O lado solidário das plantas carnívoras

Plantas carnívoras são seres estranhos por definição. Elas são vegetais florais predatórios que atraem, prendem e matam animais com o objetivo de obter nutrientes a partir de seus corpos. No entanto, cientistas descobriram alguns comportamentos que tornam seus hábitos ainda mais peculiares, como servirem de “hotel” para morcegos.

Com alguns exemplares podendo chegar a seis metros de comprimento e um metro de altura, plantas carnívoras são seres vivos relativamente raros. Acredita-se que existam pouco mais de 600 espécies no mundo, sendo a maioria das Ordens Caryophyllales e Lamiales. Algumas têm armadilhas que podem chegar a 40 cm de profundidade e armazenar até 2 l de líquidos digestivos.

Armadilha mortal

Estes tipos de planta utilizam diversas armadilhas para atrair as presas, como cores vivas, fontes extras de néctar, pelos, folhas que se parecem com insetos, etc. Ao contrário da ideia popular, as flores nunca são usadas como armadilha, pois a planta tende a não aprisionar seus principais polinizadores (apesar de isto eventualmente acontecer). Um inseto atraído pelo néctar doce de uma planta carnívora pousa na borda de um jarro. No entanto, a superfície desta estrutura, chamada peristômio, contém microsestruturas que tornam a superfície altamente hidrofílica, ou seja, “molhável”. Isso significa que o peristômio é extremamente escorregadio, dificultando a aderência do inseto e fazendo com que ele caia para dentro do jarro.

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Um mergulho no jarro pode ser mortal[/caption]

Uma vez que a presa é aprisionada, é muito difícil escapar, pois o interior do jarro também é escorregadio. Segundo Tanya Renner, que estudou plantas carnívoras durante seu doutorado, ele é tão escorregadio que até insetos voadores raramente escapam, pois os açúcares e líquidos digestivos tornam muito difícil voar com as asas molhadas. A presa é então digerida com o auxílio de enzimas no líquido e a planta absorve nutrientes importantes para determinadas funções dos vegetais, como o nitrogênio. Algumas plantas inclusive contam com a ajuda de bactérias no seu interior para cumprir esta tarefa.

Como elas não utilizam as presas como fonte de energia, mas sim de nutrientes, a maioria das plantas carnívoras consegue crescer mesmo sem consumir “carne”. No entanto, elas crescem mais rapidamente e têm a reprodução facilitada quando recebem nutrientes derivados das presas.

Darwin chamou esta preferência alimentar de “síndrome carnívora”, o que apareceu várias vezes no processo de evolução de plantas, sempre pelo mesmo motivo: quando plantas acabavam crescendo em solos com deficiência de nitrogênio, nutriente fundamental na síntese de proteínas e DNA, elas desenvolveram preferência por carne, matéria rica neste elemento.

Contudo, estudos recentes mostram que estas criaturas mordazes não são apenas assassinas cruéis. Enquanto a maioria devora insetos (como aquela bonitinha que você comprou na floricultura com a esperança de que devorasse os pernilongos do seu quarto no verão), outras têm gostos mais requintados. Além disso, cientistas recentemente descobriram um lado mais solidário destas plantas, como fornecer “hospedagem” para animais, além de relações de mutualismo com bactérias e outras criaturas.

Musaranho ajudante

Apesar de a maioria das plantas carnívoras capturarem insetos, algumas espécies desenvolveram gostos bem peculiares ao longo de sua evolução. Tão peculiares que a Nephenes lowii, uma espécie de regiões tropicais, prefere as fezes de um mamífero, o Tupaia montana, um musaranho arbícola endêmico da ilha de Bornéu, Malásia.

Sabendo que o musaranho ocasionalmente sobe nestas plantas para beber os líquidos doces da borda do jarro, em 2009 uma equipe de cientistas liderada pelo doutor Jonathan Moran, da Royal Roads University, no Canadá, viajou para a floresta na Malásia onde a N. lowii cresce para entender melhor esta relação. Como a planta apresenta tanto jarros terrestres ao longo do chão como jarros aéreos suspensos, os pesquisadores também queriam entender se havia diferenças de comportamento e dieta entre os dois.

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Musaranho fazendo seu servicinho sujo enquanto lambe o nectar doce de uma nepente.[/caption]

Através de uma câmera escondida que filmava uma N. Iowii durante o dia, a equipe confirmou que apenas os jarros terrestres capturavam insetos. Enquanto isso, os jarros aéreos eram visitados pelo musaranho arbícola, que se alimenta do néctar produzido em suas bordas. Mas não só isso: enquanto o musaranho se alimenta, ele às vezes defeca dentro do jarro. As fezes, por sua vez, são muito úteis para a planta, já que são ricas em nitrogênio.

Para confirmar a teoria de que a N. Iowii utiliza as fezes dos musaranhos para obter nitrogênio, os cientistas conduziram um experimento utilizando análise de isótopos está- veis nas folhas do jarro. Através desta técnica, é possível rastrear a origem de determinado elemento, e os resultados foram surpreendentes: as N. Iowii que tinham jarros aéreos obtinham entre 57 e 100% do suprimento de nitrogênio através do das fezes do mamífero. Esta foi a primeira relação de mutualismo entre uma planta carnívora e um mamífero já descoberta.

Bat caverna

Assim que os estudos sobre os musaranhos foram publicados, alguns pesquisadores voltaram suas atenções para o hábito de alguns morcegos, que dormem dentro dos jarros de plantas carnívoras. Até então se acreditava que eles simplesmente usavam as estruturas como “hotéis” quando não conseguiam chegar ao ninho até o nascer do sol.

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O morcego lanoso utiliza os jarros como bat caverna[/caption]

A dupla de estudantes de doutorado Caroline e Michael Schöner viajou para Bornéu para procurar jarros de Nepenthes hemsleyana, espécie conhecida por abrigar morcegos lanosos. Ao longo do estudo, publicado na Biology Letters, eles encontraram 32 morcegos dormindo nos jarros, todos da mesma espécie: morcego lanoso. Para analisar o comportamento dos mamíferos, a dupla colocou rastreadores em 17 destes morcegos. Através da análise dos dados dos rastreadores, eles descobriram que, apesar de a floresta oferecer outras opções de abrigo, como buracos em troncos, o morcego lanoso usa exclusivamente os jarros de N. hemsleyana como abrigo. Em troca, a N. hemsleyana recebe cerca de um terço das suas reservas de nitrogênio da digestão das fezes do morcego, o que também foi comprovado por análise de isótopos estáveis.

O que torna esta descoberta especial é que, em relações de colaboração entre plantas e animais, as plantas normalmente fornecem alimento em troca de serviços, como na polinização. Enquanto as plantas fornecem néctar e frutas, alguns animais ou insetos as visitam para se alimentar e ao sair espalham pólen e sementes. Já neste caso, os papéis se invertem: a planta recebe nutrientes enquanto o animal recebe serviços, como proteção contra desidratação, predadores e o clima. Este tipo de mutualismo é muito raro. ■

Referências:

» Cat Adams , “Inside a giant…the giant plants that eat meat”, BBC Campus, 04/2015

» International Carnivorous Plant Society

» Jonathan A Moran, “The carnivorous syndrome in Nepenthes pitcher plants, current state of knowledge and potential future directions”, Plant Signal Behav, 5 (6), 644–648 (2010)