O futuro entre os fantasmas do passado

uma entrevista com Mozart Freire, diretor de Janaína Overdrive

Gael Mota
Gael Mota
Nov 30, 2016 · 8 min read

Pensar o futuro é um exercício social, político e ambiental. É nesse sentido que Mozart Freire escreve e dirige o seu segundo curta-metragem, uma ficção científica ambientada em um Brasil que, apesar de futurista, carrega consigo antigos fantasmas da nossa atualidade.

Produzido em Fortaleza, o curta de 19 minutos tem feito sucesso pelos festivais do país, recebendo diversos prêmios, como ocorreu no último Festival do Rio. Entre as referências de futuro distópico, como do livro Mona Lisa Overdrive de William Gibson, sobra espaço para uma ótimo trabalho de fotografia e direção de arte enquanto acompanhamos a trama de Janaína, uma ciborgue interpretada por Layla Kayã Sah.

Em meio ao fascínio da ficção e da fantasia, surge a oportunidade para que, sutilmente, possam ser realizados questionamentos em relação à nossa sociedade, seus preconceitos e retrocessos. Com essa proposta, de debater o cinema independente, bem como a nossa percepção de futuro para o país, é que fui entrevistar Mozart (e você confere na íntegra).

Gael: Oi Mozart. Não posso esconder que cheguei até o seu curta-metragem por causa do título. Qual a sua relação com o cyberpunk e como você chegou nessa ideia de “vamos produzir um filme nesse universo”?

Mozart: Sempre gostei desse tema e o acompanho desde cedo através de filmes, animes, literatura, jogos de video game e RPG. Acredito que meu primeiro contato com o cyberpunk foi através de um jogo para SNES chamado Shadowrun de 1993, baseado em um RPG de mesa. Gosto bastante também dos livros do Willian Gibson: Neuromancer, Count Zero e Mona Lisa Overdrive e no cinema gostei muito de Blade Runner de 1982 do Ridley Scott.

Essa ideia de produzir um filme nesse universo eu tinha há bastante tempo. Quando assisti o filme Branco Sai, Preto Fica, do cineasta Ardiley Queirós, e Medo do Escuro, do Ivo Lopes, que são filmes de uma atmosfera de futuro fantástico. Fiquei bastante entusiasmado por eles trazerem esse tema e o realizar sem grandes recursos, computação gráfica ou efeitos especiais. Isso me inspirou muito. Nessa época eu estava terminando o curso de audiovisual da Vilas das Artes e apresentei o projeto do Janaína Overdrive para a turma e para uma banca de avaliação com três professores. O projeto foi aprovado, formamos uma equipe e o realizamos.

Essa não é a sua primeira produção, como está a recepção e o quanto você acha que evoluiu de um trabalho para o outro?

Essa é minha segunda produção. Realizei dois curtas-metragem na minha passagem pela Vila das Artes, estou inscrevendo os filmes nos festivais e felizmente eles estão circulando. Meu primeiro curta se chama Cinemão (2015) realizado em um dos ciclos da escola. Ele venceu o prêmio de Melhor Curta do júri oficial da Mostra Olhar do Ceará e o Prêmio Mistika de masterização em DCP no 26º Cine Ceará. Já o Janaina Overdrive (2016) foi o trabalho de término de conclusão do curso e venceu o prêmio de Melhor Curta do Júri Universitário também no 26º Cine Ceará . Acredito que evoluí bastante de um para o outro. Aprendi na prática com os erros cometidos no Cinemão, continuamos aprendendo. A Vila das Artes também deu bastante suporte para essa evolução com as conversas e orientações de professores e outros realizadores. Foi um processo intenso de aprendizado e colaboração entre a gente.

O filme de vocês faz um excelente trabalho de direção de arte e fotografia. Quais foram os recursos que vocês tiveram para a produção?

Bem, o Janaina é um filme de escola, né? Nesse sentido, tínhamos os equipamentos e o transporte para as diárias por conta da Vila das Artes. O resto foi conseguido através da produção da equipe, alunos da Vila, assim como eu. Desse modo, grande parte dos itens de arte do filme ou eram emprestados, ou vieram de ferro velho, sucatas e do lixo mesmo. Também buscamos dialogar com vários restaurantes para fechar a alimentação das diárias e tudo era mais ou menos nesse sentido: de conseguir recurso através do diálogo com os estabelecimentos. Em contrapartida colocaríamos a logo dos estabelecimentos nos créditos finais do filme. As lentes da câmera eram emprestadas, o travelling era emprestado, a máquina de fumaça era emprestada, até a máscara de gás de um figurante era emprestada de uma banda de Death Metal daqui de Fortaleza. Nesse sentido não sei nem precisar o custo total do curta já que muita coisa foi conseguida nesse sentido. Houve uma grande ajuda mútua e uma aposta bastante sincera no projeto entre de todos os envolvidos. Isso deu muita força ao curta.

Esse processo foi possível pelo compromisso e competência da equipe que estava realizando o filme comigo. Acho que um lance importante do audiovisual é você conseguir somar com pessoas que comprem a ideia do projeto e contribuam com ela com trabalho, ideais e comprometimento. Acho que tive sorte em realizar o filme com uma equipe tão potente.

Você acha que ainda demoraremos muito para ver mais personagens e atores que fogem dos padrões heteronormativos e binários no cinema? Por que até a produção independente também tem dificuldade em mudar?

Acredito, infelizmente, que vai demorar sim. A produção independente também tem essa dificuldade porque a sociedade de uma maneira geral é machista e cheia de preconceitos. Mas isso está sendo tencionado por várias realizações, coletivos e cineastas. Cito aqui um colega de escola Paulo Vitor Soares que realizou dois curtas lindos: Santa porque Avalanche e Antes da Encanteria. Espero que cada vez mais se prolifere filmes que desloquem essas posições de poder da sociedade, mas ainda há uma resistência muito grande a isso.

No sci-fi, especialmente no cinema, existe uma constante obsessão em transformar robôs em algo sexy, de Metropolis a Ex Machina convivemos com isso. Você acha que mesmo no futuro, a humanidade continuará a objetificar as pessoas e androides?

Acredito que sim. O fetiche sexual e a tecnologia já dialogam há algum tempo. Se entrarmos em um sex shop podemos ver vários artefatos eletrônicos. Hoje o mercado oferece a boneca inflável e seus derivados, amanhã o que pode vir a ser?

Essa objetificação está diretamente ligada com controle e poder. No cyberpunk a personificação disso se faz na forma das corporações e você traz isso ao roteiro na rebelião de Janaína contra o sistema. Quanto de Janaína há em nós?

Acredito que há muito de Janaína em nós. Fiz o argumento e roteiro do curta muito inspirado naqueles conceitos de “sociedade disciplinar” e “sociedade de controle” do qual falam Foucault e Deleuze. Vivemos passando de uma esfera de disciplina para outra. A família, a escola, a igreja, o trabalho. Todos esses lugares exigem de nós um certo comportamento e forma moral de pensar o mundo e nossos corpos, um enquadramento em normas e regras que nos produzem. Até o rádio, a televisão e a internet têm esse papel de produzir nossa subjetividade. Quem os controla dita o que ouvimos e vemos. Assim, a revolta da Janaína é um ponto de saturação dessa realidade que objetifica e controla as mentes e os corpos. É uma condição limite dessa sociedade de controle na qual todos nós, de uma certa forma, também nos submetemos.

Por que nós, brasileiros, ainda temos tanto receio em produzir ficção científica?

Isso talvez seja explicado pelo fato de o Brasil ainda ser um país muito religioso. Nosso contato com as narrativas de fantasia é muito mais ligado ao sobrenatural do que a ficção científica e dentro do sobrenatural a expressão religiosa cristã é predominante. Os mistérios da fé e as crenças religiosas ainda são uma referência muito forte para o cinema de fantasia daqui.

Outra possibilidade talvez seja pelo fato da ficção científica demandar um trabalho de arte muito grande e isso geralmente tem um custo enorme para o orçamento do filme. Pelos escassos recursos que o audiovisual nacional possui fica difícil realizar um filme assim.

Utopias e distopias estão constantemente nos acompanhando através de livros, filmes e outras mídias, demonstrando nossas esperanças e medos em relação ao futuro. Para você, qual o papel dessas histórias para a nossa evolução?

Acredito que essas narrativas sobre o futuro dizem muito da expectativa de um povo, sua visão de mundo, crenças e valores. Acho que as utopias e distopias falam de nossas cosmogonias e também de como nos relacionamos no presente. Como podemos nos organizar para chegar a determinado futuro ou para nos afastarmos dele. Assim, acredito que a nossa capacidade de calcular e fabular sobre o futuro também faz parte das nossas relações sociais.

Pra fechar. Como será sua cidade, Fortaleza, daqui 30 anos? É otimista ou pessimista quanto ao preconceito e outros temas que levanta o debate em seus filmes?

Bem, a partir do cenário político em que se encontra o Brasil, podemos perceber que a política brasileira caminha com uma bola de ferro presa aos pés, a qual é essa camada de velhos políticos, brancos, machistas, homofóbicos, religiosos e corruptos que se sentiram tão ameaçados nos últimos tempos, no que se refere aos seus privilégios, que decidiram dar um golpe não na presidenta, mas na democracia. Isso só demonstra que não há descanso para a luta contra a corrupção e a volta de velhos valores que dialogam com o fascismo. Nesse sentido, acho que temos que estar atentos, discutindo e debatendo direitos sociais, direito a livre sexualidade, através de filmes, música, teatro, performance, histórias em quadrinhos, textos, ações, enfim… Acredito que o futuro vai ser um reflexo de como lidamos com essas questões de preconceito e liberdade agora. Se relaxarmos o futuro vai ser apenas o reflexo desse golpe que a democracia brasileira e os direitos trabalhistas estão sofrendo agora com esse canalha chamado Michel Temer.

Olhando para o Janaína Overdrive, acredito que o “executivo clone”, personagem do Euzébio Zloccowick que é o representante da corporação, diz muito a respeito desta camada de políticos corruptos, moralistas, heteronormativos, machistas e polidos por uma máscara cristã que, em conluio com o Michel Temer e a Rede Globo, praticaram um sofisticado golpe no Brasil. Assim como a corporação quer acabar com a Janaína, descartando-a e colocando no mercado outro tipo de ciborgue. Esse presidente, junto com sua gangue, está desmontando as políticas sociais e descartando grande parte da população para atender a uma minoria burguesa de juízes, políticos e empresários.

Por fim: o trailer de Janaína Overdrive, ainda em circuito de festivais.

Interessado em saber mais sobre Janaína Overdrive e o momento das produções cinematográficas sci-fi no Brasil? Tente o ótimo artigo The Rise of Brazilian Transgender Cyberpunk que a Lidia Zuin escreveu para o Versions, certamente irá ampliar seus horizontes!

Ponto Ômega

Futurismo, ficção científica, tecnologia, cultura e arte.

Thanks to Lidia Zuin and Marco Rigobelli

Gael Mota

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Gael Mota

geoscientist and college professor; dreaming of electric sheep.

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