Legado de esperança: a história de um ambientalista apaixonado por museus

Conheça Nivaldo Vitorino, arquiteto e museólogo apaixonado por educação ambiental que partiu na mesma semana em que o Museu Nacional foi destruído

"Para mudar o mundo é preciso mudar a forma de ver o mundo" (Parque Nacional das Emas - GO)

Quando eu conheci o Nivaldo não existia celular, ele trabalhava como cenógrafo, eu era dentista e nenhum de nós dois tinha cabelos brancos. Foi em uma festa em um porão na Vila Madalena (SP) — eu usava um vestido lindo, Caetano cantava ‘Tieta’ e todos dançavam juntos, o suor se adensando, subindo, e depois pingando do teto sobre as pessoas. Sim, nojento. Eu saí do salão e subi as escadas, lá em cima encontrei o Nivaldo, que eu conhecia de vista, e comentei sobre o “suor coletivo”, falei para ele nem descer. Rimos muito e conversamos um pouco. Ele me ofereceu uma cerveja, eu aceitei e ficamos conversando até o sol nascer. Falamos sobre a importância das escolhas que a gente faz, a vontade que às vezes dá de voltar atrás e fazer diferente. Foi há 21 anos (três ciclos de sete anos, para quem curte essas coisas cabalísticas).

Na época eu usava um relógio de pulso em cujo interior estava escrito: “Fugit Tempus Irreparabile”, que significa “A fuga do tempo é irreparável”, frase do grego Virgílio. Sempre que eu olhava para o mostrador eu ficava sabendo que horas eram, mas não enxergava aquela frase; não atentava para o significado do conceito tempo.

Uns três anos depois daquela festa eu mudei de carreira, e o Nivaldo também lapidou a sua forma de atuar no mundo: passou a dedicar seu tempo a registrar o tempo, projetando museus. Em 2002 ele fundou o Museolab, através do qual idealizou vários museus pelo país afora. Acumulou realizações, elogios, prêmios — e frustrações. Difícil respirar arte e cultura em um mundo voltado ao dinheiro e aos negócios. Difícil, mas não impossível, e tudo o que ele conseguiu construir, e todos que ele conseguiu impactar, estão aí para mostrar que perseverar vale a pena.

A exposição Amazônia br, no SESC Pompeia (SP) marcou o nascimento do Museolab. O primeiro projeto museográfico do Nivaldo foi em 2004, uma imersão no universo dos aromas, o Museu do Perfume de Curitiba. Dois anos depois ele teve a oportunidade de unir paixão e vocação, reencontrando a cultura brasileira no projeto do Museu de História do Pantanal (Muhpah), em Corumbá, inaugurado após mais dois anos. O reconhecimento veio com o prêmio Rodrigo Melo Franco do Ministério da Cultura, concedido pelo IPHAN pelo projeto Em Busca do Acervo Perdido, composto por 25 viagens - tendo como lema a frase de Guimarães Rosa “o que lembro, tenho” - entre Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, juntando objetos, entre artefatos, cacos e despojos, além de narrativas orais, que remontam oito mil anos da história da ocupação humana na região pantaneira.

Daí em diante o Niva não parou mais de descrever o Brasil ao Brasil: em 2012 ele projetou o Museu Interativo da Biodiversidade do Aquário do Pantanal, os Centros de Memória da Ferrovia e do Tribunal Regional do Trabalho, todos em Campo Grande (MS). Em 2016 o Museolab projetou o Museu de História Natural de São José dos Campos, que o deixou muito entusiasmado com as possibilidades da educação ambiental. Pouco depois, o novo prefeito assumia e modificava o conceito original, de educação para lazer.

Desanimado, considerando até mesmo deixar o país, ele logo iria se sentir novamente afortunado ao receber um convite da ONG Doutores Sem Fronteiras e Kanindé Associação de Defesa Etnoambiental para uma incursão à Amazonia. Lá ele pôde fazer - e doar - o Centro de Apoio Doutores sem Fronteiras em Lapetanha, na aldeia Paiter Suruí, conviver com as crianças, fauna, flora, natureza. Foi um trabalho de mão dupla, no qual ele mudou a realidade e saiu profundamente transformado por ela: “Convivi com eles durante 3 semanas acompanhando o atendimento odontológico de qualidade à populações tradicionais e conhecendo pessoas incríveis que teimam em olhar o mundo com esperança em utopias tão fora de moda nos dias atuais”, contou: “começo a re_gostar do Brasil”.

Indiazinhas Paiter Suruí — Projeto de Centro de Apoio Doutores sem Fronteiras

Há poucos meses ele estava de volta ao Mato Grosso do Sul, iniciando o processo de criação do Centro Histórico - Geográfico da cidade de Costa Rica. Lá, encontrou tudo o que procurava: uma gestão municipal interessada em educar e preservar, professores da rede pública satisfeitos e valorizados, estudantes com desempenho entre os melhores do ranking nacional. “O futuro museu que projetarei será uma extensão das salas de aula, alem de proporcionar aos turistas uma leitura da paisagem local de acordo com multi disciplinas envolvidas na peleja. Estou muito animado e feliz da vida por colaborar com eles”, exultava.

Mesa estratigráfica com interatividade low-tech: cada nível corresponde a um período da era mesozóica entre cerca de 251 a 65,5 milhões de anos, o mais baixo é o mais antigo triássico, jurássico no nível intermediário e cretáceo no superior. Os visitantes poderão descobrir fósseis (originais) na areia estimulando a imaginação. A mesa tem caráter educativo, o Museu recebe alunos das escolas das redes pública e privada. Os alunos e visitantes farão descobertas compartilhadas vivenciando a experiência de ser um paleontólogo (Museu de Geociências da USP)

Ainda lembra do primeira parágrafo deste texto? Pois aquela parte do “aceitei e conversamos até o sol nascer” seria o que se chama de evento contrafactual — aconteceu na realidade paralela da minha imaginação. Na vida real, eu estava cansada e suada e resolvi ir para casa. Continuamos nos esbarrando em festas, depois ambos trocamos a agitação pela reflexão, os dois mudamos a direção de nossas vidas e carreiras.

Até que o tempo nos encontrou olhando na mesma direção, ele contou que estava saindo para uma viagem exploratória pelo Cerrado, para delimitar o que seria abordado pela menina dos olhos dele, o museu que estava idealizando com o intuito de privilegiar a educação ambiental. Combinamos que assim que ele voltasse daria uma entrevista para a gente aqui do PorQueNão?, desejei ‘boa viagem e até a volta’.

Nenhum de nós dois cumpriu o prometido. Eu, porque a ideia era voltar a conversar apenas depois da viagem, porém acabamos tendo uma intensa troca de ideias, fotos e pensamentos durante a expedição. Ele, porque não voltou.

Trocamos mensagens sobre política, poesia, prosa, poesia inserida na prosa e daí, claro, sobre Clarice Lispector, nossa paixão em comum. Sobre o projeto dele para tornar a casa em que a escritora cresceu, no Recife, no Memorial Casa Lispector, mergulhando no universo da autora e no riquíssimo cinema pernambucano, aprendizados que pôde dividir comigo mas não, infelizmente, com o público em geral.

Acompanhei a viagem também pelas postagens dele, fotos lindas, com legendas poéticas e significativas, misturando pesquisa museológica com jornada interior. Cada dia mais animado, vivendo uma etapa de descobertas e conclusões, ele não sabia que o misterioso tempo atuava para fazê-lo, também, se misturar à trama da história.

O aneurisma que ele havia descoberto três anos antes, em Campo Grande, crescia silencioso como o tempo. De volta à mesma cidade, planejando novamente um lindo museu, o Niva se foi com exatamente a mesma idade da minha mãe; muito cedo, um absurdo de cedo.

Entre imagens de cachoeiras, trilhas e pessoas, o olhar captou detalhes como uma flor endêmica do cerrado e uma foto com som de água roçando nas pedras

O Nivaldo deixa um legado de amor para a irmã, família e amigos; de generosidade para quem trabalhou com ele; de museus e exposições para as futuras gerações. Para mim, pessoalmente, ficou o entender que a vida é rica e cheia de possibilidades, mas também frágil, fugidia. O instante do sonho passa em um piscar de olhos — sonhar é lindo, mas o motor da vida é a ação.

Eu não acredito que o Nivaldo morreu, como não acredito que o Museu Nacional acabou. E hoje eu tô aqui escrevendo sobre museus, templos construídos para parar o tempo, enquanto imagino o super-homem (aquele que ficou paraplégico) dando umas voltas em sentido contrário ao redor do mundo e fazendo o tempo voltar atrás.

Porquenista é a Revista do PorQueNão? no Medium. Esta não-entrevista é mais um dos lindos conteúdos que criamos. A gente acredita que a transformação vem através de bons exemplos, e para continuar trabalhando com um time incrível mais os equipamentos e deslocamentos necessários, contamos com você.

Conheça a nossa campanha de financiamento recorrente | apoia.se/porquenao