Escola Austríaca

O Futuro da Economia?

por Guilherme Marques da Fonseca

Com o desenrolar da actual crise económico-financeira, tem-se verificado um forte e constante hábito de se remeter a linhas de pensamento político, filosófico e económico diferentes das habitualmente conhecidas e já tão rebuscadas pelos média. Uma coisa têm em comum as mais graves crises vividas pelo Homem, sejam elas de índole económica ou não: as ideologias e os paradigmas são revistos e questionados com base na incerteza sentida em relação àquilo que julgamos serem dados adquiridos. Em suma, tendemos a questionar a capacidade de resolução de problemas por parte dos nossos métodos convencionais de análise dos acontecimentos.

Desde o início da actual crise económica mundial, tem-me parecido óbvio que o debate central não passa pelo fim do Capitalismo, mas sim pela sua reformulação: um novo pressuposto é necessário para triunfarmos e prosperarmos neste planeta. É por isto inevitável que conheçamos a linha de pensamento económico cujo número de adeptos mais tem aumentado exponencialmente ao longo dos últimos anos: a Escola Austríaca (também conhecida como “Escola Psicológica” ou “Escola de Viena”).

Em poucas palavras poderíamos afirmar que a Escola Austríaca é uma escola económica de ideologia liberal, mas na verdade a sua “magia” vai muito para além do liberalismo.

Génese

Os primeiros capítulos da Escola Austríaca começaram a ser escritos no início do século XV, quando os seguidores de São Tomás de Aquino que ensinavam na Universidade de Salamanca se debruçaram sobre a árdua tarefa de tentar explicar o espectro da organização social e da acção humana.

Esses escolásticos pensaram ter descoberto a existência de leis económicas, forças inevitáveis de causa e efeito que operariam de forma algo semelhante a tantas outras leis naturais que nós conhecemos.

Ao longo dos últimos séculos, eles procuraram investigar e explicar diversas leis económicas, desde a lei da oferta e da procura até às causas reais da inflação — razões pelas quais vários intelectuais como Joseph Schumpeter os consideraram como sendo os primeiros verdadeiros economistas da História.

O nome “Escola Austríaca” deriva do facto de terem nascido na Áustria e no Império Austro-Húngaro alguns dos pensadores mais influentes da respectiva linha intelectual, em particular Carl Menger (1840–1921), Eugen von Böhm-Bawerk (1851–1914), Ludwig von Mises (1881–1973) e o vencedor do Prémio Nobel de 1974, Friedrich Hayek (1899–1992).

Ao longo dos séculos, esta escola de pensamento económico opôs-se a todo o tipo de tiranias e forças ditatoriais. Comprometido por ser um fiel adepto das liberdades individuais e da paz em geral, Ludwig von Mises teve mesmo de fugir da Áustria, sob risco iminente de perseguição por parte de Hitler e das forças nazis.

Hoje em dia, a Escola Austríaca aproxima-se mais de ser uma “Escola Americana” pela percentagem de seguidores que detém nos E.U.A., possuindo ainda assim apoiantes em todos os cantos do mundo.

A perspectiva

Hoje, os intitulados “economistas austríacos” defendem afincadamente os direitos à propriedade e à liberdade individual.

Os austríacos acreditam que a paz e o direito à propriedade nos guiarão à prosperidade enquanto povo, se para isso negarmos actos criminosamente estadistas como a tributação, o controlo de preços e as acções governamentais que violem a liberdade dos indivíduos, acreditando assim na máxima de que a liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade do outro. Já por isto, Mises escrevera que “a primeira tarefa de um economista é dizer aos governantes aquilo que eles não podem fazer”.

Qualquer “austríaco” acreditará no conceito abstracto de “mercado” e nas suas virtudes, vendo nele os alicerces primordiais para a estruturação da vida em sociedade. É por isso fulcral que esse mesmo “mercado” se mantenha livre e genuíno, de modo a salvaguardar a satisfação das necessidades dos homens.

Deste modo, um “austríaco” vê nos mercados o melhor distribuidor possível de riqueza e condição económica: o Homem, como o seu agente mais elementar e inseparável, com intenções de satisfazer as necessidades de terceiros em troca de algo que lhe permita a si mesmo satisfazer também as suas.

Metodologias distintas

Mas no que difere o paradigma austríaco dos paradigmas mais reconhecidos mundialmente pela maioria dos economistas? Que marcas são essas que poderão fazer a diferença no modo como olhamos e tratamos o mundo que nos rodeia?

Em primeiro lugar devemos entender que o tratamento dado pelas Escolas Neoclássica e Keynesiana (actuais escolas de pensamento económico mais respeitadas e seguidas mundialmente por economistas e políticos) às questões de estudo económico passam por uma linha que em toda a sua estrutura nos lembrará o método de análise e trabalho de um físico ou de um químico. As metodologias levadas a cabo por estas duas divisões do “mainstream” são mecânicas e extremamente matemáticas, fazendo uso incondicional de ferramentas gráficas e moldando expressões numéricas para “provar irrefutavelmente” certos pontos de vista do interesse dos autores.

Por um lado, os neoclássicos (como Samuelson e Becker) vêem na sua própria concepção do Ser Humano o seu tão aclamado “hommo economicus”, um animal perfeitamente racional, e apto a escolher infalivelmente de acordo com as melhores opções existentes, assim como a maximizar constantemente os seus lucros individuais — como se tal Ser existisse na realidade (!).

Para um austríaco, essa visão detida pela Escola Neoclássica é extremamente insuficiente e redutora daquilo que é verdadeiramente o Ser Humano, preferindo por isso a ideia de que a acção humana é dinâmica, e não havendo duas pessoas iguais no mundo, devemos então analisar essa mesma acção de um modo igualmente dinâmico, aberto e complexo. Dito de outro modo, os economistas austríacos defendem a tese de que só podemos estudar o Ser Humano, se analisarmos exaustivamente os factores que levam as pessoas a atingir certos fins. Para isto devemos recorrer à “praxeologia”, que mais não é para um “austríaco” do que a ciência (ou teoria geral) da acção humana.

Outra diferença primordial entre ambas as escolas, é o facto de os neoclássicos acreditarem ser possível provar certa hipótese como falsa através de testes empíricos (algo semelhante a experiências de laboratório como acontece na física ou na biologia), enquanto que os “austríacos” julgam que tal método não fará grande sentido tendo em conta que a economia é uma ciência que estuda as acções e propósitos dos homens (seres com mente e desígnios próprios), e como tal é impossível repor o cenário de estudo exactamente igual ao que se verificava à data a que se quer reportar.

Já os keynesianos, apoiados pelo trabalho do britânico John Maynard Keynes — o tão aclamado salvador dos E.U.A. no tempo da Grande Depressão do século XX — e actualmente liderados pelo americano Paul Krugman (“honoris causa” por três universidades portuguesas, e que há alguns meses atrás espezinhou Portugal nas primeiras páginas da imprensa norte-americana), defendem que os défices são a cura para a própria crise. Dito em poucas palavras, estes escolásticos acreditam em algo que habitualmente gosto de intitular por “política da ressaca”. Eles acreditam ainda que os impostos podem ser a solução mais indicada para combater a inflação, e mais gritante do que tudo, vêem no investimento público algo como um “multiplicador de riqueza”, pois supostamente aumentaria a quantidade de emprego existente num dado país (semelhante em algum modo às intenções de José Sócrates com o TGV ou com o hipotético segundo aeroporto de Lisboa).

Por seu lado, a Escola Austríaca repudia firmemente a ideia do gasto e do endividamento, ainda para mais com o intuito de atingir fins efémeros de curto prazo, acreditando que a virtude está na prosperidade e no “crescimento real”, ou seja, que para prosperarmos enquanto nação devemos cultivar a mentalidade do “longo prazo”, gastando apenas aquilo que temos, e dando mais margem de manobra aos nossos próprios cidadãos de seguirem os seus desejos e sonhos empreendedoras através de uma política anti-tributação.

O que podemos ganhar

Embora pudesse apontar cerca de trinta diferenças que separam a metodologia dos “austríacos” dos métodos utilizados pelas escolas de pensamento mais badaladas, as últimas pecam especialmente por se esquecerem do elemento de estudo central da economia: o Homem! 
Muito a isto os nossos erros se têm devido: tendemos a esquecer que a economia é uma ciência social, não uma ciência natural como a física ou a química. Somos seres orgânicos, não meras máquinas programadas, ou simples objectos sem mente cujos comportamentos possam ser previstos por algum matemático confiante nos seus dons para o cálculo e para desenhar gráficos pomposos com índices complexos e de leitura técnica exigente.

Engraçado sem grande graça, é pensarmos que o chamado “senso comum” atribui uma culpa mistificada acerca da actual crise mundial aos mercados financeiros, quando ao longo dos últimos quinze anos, vários economistas austríacos têm vindo a prever “baillouts”, recessões, e estímulos económicos perversos para a economia, levados a cabo pelos governos de todo o mundo, aliados a algo que tenho vindo a denominar nas minhas crónicas por “acto de ligar a impressora”, que mais não consta do que imprimir notas com consequências agravantes nos indicies de inflação (monetária) das nações.

O congressista americano Ron Paul — único candidato republicano à Casa Branca movido pelo trabalho da Escola Austríaca — previu a crise económica e financeira que estamos a atravessar actualmente. No dia 10 de Setembro de 2003, através de uma declaração à House Committee on Financial Services, o médico de 76 anos escreveu que “para além do dano a longo prazo à economia infligido pelas interferências do governo no mercado de habitação, a política do governo, de desviar capital para outros fins, cria um ‘boom’ a curto-prazo no mercado de habitação. Como todas as bolhas artificialmente criadas, o ‘boom’ nos preços do mercado da habitação não durará para sempre. Quando os preços das casas caírem, os seus donos irão sentir dificuldades enquanto que a sua equidade é dizimada. Mais ainda, os credores das dívidas geradas pelos empréstimos hipotecários terão perdas também. Essas perdas serão maiores do que seriam se a política do governo não tivesse encorajado o investimento excessivo no mercado da habitação.”

Esta previsão coincidiu perfeitamente com a crise de 2008, que teve início numa bolha financeira surgida do mercado de habitação dos Estado Unidos da América.

De que estamos à espera para mudarmos de uma vez por todas os pressupostos que têm guiado os nossos governantes? 
Está na hora de abrirmos os nossos horizontes e não raciocinarmos só acerca daquilo que os economistas e filósofos do “mainstream” nos obrigam a digerir diariamente através dos mais diversos meios de comunicação.

O Capitalismo não falhou — desiludam-se os pouco adeptos da liberdade económica. Os cidadãos (e os seus representantes) é que falharam. E se errar é humano, o que poderá ser mais humano do que nos erguermos com uma nova força libertária rejuvenescida? A nossa próxima grande revolução será intelectual, e cada vez mais me convenço que os próximos impérios serão os do pensamento.
Trabalhemos então todos juntos, pois só em unidade poderemos prosperar.