High Tech, Low Life — cyberpunk concept art por Nivanh Chanthara.

o Cyberpunk e o Estado contemporâneo

um breve ensaio entre Willian Gibson, Gramsci & Cia

Compreender o mundo não é tarefa fácil. Das mais complexas, para ser bem sincero. Há aqueles que ficaram famosos em tentar decifrar os segredos naturais do planeta, outros ao investigar a organização social das nossas vidas e, ainda, sobra espaço para aqueles que se destacaram por nos apresentar diferentes visões do futuro.

Entre a ficção científica e a nossa sociedade há muito em comum. Não falta o que ser observado nas formas de Estado construídas por grandes nomes da ficção científica mundial. Futuros utópicos (e distópicos) que George Orwell, Aldous Huxley e muitos outros nos fizeram viajar através de máquinas temporais que estavam ali, dentro de nossas casas ou em bibliotecas pelo mundo. Não atoa, muitas destas visões do futuro foram certeiras, outras nem tanto. E justamente com essa proposta de comparar a literatura e a nossa sociedade é que escrevo esse breve ensaio, uma forma de traçar um paralelo entre a nossa estrutura política e o universo surgido na literatura fantástica.

A Scanner Darkly (ou o Homem Duplo no Brasil) adaptação da obra do escritor Philip K. Dick para o cinema.

O Estado, o universo e tudo mais…

Certamente o título desse artigo deve trazer alguma estranheza. De um lado temos a cultura pop representada por Willian Gibson e sua obra literária cyberpunk e, no outro, um famoso filósofo marxista que trouxe importantes contribuições sobre a nossa compreensão de Estado. Mas o que ficção científica e política tem em comum? Apenas tudo!

Pensar em uma sociedade no futuro (ou melhor: a nossa sociedade no futuro) é pensar em política, Estado e poder. Toda a organização de uma sociedade baseia-se nestas relações e, por mais que não sejam detalhadamente escancaradas em uma obra (como Orwell faz em 1984 ao nos entregar um capítulo inteiro com as regras impostas pelo Grande Irmão), elas sempre estão lá e são fundamentais para a concepção de um universo. De governos totalitários regidos pela repressão, como em 1984, até Estados que perpetuam a sua dominação pelo prazer, como em Admirável Mundo Novo, tudo pode ter uma correlação com a sociedade, seja de hoje ou do passado. Inclusive, essa comparação entre essas duas últimas obras clássicas é amplamente discutida e bastante interessante. Podemos conferir uma síntese desta discussão na imagem abaixo (em inglês), deixando bastante claro a fácil relação entre ficção e realidade (afinal, quanto de nós você reconhece nos quadros abaixo?).

Mas dessa vez vamos deixar os clássicos absolutos um pouquinho de lado e abraçar uma visão de futuro mais recente (e muito atual). Pela metade da década de 80 surgia um livro que viria a revolucionar as formas de encarar o futuro, inserindo um conceito de sociedade mais próxima do que temos hoje e mais distante do assombro totalitarista que rondava o mundo durante até a Guerra Fria. O livro Neuromancer consolidava o universo cyberpunk, um conceito de futuro caracterizado pelo simples conceito de “High Tech, Low Life” (em tradução livre: muita tecnologia e pouca qualidade de vida). Willian Gibson, o autor desse livro, seria um importante questionador do papel da tecnologia e do capital nas sociedades do futuro conjuntamente com outros grandes nomes, como Philip K. Dick, por exemplo. Hoje, mais do que nunca, esses universos imaginados já fazem parte da nossa realidade.

Porém, antes de nos aprofundarmos no universo cyberpunk e sua organização política, precisamos voltar aos pensadores e compreender um pouco melhor o Estado contemporâneo. Dessa vez, vamos nos atrelar aos conceitos de Gramsci e Poulantzas para identificar mecanismos do poder e, posteriormente, ver onde eles estão presentes em nossa vida e na literatura distópica.

Quem é esse tal de Gramsci e o que tem haver com isso?

Antonio Gramsci foi um filósofo e escritor italiano que buscou nas linhas marxistas uma forma de compreensão do Estado. Seus escritos, em grande maioria feitos no cárcere, tiveram destaque nas concepções do poder no ocidente, especialmente relacionado ao que foi chamado de Teoria da Hegemonia Cultural. Aqui, neste artigo, vamos nos concentrar de forma simplificada em três conceitos da sua teoria para melhor compreender a figura do Estado: hegemonia, legitimidade e consentimento.

Tudo se inicia com um interessante adendo que o italiano trouxe para as visões do Estado até então:

Examinando a superestrutura das sociedades de capitalismo avançado, o autor distingue em seu conceito de “Estado Integral” ou “Estado ampliado” duas esferas, por ele denominadas de “sociedade política” e “sociedade civil”. (NÉSPOLI, 2014)

Assim é introduzido um importante elemento no estudo do Estado, a sociedade civil, correspondendo ao universo “privado” (leia: o que não é público). Como é a relação entre a sociedade política que compõe Estado e a sociedade civil? Como há um equilíbrio? Bem, para isso vamos recorrer aos conceitos anteriormente comentados.

Paisagem futurista de Los Angeles em Blade Runner: intensa verticalização e influência do mercado.

Hegemonia

Se recorrermos ao dicionário ou ao significado da palavra, podemos já compreender o conceito:

1 Supremacia de um povo nas federações da antiga Grécia. 2 Preponderância de uma cidade ou povo entre outros povos ou cidades. 3 Preponderância, supremacia. (MICHAELIS, 2016)

De forma simplista, a hegemonia compreende a posição de liderança de uma instituição perante os demais. Ou uma classe social perante as demais. Ou um Estado perante a sociedade. Poder, amigos, poder.

Pelo sentido atribuído por Gramsci aos termos: no âmbito da sociedade civil as classes buscam exercer sua hegemonia, ou seja, buscam ganhar aliados para seus projetos através da direção e do consenso; por meio da sociedade política, ao contrário, exerce-se sempre uma dominação fundada na coerção dos grupos subordinados. As duas esferas distinguem-se ainda por uma materialidade social própria: enquanto a sociedade política tem seus portadores materiais nos “aparelhos coercitivos do Estado” (polícia, exército, sistema jurídico), os portadores materiais da sociedade civil são o que Gramsci chama de “aparelhos privados de hegemonia” (igrejas, meios de comunicação, partidos políticos, sistema escolar, sindicatos, diversas organizações sociais, empresas, instituições de caráter científico e artístico, etc). (COUTINHO in NÉSPOLI, 2014).
1984, o filme: Estado busca consentimento através da repressão e propaganda.

Legitimidade

A legitimidade de um Estado está relacionada com a sua capacidade em manter uma unidade, envolvendo as diversas peças que compõem o seu todo (sociedade política+ sociedade civil).

Assim, a hegemonia e a legitimidade de um Estado estão intimamente ligadas e dependem de um delicado equilíbrio. Se em um determinado momento houver um aparente comprometimento da autoridade de uma classe dominante (leia: hegemonia), por exemplo, toda a legitimidade de um Estado pode ser questionada, pressionada e derrubada.

Em uma palavra, a raiz da legitimidade do mando está no consentimento daquele que obedece. Temos, portanto, um conceito muito bem definido, capaz de um uso analítico muito preciso e muito específico. (WEFFORT, 1988)

Logo, se um governante não satisfaz os interesses daqueles que detém o poder, a classe dominante, sua autoridade é colocada em xeque.

Consentimento

Como acabamos de ler na última citação, a principal forma de se manter a legitimidade de um aparelho político, e prover a hegemonia de um determinado grupo, é o consentimento; ou seja, a “permissão” de um indivíduo, povo ou nação em ser governado.

Para Gramsci, o processo de ampliação do Estado desempenhou um papel fundamental na reestruturação do poder burguês dentro da sociedade contemporânea. Deste modo, a hegemonia de um grupo social é construída através de uma ação integrada entre sociedade civil (educação e consenso) e Estado (atendimento reivindicações). Os aparelhos privados de hegemonia difundem a ideologia dominante e tentam obter a adesão e o consentimento das classes subalternas, convertendo esses elementos em aceitação da dominação através da atuação do Estado. (AMARAL in MOTA in NÉSPOLI, 2014)

Para se manter a hegemonia de uma classe, grupo ou governo são utilizadas diversas formas de alcançar o consentimento da população. Seja através da educação, dos mecanismos midiáticos, do atendimento das necessidades impostas aos governante, da influência ideológica, supressão econômica ou repressão. Assim, o Estado compreende não somente o seleto grupo que detém o poder da tomada de decisões, mas todo um conjunto de ações que possibilita a classe dominante se manter no poder e ter o consentimento dos demais, mediando conflitos e mantendo a ordem entre todos.

Por “governo de massas”, Gramsci se refere ao incremento da participação das massas na política, acontecimento que deu forma a um novo padrão de relacionamento entre Estado e sociedade civil, ampliando necessariamente a dimensão representativa no interior das relações de poder do Estado contemporâneo. (GRAMSCI in NÉSPOLI, 2014).
Cypher, de Matrix, e o consentimento controlado pelo prazer.

Arena de Lutas e Autonomia Relativa

Há muitos outros conceitos que podem nos auxiliar na observação dos Estados. Aqui escolhemos Gramsci, mas poderiam ser tantos outros autores (e, inclusive, poderão ser em um outro momento). Mas tendo optado pelos três conceitos acima descritos, vamos rapidamente evocar um grego que pode nos trazer mais dois conceitos interessantes para complementar nossa visão do Estado contemporâneo: Nico Poulantzas, sua arena de lutas e autonomia relativa.

Bem, vamos trabalhar brevemente com esses conceitos, pois eles são interessantes para se construir um entendimento da legitimidade de um governo com suas esferas civil e política lado a lado.

A arena de lutas justamente compreende toda a disputa política que está contida dentro do Estado, nos bastidores. Lá ocorre um intensa disputa por espaço para iniciativas que favoreçam um grupo ou outro. A busca por um equilíbrio entre essas iniciativas, que contemplem todos os grupos, acaba por alcançar o que chamamos de autonomia relativa. Isso ocorre quando alcançamos um aparente apaziguamento entre os que defendem políticas para A e os que defendem políticas para B; os que defendem a agricultura em latifúndios e os que defendem agroecologia em pequenas propriedades; a elite e os movimentos populares, por exemplo.

Desta forma, tanto Gramsci quanto Poulantzas nos apresentam um Estado que não é um bloco único, mas constituído de diversas partes e interesses. A busca por um equilíbrio entre essas partes através do consentimento possibilita uma autonomia relativa, mantém a hegemonia dos grupos dominantes e permite a legitimidade de um governo. O favorecimento de uma ou outra parte do Estado abala esse equilíbrio e gera conflitos.

Conflitos são manifestações das diferenças, como na animação Jin Roh.

E o Cyberpunk?

Os universos criados na literatura também tem sua organização social, política, cultural e etc. Se falarmos de sociedades utópicas/distópicas no futuro, isto se torna ainda mais interessante e presente: transforma-se em um exercício de futurologia.

Da Utopia de Thomas Morus até a série Star Trek, temos universos sendo criados com base na nossa observação da sociedade em que vivemos e nos possibilitando imaginar diferentes caminhos para nossa realidade. Aqui nos prenderemos a ficção científica, em especial ao cyberpunk, por ser um gênero literário que busca desenvolver seu enredo com certa aproximação com a realidade com base em conceitos científicos. Este é um dos links diretos entre estas narrativas e o mundo como conhecemos, já que estas não abrem mão em manter as principais leis e teorias que regem a nossa vida na Terra presentes em seus universos.

O cyberpunk tornou-se um vasto universo literário da década de 80 para cá, se transformando em uma visão recorrente do futuro na cultura pop. Autores como William Gibson, Philip K. Dick, Bruce Sterling e Pat Cadigan estão constantemente relacionados com o gênero. Filmes como Blade Runner, Matrix, Ghost in The Shell, Akira, A Scanner Darkly, Minority Report e tantos outros tem forte influência.

Dentre todos eles, destaca-se o romance Neuromancer de 1984, publicado por William Gibson e que se tornou uma referência direta ao cyberpunk. Na publicação são introduzidos conceitos tecnológicos que seriam apenas consolidados na nossa vida cotidiana anos depois, como: internet, ciberespaço, hackers, inteligência artificial, próteses cibernéticas, megalópoles, entre tantas.

A história acompanha o hacker Case em uma emaranhada trama que envolve grandes corporações, conspirações governamentais, gangues internacionais e a disputa por informações privilegiadas. Ambientada em sua maior parte no Sprawl, um aglomerado metropolitano que envolve cidades entre Boston e Atlanta, desenvolve-se em escala global, nos possibilitando conhecer um pouco da geopolítica deste universo que ainda é palco dos romances Count Zero (1986) e Mona Lisa Overdrive (1988).

E é justamente a partir do ambiente criado em Neuromancer que iremos traçar um paralelo entre os conceitos definidos por Gramsci, o universo cyberpunk e o Estado contemporâneo.

Versão brasileira da trilogia do Sprawl publicada pela Editora Aleph.

Cyberpunk e Estado

Traçar paralelos entre o universo criado na literatura cyberpunk e o nosso mundo não é mais uma tarefa difícil, já que podemos conferir referências por todo o lado. A partir de agora vamos tentar nos aprofundar um pouco mais na estrutura política deste universo.

Poder, pra quem?

Um dos aspectos clássicos que norteiam grande parte das narrativas cyberpunk é relação direta entre governos e corporações. Através da leitura de futuro desses autores fica explícita a crescente influência das grandes empresas e corporações “não oficiais” (máfias, gangues, cartéis, etc) nos mecanismos e interesses de um governo.

De forma objetiva, os interesses do Estado cumprem a função de suprir explicitamente os interesses das corporações, sejam conglomerados de empresas multinacionais ou máfias, por exemplo. Os negócios e o poder do capital determinam os caminhos que um governo irá tomar, seja referente a relações internacionais com outras nações ou da postura do Estado em relação aos cidadãos.

Traçando um comparativo com as teorias de Estado propostas por Gramsci, temos no cyberpunk um governo que trabalha em prol da classe dominante, as corporações, e obtém o consentimento da população através do prazer (tecnologias e comércio), da repressão (militarismo, socioeconômica e monitoramento contínuo) e do controle da informação. Assim, busca o alienamento da população de diversas formas, mas sempre propiciando controlar as liberdades de um individuo até um limite que não comprometa a hegemonia da classe dominante: as corporações.

Resumindo: no Estado cyberpunk a legitimidade do Estado está diretamente e explicitamente ligada ao mantenimento da hegemonia das corporações, utilizando de diversas ferramentas para obter consentimento da sociedade.

Repressão e tecnologia em debate no filme Chappie.

Autonomia relativa: nós e o Estado sci fi

Partindo para comparações livres, vale um exercício para começarmos a relacionar o Estado no futuro distópico do cyberpunk e o nosso atual formato, principalmente quanto aos seus instrumentos de poder.

O conceito que quero retomar para a comparação é o de autonomia relativa, em especial. Como vimos, a autonomia relativa está ligada diretamente a legitimidade de um Estado, sendo a condição que representa a capacidade de governar uma nação, por exemplo. Para se obter autonomia mediante os demais, um Estado precisa satisfazer as reivindicações dos diversos segmentos da sociedade civil (em especial da classe dominante) e casar com as propostas da sociedade política.

Na nossa atual situação, sendo bastante simples na análise, há um Estado que busca satisfazer tanto os anseios dos setores populares quanto das empresas, empresários e investidores. É um equilíbrio delicado, cujo balanço para um lado ou para outro pode comprometer a legitimidade e governabilidade. Por mais que um ou outro grupo diga que um determinado governo favoreça um determinado setor da sociedade civil, isso sempre será negado ou disfarçado. O favorecimento de um determinado grupo, classe ou segmento nunca é explícito, mesmo que possamos observá-lo, já que isso comprometerá a legitimidade.

No universo cyberpunk, temos um futuro distópico onde essa aparente preocupação em demonstrar equilíbrio não é mais tão importante. O Estado serve como instrumento direto aos interesses das corporações, deixa isso explícito e não se importa tanto com o que o restante da sociedade civil pode pensar a respeito. Justamente porque seus aparelhos de consentimento são muito eficientes.

Desta forma, podemos considerar o Estado cyberpunk como uma visão de futuro onde os interesses de um determinado setor da sociedade civil, a classe dominante, se tornaram superiores aos interesses de toda a nação… de forma totalmente explícita e destemida. Isso já acontece hoje? Segundo muitos pensadores, acontece desde o surgimento da concepção de Estado como conhecemos. Por vezes de forma explícita… em outras, mais discretamente (certamente um bom tema para ser discutido em uma próxima oportunidade).

“ Resist is futile! ”

Parafraseando a famosa frase dos Borg em Star Trek, quem detém a hegemonia acredita fielmente em seus mecanismos para o consentimento.

No Estado cyberpunk o consentimento é feito através do prazer (tecnologias e consumismo), da repressão (militarismo, socioeconômica e monitoramento contínuo) e do controle da informação.

Digo consentimento pelo prazer quando se utiliza da tecnologia para alienar um indivíduo, fazendo-o passar longas horas do seu tempo ocioso atrelado a uma atividade e assim bloqueando manifestações do pensamento crítico. Realidade virtual (e aumentada), implantes cibernéticos recreativos, imersão no ciberespaço, o consumo de drogas e a ambição consumista podem se encaixar nessa categoria. Assim, o Estado consegue saber exatamente o que o indivíduo faz, o que quer e onde vai estar… cortando qualquer forma resistência pela raiz.

Um bom exemplo de consentimento pelo prazer é o regime governamental apresentado em Admirável Mundo Novo (e seu SOMA) ou a figura de Cypher em Matrix, que prefere abrir mão de ter o conhecimento da realidade em troca pela “ilusão” na forma de prazer.

No curta metragem argentino Uncanny Valley somos apresentados aos dependentes da realidade virtual.

Nem sempre se fala diretamente de repressão pelo Estado no cyberpunk, pois muitas vezes sua figura está tão diminuída que até mesmo as corporações assumem esse papel. De modo geral, o papel da força em prol da hegemonia é feito abusando da maior vantagem em relação a classe dominada: o capital. O alto nível tecnológico da época em conjunto com grandes investimentos possibilita defender a hegemonia e os interesses da classe dominante com o que há de mais moderno e letal, abusando de arsenal tecnológico e da espionagem com o monitoramento contínuo da população.

Bons exemplos podem ser observados em Juiz Dredd (autoridade policial que assimila os poderes legais de investigar, julgar, condenar e executar em uma New York do futuro) e o clássico Robocop, que nos lembra o papel histórico da polícia e do exército: sanar os conflitos entre os grupos que constituem a sociedade. A força de repressão é tão intensa e rentável que muitas vezes a própria sociedade civil também assume o seu papel, como no surgimento de forças paramilitares e a figura dos caçadores de recompensa como acompanhamos em Cowboy Bebop, sempre em prol de interesses próprios e/ou em consonância com aqueles quem detém a hegemonia.

Juiz Dredd (2012) em adaptação para o cinema, uma caricatura da ultraviolência de um Estado do futuro.

Em relação ao monitoramento contínuo d apopulação, destaca-se o importante romance A Scanner Darkly de Philip K. Dick, adaptado para o cinema em 2006 por Richard Linklater.

A própria segregação socioeconômica surge como mecanismo de repressão no Estado distópico do futuro, sempre trabalhando com o intuito de separar aqueles que detém o capital e as classes subjugadas. E claro, essas diferenças e desigualdades intensificam os conflitos que acabarão sendo intermediados pelo Estado. Isso fica bastante didático ao observarmos a sociedade criada em GUNNM (ou Alita Battle Angel), onde a cidade Zalem literalmente flutua nos céus e é destinada apenas a nata da sociedade, enquanto boa parte da população vive em péssimas condições entre o emaranhado desordenado da Cidade da Sucata. Ascender à Zalem é um sonho para muitos… a que preço?

Por fim, mas não menos importante, destacamos o controle da informação, trabalhando em prol de um controle ideológico sobre os indivíduos. Seja através das tecnologias que promovem o prazer ou dos meios midiáticos, o Estado controla de formas diretas e indiretas o que é consumido pela população. Destacando produtos e informações que vão em encontro ao mantenimento do poder da classe dominante. Não há independência nos grandes órgãos midiáticos e a educação é moldada para barrar o pensamento crítico, evitando rebeliões e criando mais consumidores deste estilo de vida. Em Robocop, tanto em sua versão original quanto na recente, podemos acompanhar bem o papel da mídia e da propaganda sobre a opinião pública.

Informação é poder (e quem detém o poder sabe disso).

Johnny Mnemonic, um “transportador” de informações, é apresentado na obra de Willian Gibson e no cinema.

Resistir é possível

Dentro da literatura distópica e cyberpunk sempre cabe a um seleto grupo a tarefa de resistir perante ao Estado e as corporações. Sempre à margem da sociedade, são parte da periferia destes universos e transformam isto em um aliado.

Como notamos, os instrumentos de consentimento dos governos são muito afinados e resistir fisicamente torna-se inviável, frente ao nível de diferença tecnológica e monetária entre as classes. Normalmente nestes enredos, é comum que os heróis, como Case de Neuromancer, se infiltrem e tentem alterar o sistema através de outros artifícios…. especialmente com o uso da informação.

A informação é poderosa no universo cyberpunk, grandes corporações criam e destroem mundos em busca da informação correta. Porém muitas vezes é no emaranhado mundo periférico e no ciberespaço que a luta fica de igual para igual. Não atoa, o ciberespaço é tão explorado em Neuromancer, onde são criados conceitos como Matrix e a realidade aumentada, uma forma de interagir “fisicamente” com a internet. Justamente por isso, hackers assumem papéis de protagonistas na resistência ao Estado/corporações, causam mudanças e desmoronam impérios em batalhas que envolvem programação, vírus de computadores e firewalls letais.

O ciberespaço surge como esse espaço sem regras e ilimitado em oposição ao espaço “real” que é totalmente controlado e monitorado. Um local onde a informação pode circular livremente, hegemonias podem ser desafiadas, meios midiáticos independentes podem se multiplicar e o conhecimento pode ser amplamente compartilhado.

Um paralelo com nossos dias atuais está em acontecimentos como os de Snowden, Julian Assange e seu WikiLeaks, expondo segredos e colocando em xeque a legitimidade de Estados pelo mundo. O próprio Ocupy Wall Street ou as manifestações de Junho de 2013 também parecem beber desta fonte, desta vez em uma manifestação coletiva. O mesmo vale para a evolução dos meios midiáticos independentes, propiciando qualidade de informação ao alcance de toda a comunidade (em contraste com a evidente imparcialidade dos grandes meios midiáticos). A própria universidade, quando consegue quebrar as barreiras autoimpostas com a comunidade, instiga o pensamento crítico perante o Estado através da discussão e de descobertas científicas. Como reflexo desse viés racional na sociedade (ou ao menos em boa parte dela), governos teocráticos foram menos comumente retratados nos futuros de livros e filmes nas últimas décadas (mas estão longe de serem inexistentes, vide Mad Max, uma prova que esse temor ainda existe).

Outra forma recorrente de resistência, e que podemos conferir em Neuromancer e os romances da trilogia Sprawl, é a consolidação de comunidades autônomas. Esses grupos são regidos por leis próprias e encontram-se, de certa forma, isolados das decisões governamentais externas. Claro, a sua existência só é possível se passar despercebida pelos olhares do Estado ou se não apresentar uma ameaça a hegemonia. Em caso contrário, ao serem alvo das máquinas do Estado, serão atingidas por violentas investidas, como acompanhamos na Zion de Matrix que é atacada pelos sentinelas por se caracterizar uma ameaça; diferentemente da Zion de Neuromancer. Um bom exemplo de comunidades deste tipo inseridas no universo sci fi está no conto Visite Port Watson, praticamente um guia turístico da ilha de Sonsorol: um paraíso autônomo no Pacífico.

O que talvez ainda não tenha ficado claro é: até onde iria o enfrentamento das hegemonias no universo cyberpunk? Se corporações caem, são destruídas, quem as substitui? Aqueles que resistem estão dispostos a compor um novo Estado ou estão ali apenas como instrumentos para a sua reforma? Este é um questionamento que fica, não somente para a literatura, mas também para a nossa visão do mundo atual.

As batalhas não vão ser televisionadas: linhas de código estão na linha de frente, como em Matrix.

O que o futuro nos reserva?

Pensar o futuro é uma atividade recorrente em nossas vidas. Sempre nos pegamos pensando e imaginando como será o nosso futuro, bem como o futuro de tudo em que está a nossa volta.

O grande número de ficções científicas distópicas nos demonstra que não estamos muito felizes com a nossa sociedade, temos medos e somos (ou estamos) um tanto pessimistas em relação ao futuro. Não que isso seja algo totalmente ruim. Na verdade, acaba por se transformar em um ótimo exercício de autoconhecimento, instigando o reconhecimento de erros e a capacidade de assumir que “sim, nós erramos em muitas coisas”.

Assumir erros e buscar compreender o mundo que nos rodeia devem ser os primeiros, e mais intuitivos, passos para a evolução.

Criar a nossa própria visão da civilização no futuro nos possibilita pensar: é esse o caminho que queremos? Estamos fazendo um bom uso dos recursos que desenvolvemos? Usamos as revoluções intelectuais e tecnológicas a nosso favor ou deixamos que sejam usadas contra nós?

Dos escritos de Neuromancer até hoje, se passaram 30 anos. A internet se fez realidade, foi revolucionária e hoje faz parte do nosso cotidiano. Instrumento de resistência ou mecanismo para o consentimento pelo prazer e manipulação da informação? Contestadora ou consolidadora do mundo como conhecemos?

Bem… isso cabe a cada um de nós responder.

Trailer do documentário High Tech, Low Life e o choque entre diferentes realidades na China.

Referências bibliográficas e links para download

CARNOY, 1994. ESTADO E TEORIA POLÍTICA.

NÉSPOLI, 2014. GRAMSCI E A INTERPRETAÇÃO DA SOCIEDADE CIVIL NA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA.

WEFFORT, 1988. DILEMAS DA LEGITIMIDADE POLÍTICA.

As referências de literatura, cinema e quadrinhos citadas no texto não foram catalogadas aqui por se tratar de um rol muito amplo e que não tenho como disponibilizar para download. Mas fico à disposição para ajudar a encontrar algum material…. ou discutir sobre ele [:

Angelina Jolie na época em que estrelou Hackers, filme de 1995

ps¹: esse artigo é um esboço, uma discussão, uma dialogação livre entre temas… portanto, não dogmatize, não trate o que está aqui como uma verdade absoluta; ele justamente está aqui para fomentar o debate e a pesquisa, fique a vontade para acrescentar conteúdo à discussão.

ps²: o universo cyberpunk é muito amplo, o assunto aqui tratado poderia ser um livro, mas é um mero textinho. Portanto, o assunto não se esgotou: conflitos socioambientais, urbanismo, arquitetura, política, medicina, tecnologia, economia, informação e muitos e muitos temas ainda podem (e devem) ser discutidos.

See you space cowboy…

Quanto do futuro há no presente? Cyberpunk concept art por Nivanh Chanthara.