é economista, professor licenciado da PUC-SP e Unicamp, foi deputado federal e senador pelo PT-SP, ministro-chefe da Casa Civil, ministro da Educação e ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação.

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