Ernesto e Bob

Por LUISA LOBO e TETÊ SILVA

Primeiro encontro — após um mês de troca de ideias via facebook, me encontro com Ernesto.

“Ernesto el Che” é um haitiano de 33 anos. Nos últimos três, vive no Brasil. Formado em economia, fala seis línguas e é um comunicador nato. Engajado, vive a auxiliar imigrantes de seu país no Brasil. Já havia percebido seu facebook repleto de relatos sobre os desafios encontrados pelos haitianos em terras brasileiras.

Mesa de bar, Lapa, Rio de Janeiro, boêmia — Ernesto me conta das belezas do Haiti. Esqueço das imagens da devastação de um país. Sereno: “o terremoto aconteceu em Porto Príncipe e não atingiu todo o país”.

Surpreende-me ao revelar que muitos dos haitianos recém chegados ao Brasil já viviam fora do Haiti, em diversos países da América Latina. Por que saíram de lá e vieram parar logo no Brasil? A possibilidade de conseguir um visto de trabalho brasileiro. Ernesto tem o seu. Vivia na República Dominicana antes disto.

Bolinho de bacalhau, morno — Ernesto pondera. Os haitianos chegam ao Brasil com o sonho de estabilidade e documentação regularizada, mas encontram caos e burocracia. Ernesto entra aí, tem sua sacada: divulgar cada vez mais redes de apoio aos imigrantes de seu país.

Haïtiens Carioca, o projeto http://haitiaqui.com/, tantos outros por vários estados brasileiros.

Portas se fecham, “cozinha encerrada” — Nosso bate papo termina com a promessa de uma reunião marcada para o dia seguinte, na sede da Viva Rio, responsável pelo projeto Haiti Aqui.

Primeiro dia de fevereiro do 2015, 15 horas, Rio de Janeiro, Glória — No estúdio da rádio Viva Rio, tudo pronto para o programa Voz do Haiti. Ao microfone, Robert Montinard, mas conhecido como Bob. Cabelo rastafari jogada sobre a camisa do Flamengo. Diferentemente de Ernesto, Bob viveu o terremoto de 2010. Perdeu casa, amigos e junto com seus dois filhos e esposa; sofreu na pele as consequências da tragédia.

Bob nunca tinha pensando em deixar o Haiti. Foi obrigado a pensar numa nova vida e seguiu pelo mundo. De férias no Rio de Janeiro, encontrou um “Haiti grande” e a certeza de que ali poderia reconstruir sua vida. Anotei no caderno sua frase: “Para viver em um país, tem que se sentir bem. Não é só a economia, dinheiro ou trabalho. É outra coisa”.

Pausa, telefonemas, frio no estúdio — O tempo não é curto. Quero saber mais e descubro que Bob ainda luta. Chegado em 2011 com sua família e com visto de turista, ele continua batalhando para conseguir um visto de permanência no Brasil.

Bob trabalha no Brasil, mas não tem direito e permissão para isso. Burocracia, penso de forma instintiva. Na verdade, ele é voluntário no comando de seus programas de rádio.

A possibilidade de imigrar para outro país onde a família tenha maior perspectiva não está descartada. No entanto, Bob acredita que o Brasil ainda é uma opção.

Microfones ligados — Bob se esforça para explicar aos brasileiros o que é o Haiti. Segundo ele, tem muito brasileiro sem saber onde fica.

As ondas do rádio servem para Bob dar dicas aos haitianos. Quando lhe resta tempo, ele enfatiza que seu povo não é invasor. Eles querem estudar, trabalhar, como todos nós, querem exercer o direito de fazer o projeto que vislumbraram para si. As ondas do rádio também servem para Bob dar dicas aos haitianos e imigrantes no geral.

Caminho do metrô — Vou para casa com a seguinte fala de Bob ecoando na cabeça: "imigração no geral e um projeto legal. Você pode ir para Europa, França, Estados Unidos. Haiti".

Infelizmente, imigração é privilégio…ainda!

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