Um olhar sobre Westworld

O que achamos que somos e o que as histórias nos mostram que somos

“Algumas pessoas escolhem ver a fealdade em este mundo, a desordem. Eu escolho ver a beleza. Acreditar que há uma ordem para nossos dias. Um propósito.”
— Dolores Abernathy

Assistir a algo — por mais envolvente que seja — sempre esbarra naquela sutil âncora de realidade que nos garante o prazer sem culpas. Seja um balde de pipoca gradualmente devorado, seja o abraço de alguém próximo no sofá, nada mais complicado e quase inatingível que uma absoluta suspensão de descrença — aquele momento em que você se conectou tão involuntariamente a uma história que cada fato que se desenrola na tela é capaz de te afetar diretamente. A história das estórias é justamente um embate constante entre nos convencer totalmente e nos perder diariamente — já que nossa evolução exponencial em consumo de mídia nos torna um mundo de espectadores cada vez mais difíceis de serem agradados e cada vez mais sedentos por novas narrativas que nos capturem, nos seduzam, nos convençam.

Hoje, a realidade virtual, especialmente a que permite uma imersão total, vem sendo tomada pelo elixir da eternidade para o entretenimento, a cada instante um pouco mais desgastado e previsível.

Westworld surge no apogeu do boom de séries, que vem revolucionando o modo como se contam histórias e tornando a TV um universo onde a experimentação e a novidade parecem mais comuns e adaptáveis que o Cinema, onde os custos elevados ainda tornam muitas ideias inviáveis. Surfando na maré de Game of Thrones, a HBO investiu nessa empreitada de Jonathan Nolan (irmão do cultuado Christopher, e seu parceiro em muitos roteiros) e J.J Abrams. A dupla já havia se encontrado em Person of Interest, que surpreendeu ao construir uma história que, mesmo presa ao clássico procedural (um caso por semana) teceu uma jornada que teve tons de ficção científica, flertando com distopias, inteligência artificial, sem contar os personagens cativantes. Ambos somaram forças com Lisa Joy, esposa de Nolan que assumiu uma parte essencial do comando criativo de Westworld, já que além de produtora assumiu o papel de roteirista.

A nova série, que teve sua produção marcada por atrasos e disputas internas, veio desde o primeiro capítulo despejando mistérios em uma trama que parecia não poupar o espectador. Abrams, já acostumado ao big bang de teorias (especialmente após ter coroado sua carreira com Lost) deve se sentir confortável com as inúmeras especulações surgidas na internet quase que imediatamente após a estreia. Nolan, acostumado a tramas complexas, faz sua presença ser notada nas brincadeiras com linhas temporais, existencialismo e psicologia.

O que Westworld proporcionou foi uma temporada onde a história foi a grande protagonista. Não apenas a história da série, mas a história do que são as estórias, e porque elas funcionam, ou não. Baseado no filme homônimo de 1973, cujo roteiro foi escrito por ninguém menos que o criador do livro Jurassic Park, a série usou sua premissa — um parque em que visitantes interagem com robôs dotados de inteligência artificial, no intuito de imergir em uma grande narrativa sobre o Velho Oeste Norte-Americano — para ir além e criar uma irrestível fogueira própria, uma história sobre o nosso mundo e o mundo dentro de nós.

Cartaz do filme de 1973

Se na trama a tecnologia é usada em todo seu potencial futurista para proporcionar o sentido mais completo de imersão, a série se permite absorver o estado da arte em efeitos especiais cuidadosamente criados — nenhum excesso, tudo em prol da história que se quer contar — dentro da nossa já conhecida televisão.

O parque é tanto um Éden corrompido, onde a perfeição e o equilíbrio funcionam a serviço de visitantes que buscam a catarse através de violência, aventuras cuidadosamente planejadas, sexo e curiosidade; quanto um samsara budista — o fluxo incessante de nascimento e morte. Afinal, os robôs — ou hosts (anfitriões), como são chamados — são mortos, de formas cada vez mais violentas, para renascer em um novo dia e repetir seu ciclo de histórias, com as memórias apagadas e os corpos refeitos.

Logo de início, fomos apresentados aos personagens que nos conduziriam pela trama: Dolores, (Evan Rachel Wood) cujo papel desde cedo é carregado de mistério em torno da própria consciência e de uma eventual memória, que parece não ter sido tão apagada quanto seus outros colegas. Ela parece ser o eixo através do qual a série nos faz questionar, como já fez o precursor da computação Alan Turing, anos atrás, “As máquinas podem pensar?”. Em paralelo, acompanhamos o misterioso Homem de Preto (Ed Harris), que se revela um hard-gamer, totalmente imerso (ou submerso?) no jogo. Alguém, que como nós espectadores, já atingiu com Westworld o que muitas pessoas já atingiram com as histórias — o esgotamento e, por consequência, a busca por um novo nível de entretenimento. Maeve (Thandie Newton) , a dona do cabaré, também tem sua jornada conduzida pelo crescente ganho de consciência, e por uma eventual rebelião contra as cordas que a manipulam. “There are no strings on me?”, citando Pinóquio, aqui uma liberdade muito mais sombria e com consequências muito mais sensíveis.

“Conseguimos escapar da prisão evolutiva, não é? Nós podemos curar qualquer doença, manter até o mais fraco de nós vivo e, um belo dia, talvez até ressuscitaremos os mortos, invocaremos Lázaro da caverna dele. Sabe o que isso significa? Que estamos acabados. Que isto é o fim da linha.”
— Robert Ford
Dr. Robert Ford

Por trás do parque, ainda somos conduzidos pelo dia-a-dia administrativo, em que o jogo de poder se faz presente entre Dr. Ford (Anthony Hopkins) e os eventuais representantes do conselho da empresa. Ford é o clássico personagem que tende a brincar de Deus, colocando-se acima do o bem e do mal. Ao seu lado está Bernard (Jeffrey Wright ), que se mostra um dos mais curiosos e surpreendentes personagens. Um estudioso do caráter e do que nos define humanos, mas acima de tudo marcado pelas próprias particularidades.

Aos poucos, um bug na programação das personalidades (que a cada momento aparenta ser parte de um grande e cuidadoso plano) se revela um potencial desastre. O que afinal está acontecendo aqui? — é a pergunta inevitável. Aos poucos, o que antes não passava de um entretenimento planejado e protocolar, com hosts sob controle — atendendo a comandos e presos a narrativas criadas para eles — passa a ser um mistério em torno do quanto eles realmente entendem e o que eles realmente entendem. Afinal, não é o destino de todas as grandes histórias, sair do controle de seus criadores?

Em suma, a série é uma viagem por um mundo que resgata o que as estórias vem representando (ou deixando de representar) para nós. Desde os primórdios dos pequenos grupos ao redor de uma fogueira, para quem o mundo era um todo assustador e curioso, onde poderíamos ser devorados sem os deuses e as manifestações do sagrado (o que soa como uma imersão em histórias com outras tecnologias que não as de VR); até o mundo de hoje, onde nosso próprio ceticismo em relação ao entretenimento é parte de um jogo de acreditar e não acreditar, proximidade e distanciamento, deixar-se envolver ou não. Westworld parece nos querer lembrar de como as histórias mudam mas, acima de tudo, como mudamos através dela. Ou, mais precisamente, como nos revelamos através dela. Como Ford diz em um dado momento: ‘o artista usa a mentira para criar uma verdade maior’. Os visitantes afinal, não revelam quem são através da violência sem culpa, desse crueldade que tanto satisfaz, mesmo amparada pela certeza de que “nada daquilo é real?”

“Eu tenho fingido toda a minha vida. Fingindo que não me importo, fingindo que pertenço. Minha vida está construída sobre isso. E é uma boa vida; É a vida que eu sempre quis. Mas então eu vim aqui, e eu tenho um vislumbre por um segundo de uma vida em que eu não tenho que fingir, de uma vida em que eu possa estar verdadeiramente vivo. Como posso voltar a fingir quando eu sei o que é sentir isso?”
— William

E aí a série revela sua verdadeira questão: o que é real? Não como Matrix, onde o mundo é uma grande simulação, mas o quanto desses atos perdoados por serem dirigidos a ‘seres artificiais’ não são tão ou mais questionáveis quanto se acontecessem com qualquer um de nós? O real não é definido apenas pelo que existe, mas como nos relacionamos com o que nos faz existir. O que Westworld consegue é nos manter curiosos, incomodados, absorvidos. Mais do que isso, questiona nossas ideias sobre o que é ser humano (um verbo e não uma definição). Afinal, o quanto a vida acaba programando nossas identidades a partir das histórias que incorporamos? A série resgata como mesmo o sofrimento é tão importante para o que somos quanto o prazer. Afinal, todo sofrimento é em si uma história, com a qual nos conectamos e nos definimos. Com esse princípio em mente, esses seres criados para nossa diversão não sofrem e se apegam à vida tanto quanto nós mesmos?

“Vocês costumavam ser belos. Quando este lugar começou, uma vez abri um de vocês, um milhão de peças perfeitas. E então eles mudaram vocês, fizeram de vocês esta triste, pequena bagunça, carne e osso, tal como nós. Eles disseram que iria melhorar a experiência do parque. Mas você sabe por que eles realmente fizeram isso? Era mais barato. Sua humanidade é econômica, assim como seu sofrimento.”
— Homem de Preto

Tantas camadas de significados e símbolos são produzidas ao longo da trama que é difícil esmiuçar cada uma delas em um único texto. As referências estão lá, como que para nos lembrar onde exatamente estamos (alguns faróis na jornada): filosofia, Shakespeare, teorias psicológicas obscuras, Radiohead: uma teia cuidadosamente criada, um tarot de ideias disposto ao longo de uma cadeia de eventos muito bem amarrada.

A jornada da série é a jornada da singularidade — onde a inteligência artificial dos hosts evolui, um passo a cada episódio, em direção à consciência: deles mesmos, das verdades e mentiras do mundo que os cerca. Se preferirem, é a mais pura reprodução do Mito da Caverna de Platão: o clichê de despertar e perceber que o mundo onde se está é apenas uma parte do mundo que realmente existe. Se em muitas publicações na internet os espectadores demonstraram incômodo por verem tantas teorias suas confirmadas, a verdade é que essa dose de certeza é o que a série precisa para não se distanciar do público. Ao contrário: cada teoria confirmada é seguida de uma consequência surpreendente. O que importa não é tanto nós sabermos, mas observar — com um nó na garganta e uma atenção hipnotizante — o que aqueles seres criados por mãos humanas farão ao saber quem eles são. Ao entender e ganhar uma consciência — não humana, mas uma consciência única, eles são talvez o próximo passo para além das estórias sob as quais nosso mundo foi confinado. O clássico “It’s alive” de Victor Frankenstein - agora devidamente revisitado - nunca fez tanto sentido.

O grande desafio de Westworld é se reinventar, para além de um mundo cuja mitologia já foi bem estabelecida. Nolan terá dois anos para atingir o próximo degrau. Resta apenas esperar o que virá pela frente, com novos olhos sobre quem nós mesmos somos.

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