Pluvi.On: hackeando a chuva pela prevenção de desastres

Uma entrevista com Diogo Tolezano e Pedro Godoy

Gael Mota
Gael Mota
Jan 9, 2017 · 7 min read

Todos os anos, a mesma situação se repete em boa parte das cidades brasileiras: chega o período de chuvas e a apreensão pela ocorrência de enchentes e deslizamentos torna-se recorrente nas conversas do cotidiano. Diversas iniciativas para a gestão do risco de desastres são anualmente debatidas e aprimoradas pela comunidade acadêmica, técnica e a sociedade como um todo, em uma constante corrida contra o tempo que sempre nos dá uma impressão de estarmos em desvantagem. E é justamente com o intuito de colaborar nesta corrida que surge o Pluvi.On: uma rede de pluviômetros de baixo custo que atua na coleta de dados e facilita a comunicação entre a produção técnica e a comunidade. Tudo open source e em tempo real.

O Pluvi.On baseia-se na ideia dos pluviômetros clássicos, usados há décadas como um dos principais instrumentos para a gestão de situações de enchentes e deslizamentos pela Defesa Civil e outros órgãos que trabalham mundialmente com o tema. Quando a chuva começa, a pequena caixa transparente do equipamento, localizada em um ponto pré-estabelecido da cidade, começa a coletar a água em um pequena peça chamada bucket, dividida em duas faces que funcionam como uma espécie de mini gangorra. Quando a água da chuva enche uma dessas metades, o seu próprio peso faz com que o bucket tombe em seu eixo, liberando a água ali acumulada no interior do equipamento e expondo a outra face dessa mini gangorra para a coleta. Sempre que isso ocorre, o sistema do Pluvi.On registra a quantidade de milímetros precipitados e, futuramente, calculará a probabilidade de enchente em uma determinada região, com base nos dados de uma rede integrada de pluviômetros. A comunidade tem acesso a esses dados através de várias interfaces, como o São Pedro, um bot para Telegram que informa os dados da estação mais próxima.

Atualmente em fase de aprimoramento, o projeto foi um dos selecionados para a Red Bull Basement em 2016 [um makerspace que serve de residência para desenvolver ideias promissoras] e tem ganhado destaque entre hacklabs, fablabs e espaços maker do país. Sobre toda essa experiência em torno da criação do Pluvi.On, conversei com os seus idealizadores, Diogo Tolezano e Pedro Godoy. Essa conversa sobre Arduino, Internet das Coisas, Inteligência Artificial e tecnologias livres você confere na íntegra, a seguir.

Foto: Felipe Gabriel / Red Bull Content Pool (fonte: http://www.redbullstation.com.br)

Oi, Pedro e Diogo! Acho que não daria pra começar com outra pergunta: por que vocês decidiram trabalhar em um equipamento de dados meteorológicos? De onde surgiu a ideia do Pluvi.On?

O Pluvi.On nasceu da junção de dois caminhos. De um lado, buscávamos mudar nossas carreiras para algo que tivesse mais propósito, mais impacto positivo para o mundo e vínhamos estudando como a Internet das Coisas (IoT) e Inteligência Artificial (AI) poderiam ajudar nesse sentido. De outro lado, tínhamos uma grande inquietação com o tema de enchentes e inundações urbanas. Todos os anos, na temporada de chuvas, sempre nos deparamos com enchentes, inundações e até desabamentos em áreas de risco por todo país. Sabemos que as melhorias de infra-estrutura para solução desses problemas são de longo prazo e altíssimo investimento e, por isso, teríamos que colocar a mão na massa para minimizar os impactos provenientes desses eventos.

Vocês já tinham experiência com projetos do tipo? Quanto tempo se passou da concepção até o que a gente conhece hoje?

Não exatamente. Nosso background profissional é basicamente de consultoria de gestão e processos empresariais. Porém, quando começamos a experimentar Arduino e IoT, chegamos a prototipar a Lumi, uma jaqueta em que ciclistas conseguiriam “dar seta” pelas mangas acionando LEDs nas costas e sinalizando suas intenções de mudar de faixa para os carros e assim, aumentar a segurança em seus trajetos pela cidade. Essa ideia trouxe inúmeros aprendizados que aproveitamos para o Pluvi.On.

A ideia do Pluvi.On foi concebida em junho de 2016. A partir daí, resolvemos construir um primeiro protótipo para provar nosso conceito e, desde então, foram os seis meses mais acelerados que já vivenciamos. :)

Vocês fizeram residência na Red Bull Basement, como foi a experiência de submeter o projeto e como isso se refletiu em avanços na proposta?

Estivemos na residência da Red Bull Basement durante os meses de agosto e setembro de 2016. O grande objetivo dessa residência é evoluir protótipos que impactem positivamente a vida nas cidades. Quando conhecemos a ideia, submetemos o nosso primeiro protótipo, ainda feito em garrafa PET e fomos aprovados para o programa.

Durante os dois meses, passamos por uma série de mentorias de hardware, software e design que fizeram o Pluvi.On chegar no formato atual. Conseguimos alterar completamente o design, manter o produto com baixo custo, além de construir toda a infraestrutura de rede/banco de dados, API e o São Pedro, um bot do Telegram que criamos para as pessoas acessarem as informações do Pluvi.On mais próximo.

A evolução dos circuitos do Pluvi.On (fonte: www.pluvion.com.br)

Como tem sido participar de grandes eventos colaborativos?

Para nós tem sido uma grata novidade. Acreditamos na importância desses eventos pela exposição e conexões que são geradas a partir das atividades. Nos conectamos com muitas pessoas que já trouxeram excelentes insights para o projeto e também é uma fonte incrível de feedbacks e melhorias. Recentemente realizamos um workshop de produção de Pluvi.On’s no ColaborAmerica, onde pudemos experimentar o processo de construção do hardware por diversas pessoas com diferentes perfis e idades — aprendemos demais com isso!

Com baixo custo de produção em comparação a outros equipamentos, uma complexa rede de dados e uma proposta de interface responsiva para usuários, qual a colaboração que vocês almejam para o Pluvi.On na redução do risco de desastres?

Queremos chegar ao ponto de poder alertar em tempo real sobre os riscos de enchentes e inundações hiperlocalmente.

Entendemos que com uma rede densa de informações abertas de chuva, combinada com outras informações sobre o local, conseguimos aplicar algoritmos de Machine Learning para antecipar se naquela área específica, onde está instalada a estação, pode ocorrer uma enchente ou desabamento.

Acreditamos também que esse projeto só alcançará o impacto que imaginamos se muitas pessoas adotarem, construírem, cuidarem de suas estações e também compartilharem com a comunidade as melhorias e aprendizados. Com o engajamento da população, conseguiremos uma informação estatisticamente relevante para minimizarmos os estragos desses eventos e, potencialmente, até salvarmos algumas vidas.

O movimento maker e as tecnologias livres trouxeram o espírito DIY (Do It Yourself) novamente ao protagonismo. Como vocês acham que estes fenômenos podem impactar na qualidade de vida da população?

Acreditamos que o movimento maker pode acelerar as mudanças que as cidades precisam. Sabemos que o governo tem uma série de demandas, porém é uma máquina mais lenta para a solução de todos os problemas sociais. Hoje, com um acesso mais facilitado ao conhecimento técnico, a espaços de prototipação, como Fab Labs e makerspaces, somado ao barateamento de sensores, armazenamento e processamento de dados, um cidadão comum já pode ter ideias de melhorias na qualidade de vida das cidades e colocá-las no ar de forma rápida e com relativo baixo custo.

O próprio Pluvi.On foi baseado em uma série de tecnologias abertas e projetos open source. Nosso valor foi agrupá-los para uma solução onde ainda não havia sido aplicado.

Para aqueles que têm um projeto em mente e não sabem por onde começar, qual o conselho de vocês?

0) Identifique seu propósito — O que te motiva para dedicar seu tempo pra resolver esse problema? O que te move?

1) Busque referências: existem muitos projetos abertos e bibliotecas disponíveis na internet. Procure por projetos similares, termos parecidos e entenda por onde começar sua ideia.

2) Experimente: buscar referências pode ser uma atividade sem fim. Escolha um caminho pelo qual começar e experimente suas ideias. Teste diferentes sensores, aplicações, algoritmos. Parta do princípio que toda ideia é ruim. Ela só é lapidada quando colocada em prática.

3) Prototipe: é muito mais fácil explicar onde quer chegar e seu propósito com algo concreto e funcional em mãos. Dedique um esforço inicial para concretizar sua ideia em algo “real” e busque também complemento de pessoas que já trabalham com prototipação — dá pra encontrá-los nos makerspaces e Fab Labs, e com certeza podem ajudar muito a encurtar caminhos e acelerar seu protótipo.

4) Divida: divida sua criação com as pessoas. Esqueça os acordos de confidencialidade, propriedade intelectual e coisas do tipo — lembre-se: toda ideia, enquanto ideia, é ruim. Quanto mais feedbacks colher, mais rápido sua ideia avançará.

Para acabar: como será o futuro? É open source?

Acreditamos que o futuro será mais compartilhado, distribuído e abundante. Com mais pessoas compartilhando os recursos já existentes, somado aos avanços da tecnologia, conseguiremos aumentar o acesso, pelo menos aos serviços básicos e, com isso, abrem-se novas possibilidade de criação de mais projetos que gerem impacto positivo.

O open source é um dos caminhos para atingirmos esse futuro. Com mais pessoas compartilhando conhecimentos e melhorando ideias, conseguimos acelerar essa transformação.

Para saber mais: http://www.pluvion.com.br

Ponto Ômega

Futurismo, ficção científica, tecnologia, cultura e arte.

Gael Mota

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Gael Mota

geoscientist and college professor; dreaming of electric sheep.

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