Entrevista com Antunesketch, criador do curta Neon Station 7

Saiba mais sobre o artista brasileiro que está trabalhando sozinho em uma animação que revive o cyberpunk ao estilo Moebius

Lidia Zuin
Dec 8, 2016 · 6 min read

Agora é oficial: o cyberpunk é aqui! Depois de apresentarmos Janaina Overdrive, ainda descobrimos mais um expoente da produção audiovisual brasileira a trabalhar em um curta, desta vez de animação, com foco no subgênero da ficção científica. Dono de um pequeno estúdio de animação e computação gráfica em Tubarão, Santa Catarina, João Antunes Jr. tem lançado teasers de um projeto de curta chamado Neon Station 7 em uma página que criou no Facebook para divulgar seus trabalhos.

O curta é uma criação solo de Antunes, com a colaboração de Rodrigo ou R-ODD no desenvolvimento da trilha sonora e de Bruno Anjos no design de som. A previsão é de que a obra seja lançada no ano que vem, mas não há uma data determinada ainda. Sem monetização, Antunes resolveu usar seus próprios recursos para trabalhar no curta que trata do encontro entre um técnico de comunicações e de uma garota em fuga, que por um motivo desconhecido está em problemas com as forças de segurança de alguma corporação. Seu objetivo é chegar até a estação Neon Station 7, que fica em órbita. Como descrito pelo artista, parte da história se passa em um bar sujo, exalando ferrugem e faíscas que só permite acesso a robôs ou pessoas modificadas.

Conversamos com Antunes para saber mais sobre suas inspirações e sobre o que mais está por vir:

P.O.: Como foi que você conheceu o gênero cyberpunk e quais são suas obras preferidas?

Antunes: Conheci primordialmente através da revista Heavy Metal, ainda nos anos 80, lendo histórias como Ranxerox, do italiano Tanino Liberatore, e Rebel do espanhol Pepe Moreno. Mais pro final da década meu pai entrou em casa com um aparelho de vídeo cassete e aí eu descobri as locadoras. Eu já gostava muito de ficção científica, mas aquela estética mais eletrônica, carregada, oprimida, suja, com fios à mostra me atraía mais do que o futuro imaculado e otimista de outras obras. Então conheci Blade Runner, Tron, Fuga de Nova York, Robocop e fui fisgado de vez.

Nos quadrinhos, falando especificamente de cyberpunk, além das histórias que já citei, fui apresentado [ao gênero] através da revista nacional Paralelas a partir do traço do argentino Horácio Altuna e do brasileiro Watson Portela. Estes, juntos com o francês Jean Giraud Moebius, até hoje são uma grande inspiração no que eu faço. Também cito os filmes Akira, Ghost in the Shell, Strange Days, Hardware e não poderia deixar de citar a Trilogia Sprawl de William Gibson (Neuromancer, Count Zero e Monalisa Overdrive) e Snow Crash, de Neal Stephenson.

A ideia do bar sujo de Neon Station 7 veio de Neuromancer?

Veio. Mas também tem um pouco da cantina de Star Wars, onde ao contrário do que estou fazendo ali, não se permitem androides. Tem um pouco de Deus Ex (videogame) também. A ideia é que seja um lugar onde os semelhantes, marginalizados ou isolados pelos melhoramentos cibernéticos, possam se encontrar e socializar sem preocupações.

A sua influência em Moebius também faz com que alguns lembrem das ilustrações do Josan Gonzalez quando vêem seu trabalho.

Conheço esse artista e acho o cara um monstro. Acho que a semelhança do que eu faço com relação ao Gonzalez e o próprio Moebius é que as nossas ilustrações têm cores vivas, traços definidos e pouca ou nenhuma sombra. No caso do Josan, tem o tema que ele explora também, claro. O que mais admiro na arte dele é a vivacidade do traço e as paletas de cores, reduzidas e equilibradas. Me sinto muito honrado quando alguém fala que meu traço se parece com o desses artistas.

Como será feita a trilha sonora do curta?

Depois que divulguei o teaser na fanpage do Facebook, conheci o Rodrigo Kirsten, ou R-ODD, que faz música eletrônica e produz artistas profissionalmente. Rodrigo já está trabalhando em uma trilha com base no animatic que montei e serve de guia para produção. Estou muito satisfeito com o que ouvi até agora. O próximo material animado que for divulgado já contará com a trilha dele. Além disso tem o Bruno Anjos, um amigo de longa data e colega de trabalho, que fará o design de som.

Por que decidiu fazer tudo sozinho?

Não estou totalmente sozinho, conto com a colaboração desses caras que citei na parte sonora. Mas claro, todo o roteiro, desenhos, animação e edição são sim, comigo. Quem lida com animação e publicidade, principalmente o pessoal que faz freela ou tem estúdio pequeno sabe que quando produz um trabalho cerca de 60% é coisa dele, o resto depende de interferência de fatores externos e que nem sempre o material sai como o visualizado pelo artista. Isso é normal. Então resolvi trabalhar em algo sem influência de ninguém, que pudesse alimentar e desenvolver como bem entendesse. A própria fanpage que criei no Facebook foi nessa direção, separada do profissional. É um carro acelerando em direção do escuro. Se vai ter uma parede lá no fim ou uma saída, só vai dar pra saber quando chegar.

Você pretende monetizar o projeto de alguma forma?

Já pensei nisso, mas este curta não, não vou monetizar. Pode demorar mais, mas quero fazer com meus próprios recursos. Talvez pra uma parte 2 ou um artbook que aproveite o material de produção, que é bastante grande. Mas isso é um grande talvez, coisa pra se pensar depois que terminar, sem pressa ou pretensão.

Qual é sua opinião sobre o gênero cyberpunk no Brasil e como você se vê como artista produzindo uma obra de ficção científica no Brasil?

Acho que pela diversidade cultural, os problemas que temos e os contrastes entre grandes corporações, manipulação de mídia e o gosto voraz que o nosso povo em todas as camadas sociais tem por comunicação e tecnologia, podíamos ter um cenário muito mais rico nesse gênero. Também há o fato de que ficção científica, principalmente esse subgênero, ainda é meio desprezada ou pouco valorizada culturalmente por aqui. Isso está mudando, mas acho que ainda é assim. Estou feliz de fazer algo para ajudar a mudar isso.

O que acha sobre as novas tecnologias que estão chegando e/ou estão para chegar? Como você vê o futuro ou como gostaria que ele fosse?

Procuro manter uma visão mais ou menos otimista da evolução tecnológica no sentido do desenvolvimento da inteligência humana, afinal hoje podemos comprar na esquina muito barato uma caixinha que nos coloca em contato com praticamente toda a informação disponível no planeta, porém através dela também temos acesso direto e não linear com tanta barbárie que ficamos meio anestesiados — essa banalização é algo que definitivamente me assusta. Temos tendência ao isolamento, somos egoístas e as mega corporações visualizadas na ficção já estão aí, ditando regras além das fronteiras dos países. Então apesar de sentir que a tecnologia pode nos salvar um dia, não deixo de perceber que infelizmente o futuro caminha na direção do distópico.

Tem alguma previsão média de quando vamos poder conferir o curta?

Uma data específica, não tenho. Depois da metade de 2017, setembro, chutando alto. É um trabalho demorado e feito em horas vagas, não há como prever. Mas vai sair, isso é certo. Quem quiser acompanhar mais de perto os progressos, pode seguir a fanpage no Facebook. Semanalmente posto novidades por lá.

Ponto Ômega

Lidia Zuin

Written by

Brazilian journalist, MA in Semiotics and PhD candidate in Visual Arts. Head of innovation and futurism at UP Lab. Cyberpunk enthusiast and researcher.

Ponto Ômega

Futurismo, ficção científica, tecnologia, cultura e arte.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade