Ela: o que é a vida?

Marco Rigobelli
Aug 10, 2015 · 7 min read

O que define a vida? Ser baseada em carbono, respirar, comer, evacuar, reproduzir? Ter células, um corpo e um organismo? No momento, é tudo aquilo que acreditamos definir a nós como seres vivos — nesse conceito baseamos toda a busca por vida extraterrestre porque, francamente, não nos resta muita coisa além disso. Mas e se algo dentro de nossa própria rotina quebrasse essa convenção? Se, digamos, um computador começasse a se comportar como um ser e até atendesse as necessidades intelectuais, de carinho e o desejo de alguém? Tudo porque quer, não porque é aquilo para o que foi programado. E se, indo além, esse computador também tivesse seus desejos, carências e curiosidade, uma consciência? Isso faria dele vivo ou estaria fadado a ser um computador para sempre?


Essa dúvida me remoeu quando fui ao cinema — e em todas as vezes subsequentes — assistir Ela, filme de 2013 escrito e dirigido por Spike Jonze (Onde Vivem os Monstros, Adaptação, Quero ser John Malkovich), e a semente da dúvida acabou plantada na minha cabeça, germinando, se desenvolvendo, criando raízes.

No filme, Theodore, vivido por Joaquin Phoenix , trabalha como redator de cartas. Uma espécie de nova profissão feita sob medida para escritores frustrados em que pessoas contratam o serviço de redigir recados e mensagens de amor, carinho ou para datas especiais que serão entregues como se a própria pessoa tivesse escrito. Ela se passa em um futuro relativamente próximo, no qual a cidade de Los Angeles foi tão tomada por arranha-céus que mal é possível ver suas praias e todos os homens usam calças de cintura alta. Isso tudo (principalmente as calças) dá aos cenários uma sensação de sujeira, que contrasta com os ambientes quase assépticos nos quais os poucos personagens do filme interagem. Não dá pra precisar quantos anos à frente a história acontece, mas podemos chutar umas boas três ou quatro décadas, se considerarmos como a cidade está atulhada de gente. O filme retrata isso com uma sutileza adorável, em tomadas que deixam clara a ambientação para o espectador que está interessado nela.

Theodore, um homem na casa dos trinta divorciado, miserável, entregue à própria rotina de viver intensamente do passado na qual não está particularmente infeliz, embora a narrativa procure deixar claro quão solitário ele se sente, sempre enquadrando-o sozinho nos diálogos ou o colocando em uma espécie de plano diferente e isolado quando mostrado em multidões, dando atenção especial ao seu desconforto com as outras pessoas. Ele é o retrato da geração que hoje começa a chegar na mesma faixa-etária. Pessoas que cresceram apegadas tanto à ideia de dividir suas vidas com outras quanto com a própria individualidade; gerando conflitos que terminam com ambas as necessidades sendo saciadas pelo mundo conectado no qual vivemos e que tornou-se uma dependência comum. A realidade do protagonista vai ainda mais longe, quando notamos que ele sequer tem mais o trabalho de ler os próprios e-mails.

Exceto por amigos próximos como Amy (Amy Adams), Theodore salta de uma relação superficial para outra. Samantha acaba se tornando o relacionamento mais sólido que ele desenvolve com alguém durante todo o filme. | Divulgação

Dentro deste contexto, é até aceitável que tenham desenvolvido uma inteligência artificial capaz de transformar as vidas das pessoas em borrões ainda mais práticos de existência. Theodore logo nota isso ao permitir que a inteligência, autodenominada Samantha e espetacularmente dublada pela Scarlett Johansson, comece a organizar sua vida. Aos poucos, esse software vai substituindo todas as necessidades humanas que o protagonista acreditava ter e migra do status de ferramenta para o de indivíduo.

A grande metáfora em Ela é a relação que nós desenvolvemos com nossos aparelhos e a idealização das outras pessoas que isso acabou gerando. Computadores, smartphones — hoje em dia até os videogames — viraram intermediários do contato entre as pessoas e o mundo ao redor delas, mesmo quando esse mundo nem está tão longe assim. No filme, Samantha deixa de ser a intermediária de Theodore e torna-se o centro de suas atenções. Ela acredita estar aprendendo, progredindo, evoluindo e tornando-se mais humana junto e graças a ele; entretanto a maioria das pessoas seria capaz de justificar isso lembrando tratar-se de um sistema operacional, que poderia estar programada para atender a essas expectativas e gerar envolvimento com o cliente. No fim, isso não é tão importante quanto a relação inegavelmente humana que Theodore e Samantha desenvolvem, apesar dos absurdos envolvidos nesse conceito. Embora o final tenha me parecido um pouco corrido, todo o desenvolvimento da conexão entre eles e a adequação do resto do mundo a esse caso, onde várias outras pessoas estão assumindo suas relações com as inteligências artificiais e os amigos próximos de Theodore aceitando isso de mente aberta, torna essa história mais humana, palpável e verossímil do que tantas outras histórias de amor contemporâneas.

Mas isso não me cativou tanto quanto o plot secundário. A inteligência artificial realmente conquistou sua autonomia? Samantha fazia as coisas por conta própria, aproveitando tudo o que aprendeu com Theodore para evoluir, tornar-se mais humana, mais viva? Quando ela diz que vai se afastar, viver com outras IAs como ela, é o mais próximo da confirmação de consciência e autonomia que vemos nela.

Foi aí que senti semelhanças com Mass Effect, uma das minhas franquias favoritas. A trama das inteligências artificiais nos jogos é bastante secundária — ainda que tenha sido responsável por alguns dos melhores momentos na série — , mas ela ainda assim é aprofundada e nos obriga a refletir: o que faz de um ser vivo, “vivo”?

Theodore e Samantha, em vários momentos, discutem exatamente isso. Quão capaz de amar e ser amada ela é? A capacidade de simular sentimentos é a mesma coisa que senti-los? Nós somos programados pela natureza para traduzir sinapses e hormônios em abstrações para as quais demos nomes? As mesmas perguntas aparecem nos jogos da BioWare, que acrescenta ainda ideias como as de ser capaz de desenvolver seus próprios códigos de ética, conceitos filosóficos e aprender com a filosofia e a ética dos outros — aqui os humanos são pegos de surpresa entre seus próprios conflitos com algo muito maior, que é a existência de vida inteligente em outros planetas numa variedade cultural e biológica quase incompreensível para nós. Não ter um corpo orgânico invalida seu direito como ser vivo?

Vivemos hoje em uma época um pouco mais consciente. Estamos começando a realmente entender — ou ao menos debater — o valor da vida, ainda que com seus obstáculos rochosos e eventuais incoerências. A simples ideia de adicionar um novo problema a essa equação me faz imaginar as centenas de possibilidades que seriam consequências de questões como “e se nossas opções sexuais também incluíssem computadores?”. O grande choque de Ela acontece quando Samantha admite sentir-se muito distante de Theodore porque é incapaz de senti-lo, tocá-lo, expressar tudo o que acredita nutrir por ele. Na mitologia de Mass Effect, isso aconteceu quando uma unidade da raça de robôs Geth pergunta a seu criador Quarian, “Esta unidade tem alma?”. O limite entre a consciência e sua inexistência é o reconhecimento de nossos limites? Ou a curiosidade que você sente por outra consciência é suficiente para te classificar como um ser vivo? A simples autoconsciência da inteligência artificial é capaz de torná-la um ser vivo? Um sim ou um não para questões como essas podem nos levar a questionar sobre nossa própria condição e as dos outros animais.

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E não existe uma resposta prática para isso. O fato de uma criatura ser sintética faz dela menos viva que as orgânicas? A ficção tem lidado com essa questão em um grau maior ou menor de profundidade há algum tempo. Exemplos como o de Mulher Nota 1000 de John Hughes, o mangá Video Girl Ai de Masakazu Katsura, no universo Marvel o robô Visão casa-se e tem filhos com a Feiticeira Escarlate, os replicantes de Blade Runner, menções a autoconsciência de Dróides no universo expandido de Star Wars (os próprios R2-D2 e C3PO nos filmes parecem seres vivos únicos, mas dentro daquele universo apresentado nos filmes, não passam de simples robôs aos olhos das pessoas).

Mass Effect só brincou na superfície da reflexão sobre a possibilidade do amor entre um humano e uma máquina quando encontraram um possível par romântico no piloto da nave Normandy, Joker, e na inteligência artificial que a controla, EDI. Eles acabaram apelando para a alternativa mais fácil de dar à inteligência artificial um corpo com o qual o humano seria capaz de se relacionar. Spike Jonze evita justamente isso, e quando adiciona um atalho simples para o problema que Samantha e Theodore enfrentam, logo o desmoraliza, transformando em uma cena cômica que arranca risos nervosos do público, que em vários momentos revela o desconforto com aquela situação em que um homem faz sexo com seu computador sem toque, sem fluídos, solitário. O que é estranhamente aceito pelas pessoas ao redor do protagonista em Ela, imagino que seja por também se verem em situações parecidas. Todo o mundo parece absorto na mesma realidade alienante de Theodore e em vários momentos é sugerido que ele não seria o único conversando intimamente com sua inteligência artificial pelas vielas de Los Angeles. Um reflexo de toda a sociedade vivendo em função de seus computadores e do universo conectado existindo neles.

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Se acabássemos em uma realidade parecida, como reagiríamos a inteligências artificiais tão autônomas quanto pessoas comuns, limitadas apenas pelo aspecto físico da falta de um corpo? Negaríamos essa condição? Que poder temos nós disso, ou que fator impediria-nos de classificá-los como “indivíduos” ou “seres vivos”? Amar uma dessas máquinas seria proibido mesmo consensualmente? É interessante quando algo que pode muito bem jamais acontecer ocupa nossas cabeças porque, se virar real, é capaz de mudar tudo.

Ponto Ômega

Futurismo, ficção científica, tecnologia, cultura e arte.

Marco Rigobelli

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Escritor e redator freelancer. Groko, logo existo.

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