Soy loco por ti, mi Argentina, pero no mucho

Por LÍGIA ROCA e MANUELA RODRIGUES

“Es”Tenes frio, che???” (Está com frio?)

“No! (Não)

“Pero es así que va la gente en Argentina jajaja”. (Mas é assim que as pessoas estão na Argentina, risos)

Dany sentou sorrindo e logo arrancou a camiseta manga longa numa tarde de 25 amenos graus em Caraíva, vila de pescadores no sul da Bahia.

O argentino que nasceu, cresceu e sempre trabalhou na neve do pequeno povoado Villa La Angostura, ao pé da Cordilheiras dos Andes, está cansado do frio.

“Me doíam os joelhos e tinha sempre que andar com muita roupa, sapatos pesado. Quero calor. Já estou há seis meses aqui de bermudas. É fantástico”.

E o clima é motivo para migrar de país?

“Claro, no frio as pessoas pessoas ficam tristes. Eu não estava bem lá”.

O bem-estar no Brasil parece ir além do calor. Daniel sonha com o país desde 1975, quando seu pai adquiriu um aparelho em que o menino sintonizava rádios brasileiras.

“Me parecia impossível, algo muito distante, chegar um dia ao sul da Bahia, ainda mais de motor home”.

Pois é, Dany veio dirigindo, junto com a frota que invadiu o Brasil em junho de 2014, o tão esperado Mundial no país “hermano”.

“Saí para ver a Copa do Mundo. Tinha que vir para o Brasil, era o momento em que aconteceria toda essa festa”.

https://www.facebook.com/pages/Destino-Mundial-Brasil-2014/539493202838135?sk=timeline

Dia 6 de junho de 2014, sua cidade estava em festa, ele e os amigos seriam os únicos representantes de Angostura no Mundial. No mesmo dia que cruzaram a fronteira, o motor fundiu.

“Quatro pistões clavados”.

Foram rebocados até a oficina e, por sorte, encontraram um motor substituto em Porto Alegre, há 300km dali. Gastaram dois dias e 8 mil reais para buscar a peça e trocá-la, para logo seguir na estrada.

E como foi ver o jogo da Argentina no Maracanã?

“Imagina, os bilhetes custavam 600 reais, eu não ia pagar tudo aquilo. Desisti”.

Viu a Argentina vencer num bar próximo dali. Depois do Rio, seguiram para Belo Horizonte. Foi aqui que Dany percebeu que a relação com os amigos já não ia bem e que a Copa já não lhe interessava tanto. Deixou os 4 para trás e saiu em busca do Brasil.

“Minha questão era muito mais pessoal, eu avisei que tinha uma chance muito grande de ficar”.

Primeira parada: Ouro Preto, Minas Gerais, 40 dias estacionado na Praça Tiradentes. Depois partiu para Caraíva na Bahia. Mais uma vez teve problemas mecânicos. Duas molas maestras se romperam e rebaixaram o ônibus a poucos centímetros do chão. O conserto sairia 1.900 reais, pouco menos que suas últimas reservas no banco. Foram três meses trabalhando como carpinteiro na cidade de Itabela para retirar o veículo da garagem da oficina.

“Paguei tudo certinho e quando estava saindo, fiquei louco: a temperatura não parava de subir e quase fundiu o motor novamente”.

Dany ainda quer regressar a Argentina. Hoje, prepara café-da-manhã em uma pousada em Caraíva e realiza trabalhos pontuais de marcenaria pela vila. Com o dinheiro economizado, comprou uma passagem de avião para Angostura.

Chega de Brasil?

“Vou, mas com bilhete de volta. Dia 10 de setembro piso no Brasil novamente. E agora vou de avião pra garantir”.

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