Empoderamento cidadão

Manifestações pedindo reformas, experimentos políticos de renovação suprapartidária e campanhas políticas financiadas pelos cidadãos: quais são os movimentos que estão tentando oxigenar o cenário político brasileiro atual?

(foto: Tânia Rêgo | Agência Brasil)

Desde o movimento dos caras-pintadas (ocorrido em 1992 e que queria o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello) o Brasil não via a política como pauta se popularizar desta forma: com o histórico 17 de junho de 2013, dia em que centenas de milhares de manifestantes foram para as ruas do país em um protesto multifacetado — a princípio contra o aumento na tarifa das passagens de ônibus, mas que ao longo do tempo foi ganhando outras reivindicações — até as eleições presidenciais acaloradas de 2014 e a sequência de manifestações populares (que desencadearam inclusive um novo processo de impeachment, de Dilma Rousseff); a participação de jovens nos processos de discussão — sobretudo nas redes sociais — tem criado um novo paradigma de pensamento político.

O crescente descontentamento com os rumos adotados pela política considerada “tradicional” e a reivindicação por maior participação efetiva fez com que muitos jovens se articulassem de forma independente para ganhar espaço e voz nesse cenário. Fizemos o levantamento de algumas iniciativas que mapeiam a busca por uma nova forma de fazer política.

A Bancada Ativista e um experimento político de renovação

No meio de um cenário político corrompido, eleitores desacreditados e fortalecimento das operações contra a corrupção; os que ainda acreditam que podem fazer a diferença de alguma forma se articulam para tentar trazer algum respiro de renovação: foi assim que surgiu a Bancada Ativista. Esboçada em meados de em abril, começou como um movimento suprapartidário de cidadãs e cidadãos da cidade de São Paulo, com atuação em múltiplas causas sociais, econômicas, políticas e ambientais, que se uniu para dar suporte a pré-candidaturas de ativistas ao poder legislativo nas eleições de 2016 — e tem, entre seus objetivos, a intenção de eleger ativistas para a Câmara de Vereadores de São Paulo.

“ (A Bancada apoia) Campanhas que trabalham a fragilidade de não ter acesso a recursos (como têm os grandes) com a força de mobilização de cidadãos engajados, acreditando na potência da política como espaço da transformação.
Somos um grupo suprapartidário de entusiastas de pré-candidates a vereadores da cidade de São Paulo, que acreditam que no cenário atual precisamos de novos nomes, propostas e formas de atuação na política para fazer renascer e regenerar esse sistema.” (
em nota sobre o lançamento da Bancada, em junho)

Visando oxigenar o poder legislativo e enfrentando o desafio de passar do discurso à prática; a Bancada atualmente apoia nove candidatos (um conjunto híbrido da Rede e PSOL), que possuem propostas convergentes envolvendo engajamento com direitos humanos e diminuição da desigualdade social.

(imagem: reprodução)

Engajamundo

O Engajamundo é “uma organização de liderança jovem e feita para jovens”, segundo seus criadores. Sem fins lucrativos e sem ligação com partidos políticos, governo ou empresas privadas; surgiu em 2012, quando sete amigos se uniram com o objetivo de aproximar os universitários da cidade de São Paulo dos grandes debates internacionais de meio ambiente, tendo em vista a Rio+20.

Com o objetivo de empoderar jovens cidadãos e reivindicando mais acesso e representação da juventude nos processos políticos internacionais, alguns pilares da organização são a formação através de metodologia própria (criada para sensibilizar esses jovens para desafios contemporâneos e dando ferramentas para possam articular suas demandas em todos os âmbitos políticos); a mobilização em rede (através de núcleos espalhados pelo país e atividades específicas de engajamento); e a participação em conferências e negociações relacionadas às temáticas dentro das áreas de interesse mapeadas pela organização (no momento, são cinco: mudanças climáticas, gênero, biodiversidade, desenvolvimento social e desenvolvimento urbano sustentáveis).

Um dos maiores desafios que tivemos nesse último ano foi administrar o crescimento da rede e reconfigurar algumas estruturas: surgiu um anseio de debates mais localizados, que geraram os núcleos locais — grupos que agem em determinada região para conscientizar e mobilizar os jovens que estão mais próximos deles em causas que o Engaja já abordava antes. Hoje já estamos com 17 núcleos em 15 estados brasileiros, e o número de articuladores dobrou em um ano”, conta Amanda Segnini, coordenadora de redes do projeto.

Entre as principais conquistas até o momento estão a participação em diversas Conferências Mundiais ao redor do mundo (do Sri Lanka ao México) e o convite para representar a sociedade civil mundial em um evento sobre a Agenda de Desenvolvimento Pós 2015 na Assembleia Geral da ONU.

Equipe do Engajamundo (foto: reprodução)

Voto Legal

Com o intuito de criar uma nova lógica de financiamento de campanhas políticas mais transparentes e com apoio da população, foi criada a plataforma Voto Legal. Um dos realizadores é o MCCE (Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral), que ficou conhecido, especialmente, por ter sido o autor da proposta que originou a Lei da Ficha Limpa — e atualmente articula um novo projeto de iniciativa popular para a Reforma Política.

Através da plataforma do Voto Legal, pessoas físicas podem fazer doações a campanhas políticas — entre seus objetivos, estão tornar o processo de doação mais ágil, facilitar o engajamento de pessoas físicas nas campanhas e promover prestação de contas dos candidatos para que os cidadãos possam monitorar o uso do dinheiro destinado às doações.

Jovens no poder

Apesar de ainda não terem uma escala capaz de impactar um país com dimensões continentais como o Brasil, estes movimentos apontam uma direção de maior engajamento do cidadão no cenário político brasileiro — com crescimento orgânico e se apoiando em uma parcela da população que quer maior envolvimento com políticas públicas; estes movimentos têm como principal objetivo abrir diálogo para novas formatações, discutir novas propostas de reforma e influenciar em decisões que tenham impacto direto em seu futuro. “Experimentos como o da Bancada Ativista não surgem para substituir os partidos, mas para ampliar as possibilidades de participação da sociedade na política institucional”, diz nota enviada pelo movimento à Folha.

*Sobre o Politikos: sob o selo “politikos”, observamos movimentos de apropriação e diálogo com o espaço público; analisando causas, consequências e tendências que esses movimentos nos apontam.

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