foto: alex gamela

A dívida

Este texto foi escrito em 2013. Por várias razões, muitas delas pessoais, decidi não o publicar, mesmo tendo o apoio de algumas pessoas. Não quis mostrar a minha vida pessoal desta forma, nem passar a ideia de que era um coitadinho, porque sei de gente a viver muito pior do que eu. Mas, agora que o releio, lembro-me do que sentia na altura, e tudo agora me parece longe. Menos a dívida, que continua a ser paga em prestações mensais. Se o publico agora, é precisamente para relembrar que o caminho é longo, e que nada realmente mudou em Portugal entretanto. De resto, posso dizer, neste momento, que nunca estive melhor.

Era fim de Agosto e, mesmo com o ar condicionado a zunir por toda a dependência bancária, suava. Do outro lado da mesa, protegida por umas divisórias que nos escondiam dos velhos à espera de levantar as magras reformas, o funcionário encarregue do meu processo tinha o casaco pendurado nas costas da cadeira, mas mantinha a camisa apertada nos punhos e a gravata composta.

Falava-me de taxas de juro. “A prestação pode ficar indexada, a 3 meses, como se fosse para uma casa.” Mostrou-me o plano de prestações e tudo parecia razoável. Há quem gaste mais num mês em copos, calculei por alto. Parecia estar a decidir sobre a grossura da corda com que me ia enforcar. Mas precisava do dinheiro e, se fosse necessário, faria eu próprio os nós.

Gostava bastante deste homem que me providenciava os meios para o meu fim. Era um tipo simpático, ligeiramente maçado, o último intermediário entre os cofres, os gestores, os necessitados e os seus desejos. Neste caso, eu.

Não era de uma casa de que precisava. Tinha recebido uma proposta para fazer um mestrado em Inglaterra, uma candidatura de lugar cativo. Estava desempregado há meses, depois de anos a biscates que mal pagavam as despesas. Dormia no sofá dos meus pais porque não havia espaço para quatro adultos. Não tinha perspectivas de trabalho, nem nada meu para além de um monte de livros em caixotes. Passava o tempo a fingir que tinha projectos, a ver televisão a noite inteira para não pensar, e corria. Corria para lado nenhum, uma simulação de fuga do que já me tinha apanhado. O convite chegou em Maio de 2009, o ano em que decidi desistir.

Perguntei se havia forma de baixar os juros da prestação. O senhor simpático do banco explicou-me que já estava na modalidade mais baixa possível, tendo em conta as garantias que podia apresentar. Os meus pais eram os fiadores, sem carro, sem casa própria, a ganhar pouco mais que o salário mínimo. Gente sem dinheiro paga o dinheiro mais caro, de acordo com a lógica bancária. “Mas não se preocupe, os juros não sobem.”

“A sério?”

As flutuações nas taxas de crédito eram um assunto que me escapava: nas notícias os outros senhores simpáticos, que nunca tiravam o casaco mesmo que estivessem com muito calor, anunciavam números novos que agravavam regularmente as prestações das pessoas que tinham carro e casa próprios. Os endividados assumiam os pontos percentuais extra por mês, de forma responsável. Na sociedade moderna, atingimos a maioridade com o nosso primeiro empréstimo. Trata-se de cumprir um acordo, por mais desagradável que seja. Era altura de crescer um bocadinho e ser adulto. Pensar um pouco mais longe do que amanhã.

“Mal de nós se as coisas piorarem”, disse ele, num riso descontraído, quase a bater com o punho três vezes na mesa, com um tampo do mesmo material sintético das divisórias. As agências de rating, de quem ainda não se ouvia muito falar, diziam que Portugal era “estável”. Como disse, estávamos em 2009.

Dias depois da corrida onde decidi desistir, dobrado sem ar sobre mim mesmo, à espera que finalmente fosse apanhado e atirado ao chão mas sem sombra de perseguidor, falei com o meu pai sobre o mestrado. Não lhe pedia nada há anos, mas transformei-me automaticamente num miúdo de 8 anos que queria o brinquedo novo que viu na loja. O meu pai estava sentado em frente à televisão, e ouvia o discurso,estruturado e ensaiado mentalmente meia dúzia de vezes, a explicar as vantagens de ir estudar para fora, os benefícios que me traria profissionalmente, as condições em que iria e como já tinha pesquisado as possibilidades de financiamento.

Tudo dependia deles — dele e da minha mãe — em se responsabilizarem durante 7 anos pelo pagamento mensal ao banco, dinheiro que — correndo tudo bem — sairia do meu bolso porque seria mais fácil encontrar trabalho; o professor que me tinha convidado era altamente respeitado no meio, não havia muita gente com aquele tipo de formação em Portugal, e pelo meio da palestra sei que mostrei que era uma questão de tudo ou nada para mim. Não era um capricho, era um objectivo. Era um sacrifício, um risco para além do que estávamos preparados financeiramente para assumir. Sou filho de um empregado de mesa, não é profissão que permita despesas inúteis. Ele deixou-me falar sem interrupções, até que as palavras se esgotaram da minha boca, só a televisão em fundo a fazer vibrar o ar da divisão, baixinho.

“Diz-nos o que precisas, que nós fazemos.”

Foi a resposta mais perfeita que alguém me deu em toda a minha vida.

O banco concedeu-me um empréstimo de 12.500 euros, com dois anos de carência (só a pagar a taxa de juro) e depois mais sete (o tempo máximo para este tipo de crédito) a pagar pouco menos de 200 euros todos os meses, quase meio salário mínimo. Podem achar que este valor não é nada, uma gota de água num poço sem fundo. Mas também sei que nos podemos afogar em alguns centímetros de água. Com 12.500 euros pode-se comprar um Toyota Yaris; pode-se alugar um T1 na zona de Telheiras, em Lisboa, e pagar a renda de dois anos; dá para comprar duas mesas de bilhar à prova de água; chegam para instalar uma piscina de fibra de 8 metros para colocar as mesas de bilhar lá dentro. Cada uma destas coisas vale o papel que me classifica com o grau de MA Online Journalism pela Birmigham City University.

Dois terços do dinheiro foram gastos num ano lectivo de alojamento e propinas; o restante em roupa, viagens de avião entre Portugal e o Reino Unido, um computador,e fundos para alimentação e outras despesas ao longo do ano. E viver um bocado. Em Março de 2010, contabilisticamente, o saldo esgotou-se.

Para poder manter os custos do dia a dia, comecei a trabalhar com um jornal em Portugal, escrevia ocasionalmente para um site inglês e colaborei num projecto da Universidade. Todos me pagaram a horas e de forma justa. Mesmo assim, tive que pedir mais dinheiro emprestado a parentes e amigos para poder aguentar o último mês e comprar o bilhete de volta. Poupei na alimentação ao ponto de não conseguir ver esparguete à minha frente durante meses. Todas as moedas, mesmo as mais pequenas, contavam.

Foi em Inglaterra que comecei a ouvir falar da situação desastrosa da economia portuguesa. Portugal estava reduzido à letra inicial dos PIGS, os países que ameaçavam a estabilidade económica europeia devido às suas questionáveis finanças públicas, que gastavam mais do que produziam, numa gestão suicida mas que toda a gente encarava como tradicional, não fossem todos estados do sul do continente. As dúvidas da União Europeia enchiam crónicas de uma ruína anunciada em todos os orgãos de comunicação de referência. Ressabiamentos antigos vinham respirar à tona do papel dos jornais, a soberba das grandes potências do eixo europeu enchia debates que concluiam que o melhor seria largar os irresponsáveis latinos à sua sorte. As agências de rating começavam a ser conhecidas pelo nome em todas as casas — Standard & Poors, Moody’s, Fitch — e semanalmente reduziam o estatuto destes países, das suas instituições e empresas a graus cada vez menores, até os classificarem como lixo. Os PIGS remetidos para o seu meio natural. Soava tudo a embuste, a exagero com objectivos sombrios.

Portugal, a quase dois anos de um novo ciclo legislativo, vivia num ambiente de desconfiança, com guerras abertas entre canais de televisão e o primeiro-ministro, fugas de segredos de justiça e suspeitas de corrupção. Se, por um lado, os responsáveis diziam que tudo estava bem, que a economia portuguesa era saudável e não iria entrar em recessão, que o desemprego estava a diminuir e que tudo não passava de especulação ao serviço dos grandes interesses económicos, por outro, os pequenos e médios empresários sentiam o chão a estalar, a abrir fendas e fissuras debaixo dos pés: os combustíveis atingiram máximos históricos, criavam-se taxas para tudo o que se pudesse classificar como tributável. A ASAE, novipolícia económica, atacava em todas as frentes com uma eficácia pidesca, autuando e alterando tudo o que podiam na produção nacional,providenciando receitas extra para o Estado e oportunidades de negócio para algumas indústrias.

Sentia-me bem, apesar deste ruído de fundo: havia esplanadas, sol e cerveja barata. Estava de volta ao sítio que, por mais que eu odeie, é o sítio onde cresci, onde estavam as pessoas que conhecia e me conheciam, onde os hábitos e a língua são os meus. Tinha uma proposta de trabalho, bem paga, dentro do que queria fazer. Enquanto durou - porque era um trabalho temporário - fiz mais dinheiro do que nos 10 anos anteriores, e era taxado em conformidade. Um terço do que ganhava ia para impostos, pelas regras do jogo. Como nunca tinha trabalhado em regime de contrato ou, pelo menos, sem ser a recibos, não tinha direito a subsídio de desemprego. Ainda não tenho, porque sou bolseiro. Quando o projecto acabou, tinha mais dinheiro do que alguma vez tive e pensei que estaria desempregado por pouco tempo. Decidi não voltar para o sofá dos meus pais, e fui viver sozinho. Viver a nossa própria vida não deve ser um luxo, mas o passo mais natural na idade adulta.

Os portugueses sempre viveram acima das suas possibilidades. Também o fizeram porque muitos foram levados a isso. Uma família de formato tradicional - um casal e 1.3 filhos - que receba ao fim do mês dois mil a três mil euros (se bem que a maioria dos casais que conheço não levam nem mil para casa), são um alvo fácil para as instituições de crédito. São jovens, estão a construir vida, e ainda querem fazer coisas com ela. Os mais velhos pediam dinheiro para dar aos filhos o que nunca tiveram. Depois, há quem viva para a ostentação, para se pavonearem com os itens que não podem pagar, porque não têm outra forma de se afirmar no meio onde vivem. E ainda, os que pediam emprestado para pagar o que já deviam, criando uma espiral por onde acabaram por desaparecer. O desemprego aumentava, especialmente entre os jovens, que continuavam, como grupo, alheios ao que se passava, as prioridades dispersas por outros interesses.

Em Junho de 2011 mudava-se a cor política do governo. O último ano do executivo anterior tinha sido tão desastroso que o país teve que ir pedir dinheiro emprestado à banca internacional. A dívida sobre a dívida. O vocabulário nacional expandia-se à medida que víamos o que se passava nos IGS, cheios de gente em ebulição, com “medidas de austeridade.” Por cá, as cantigas do costume, a bola e os reality shows.

Os meses passavam, e quis criar emprego próprio, o que percebi ser inútil. Não tinha capital inicial para abrir empresa nem o mercado estava em condições para aventuras. Não há dinheiro nem há vontade de pagar o trabalho. Recebia no meu email anúncios de emprego com estágios de três meses, seis, um ano, para “enriquecer o currículo”. Esta é a nova escravatura do tecido empresarial português, baseada em mão de obra altamente qualificada sem retorno financeiro para os trabalhadores, e com um grau de exigência acima do razoável, com “possibilidades de continuidade na empresa”. Três meses depois, os mesmos anúncios para os mesmo sítios. Muitos aceitam exercer actividades especializadas por menos de 600 euros, a recibos verdes, ou fazem biscates por valores abaixo da tabela, gerando outra espiral que os engolirá a todos. Mas eu não estava preocupado, a minha ideia era outra. No final desse ano recebi uma carta da Segurança Social.

A Segurança Social serve, em teoria, para assegurar a sobrevivência dos trabalhadores a partir do dia em que terminam a sua actividade profissional, seja de forma temporária ou permanente, no formato de subsídio, ou de reforma. Serve também para dar apoio a quem, por falta de condições físicas, sociais ou familiares, não consegue ter rendimentos suficientes para sobreviver. Artigo 25º da Declaração Universal dos Direitos do Homem:

1. Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade.

Não é esmola. Não é comunismo, socialismo ou democracia-cristã. É uma questão de humanidade.

Por causa de um erro de cálculo meu — informem-se sempre e em mais do que uma fonte sobre as tributações a que estão sujeitos — fui notificado que devia mais de três mil euros à Segurança Social. Juntando este valor ao que já tinha pago em impostos no mais recente período de actividade, percebi que mais de metade do dinheiro que tinha ganho no último ano não era meu. Não podia fugir, e não queria. Ser adulto é assumir responsabilidades.

As contas eram más. Fui ao banco pedir uma redução da prestação. Desta vez não falei com o funcionário que me tinha tratado do empréstimo. Em vez dele, atendeu-me uma senhora, igualmente simpática. Perguntei se era possível fazer alguma coisa, e o que aconteceria se não pudesse pagar. Ela disse que não e “se isso acontecer, teremos que activar a garantia dos fiadores.” Fiz o magro inventário dos património familiar, fixo no tampo da mesma mesa onde me tinha sentado dois anos,quatro meses e 27 dias antes. Os velhos continuavam na sua romaria da reforma, cada vez mais magra, para lá da divisória. A senhora não quis deixar de manter a sua postura profissional, mas fiz-lhe um favor e saí antes que ela se chegasse e me perguntasse baixinho se estava tudo bem.

Nessa passagem de ano decidi cortar com tudo o que não me fazia falta. Fiquei seis meses sem sair aos fins de semana. Gastava só nas despesas que teimava em ter, para não sentir que não tinha nada que fosse meu. Tive amigos que me diziam para trabalhar em qualquer coisa, para voltar para casa dos meus pais. Eles trabalhavam no que queriam e tinham carros e casa própria, e levei-os a mal. Para eles, tanta preocupação com um valor tão baixo era ridículo. Hoje fico contente pela sorte de quem não tem que se preocupar com isto. Não queria abdicar do pouco que tinha e me mantinha ainda composto, por mais que me custasse.

Uma vez fiz uma lista de compras com mais coisas do que o habitual, porque podia ainda levantar algum dinheiro, ironicamente, a crédito,porque a minha conta estava a zeros há semanas. A caixa multibanco recusou o meu pedido. Sentei-me no supermercado a contar os trocos que tinha no bolso — 5 euros e 40 cêntimos , todo o dinheiro que eu tinha na altura— e reduzi a lista ao mais do que essencial. Nunca passei fome, mas sei o que é fazer contas de cabeça para manter o estômago. Estávamos em 2012, o ano do grande vazio.

Não ter dinheiro é como ter a peste. Houve gente que se afastou, uns porque seguiram com a sua vida, outros porque eu não aparecia, alguns porque simplesmente não estavam para me aturar. O que é compreensível porque não era a melhor das companhias. Como não os acompanhava no seu estilo de vida, por ser acima das minhas possibilidades, desligaram-se. Demorei muito tempo a aceitar que cada um faz o que pode com o que tem e não têm culpa que outros não tenham tanto como eles. Depois, há o modelo de sucesso que nos instalam na cabeça ao longo da vida. Com 34 anos, não tinha namorada/mulher, filhos, a casa e o carro. Não tinha emprego fixo, não fazia viagens para fora de tempos a tempos para mostrar as fotos aos amigos. O meu plano nunca foi esse, só que estava encurralado dentro das minhas próprias expectativas e fracassos. Odiava tudo com tudo o que tinha, e fazia gala disso. Estava cansado e frustrado porque, mais uma vez, achava que tinha conseguido chegar à frente da corrida, depois de ter partido do fim do pelotão, para ser atirado outra vez para o fundo.

No mundo real, os cortes da despesa pública seguiam os moldes tradicionais: cortou-se nos sectores fundamentais, como a educação e a saúde, reduziram-se os gestos a quem já não tinha por onde se mexer, aumentaram as regalias e prémios dos gestores que apresentaram prejuízos nas instituições a que pertenciam. Incompetência e ganância parecem ser requisitos fundamentais ao sucesso na nossa sociedade.

A dívida externa aumentou para valores acima do aceitável. Pagámos com o maior surto de emigração desde o fim dos anos 60, desta vez em jovens qualificados, à procura do espaço que lhes era negado cá. A dívida dividiu casais, dispersou filhos, netos, irmãos. Quase 50 anos depois, voltámos a ter uma nação que se procura de ouvido nas ruas de cidades que antes se visitavam ou eram apenas uma referência nos livros de História. A História que nos recusamos a compreender.

Ao fim de algum tempo, porque nenhum tapete serve para descanso, arranjei trabalho. Trabalho bom, estável e, apesar do desvio de carreira, que gosto de fazer. Deu para me equilibrar e enfrentar o assalto seguinte. No início de 2013, o meu pai estava desempregado e a loja onde a minha mãe trabalhava fechou.

Os meus pais começaram a trabalhar muito novos. Vieram de famílias pobres e fizeram tudo para que eu e o meu irmão pudéssemos ter o que precisávamos e chegássemos mais longe do que eles. O meu pai sempre serviu às mesas ou atrás de um balcão; a minha mãe teve tantos empregos diferentes que nem dão para enumerar. Quando eram pouco mais novos do que eu sou agora, arriscaram num negócio próprio, que durante uns anos correu bem, e depois correu muito mal. Em 1998 estávamos falidos. Estava a meio do meu curso universitário, e esse foi de longe o pior ano das nossas vidas. As dívidas eram uma montanha que se desmoronava lentamente sobre nós, ferindo-nos com as suas arestas, sufocando-nos debaixo do seu peso. Recebia uma bolsa dos Serviços de Apoio Social Académico, e metade do dinheiro era para as despesas em casa. Os meus pais voltaram a encontrar trabalho depois de seis meses sem rendimentos, e a montanha lá se desfez em areia debaixo dos nossos pés. Se tivesse metade da capacidade de trabalho que eles têm, se calhar, a minha história seria diferente. Estão os dois agora dependentes dos subsídios de desemprego e não tem nada para nos deixar, levando a vida o melhor que podem, e ainda nos perguntam se precisamos de alguma coisa. São como tantos outros, demasiado novos para a reforma, demasiado velhos para ter um emprego, numa cidade onde não há nada para eles. A única coisa de valor que eles têm é a consciência tranquila e dois filhos que educaram o melhor que puderam.

O meu pai contou-me uma história, que tinha visto nas notícias, de um homem que tinha estado desaparecido durante duas semanas porque devia dinheiro. Perdeu o emprego por causa de um acidente de trabalho, não conseguiu pagar as contas nem o que devia e escondeu-se numa cabina no meio do mato. Não para fugir aos credores, mas por vergonha. Lembrei-me das dívidas de milhões perdoadas a cidadãos que, perante a lei, são iguais a ele, e nunca sentiram a necessidade de se esconder, envergonhados.

Pode um país inteiro fugir para desaparecer no mato? O perdão da dívida é defendido por várias religiões, e até o Rei Hamurabi da Babilónia privilegiou no seu código a escusa aos camponeses que não conseguiam cumprir com as suas obrigações.Há registos de dívidas perdoadas entre países, ao longo da História. Perdoar a dívida de um país pode ser vantajoso para os credores, porque aumenta a confiança na recuperação económica. Enquanto o pau vai e não vem descansam as costas. Hoje isto não pode acontecer porque a dívida é um negócio demasiado lucrativo para se ser magnânimo.

A origem da palavra é latina: debita refere-se a uma quantia devida, como agora. Tem outros sentidos, como “dever”, no sentido de algo a cumprir; também pode significar “pecado”. A penitência parece ser algo que lhe está intrinsecamente ligado. Ligado também, de forma semântica, está o usurário, o verdadeiro beneficiado de toda esta situação. A questão linguística no assunto da dívida à banca internacional é mais importante do que pode parecer: o termo usado para denominar o empréstimo é “ajuda”. No dicionário Priberam ajuda aparece como “acto de ajudar; auxílio;favor.” Logo de seguida vem o significado popular: “clíster”. Nada parece mais adequado. Depois de terem criado o cenário ao longo dos últimos quatro anos, o drama que se desenrola à volta da dívida nacional é uma espécie de profecia auto-realizada.

Um país que vivia descontraído nas suas dificuldades foi apanhado no meio de uma tempestade que não devia ser mais do que um mero chuvisco, já mal agasalhado e a despir a pouca roupa que lhe sobrava, a pontapear a água que rapidamente lhe tirou o pé, fiado na bóia que lhe atiram mas que não deixam alcançar. Primeiro é preciso garantir que os salvadores sejam recompensados, mesmo sabendo que as poucas moedas que sobravam nos bolsos já desapareceram, para não fazerem de lastro. É o denominado “resgate”.

A situação deste Portugal é assustadora. No Parlamento chama-se a este Governo de “máquina de fazer pobres”. Todos os dias ouço histórias que, comparadas com a minha, fazem-me lembrar que a profundidade a que se bate no fundo é apenas uma questão de até que ponto conseguimos suster a respiração. Não me queixo porque tenho quanto baste e muito mais do que outros. Quase metade da população jovem que nos sobra está desempregada e sem perspectivas, o desemprego real ultrapassa os 20%. Temos uma hipoteca sobre o futuro, esse conceito que normalmente acompanha a esperança, agora substituída pela fome de crianças, pelo desespero de pais. Viver passou só a existir no verbo sobreviver.

Muitos desistem, como eu não fiz. Ninguém fala de quem se matou por achar que não havia mais vida para viver, por não poder pagar o que devia, porque a sua montanha os esmagou de tal forma que nunca mais poderiam ser os mesmos, quanto mais ser. Porque tiveram vergonha. São estes os reais condenados do crime que outros cometeram e pelo qual pagaram. Sozinhos. Não há momento mais solitário do que aquele em que sabemos que vamos morrer. A caravana continua, surda, hipócrita, a apregoar o que não pode cumprir.

E isto em 2013. Nunca um ano me pareceu tanto fora do lugar.

Não vivo mal, posso dar-me aos pequenos luxos: vida de esplanada com amigos, livros, ir ao supermercado sem ter que cortar na lista. Não há festivais, viagens ao estrangeiro, jantaradas, compras que não sejam para cumprir uma necessidade. Não penso em ter um carro ou comprar casa. A médio prazo, todas as decisões sobre o passo seguinte terão que ser calculadas. Eu disse que vivia sozinho, mas não é verdade. A dívida é a minha companheira. Fazemos planos juntos. Senta-se à mesa comigo como se senta em outras casas, a comer a sua parte, a ocupar o lugar deixado vago por alguém que teve que partir. E traz companhia, a da sua irmã austera, maior, mais forte, calada, que gosta de se passear pelas ruas a mirar-se nas montras das lojas fechadas. A sua presença é coerciva, o espaço que ocupa tapa-nos as vistas para o futuro e para tudo o que o futuro poderia ser. Não se pode construir nada a partir de um vazio, mas é ao vazio que estamos presos.

2018 será o ano em que ficarei livre. A ideia é chegar até lá o melhor que puder, um dia de cada vez, com planos para amanhã e depois.