O mundo contra as mulheres neuroatípicas

Uma história de ódio e humilhação assinada pela Cultura Pop.

Basta entrar em qualquer comunidade relacionada a séries, filmes e livros para perceber que, quase como regra, as personagens mais odiadas são mulheres. Mais que isso, são as mulheres histéricas, loucas, choronas e que não ficam quietas (ou ficam quietas demais). Nem as crianças escapam disso, como é o caso de Rachel Ferrier (interpretada por Dakota Fanning), filha do personagem do Tom Cruise em Guerra dos Mundos, que sofre de algum transtorno de ansiedade não identificado.

O mundo Pop parece estar infectado com um grave caso de machismo, o que já foi abordado diversas vezes por diversas personalidades, e psicofobia. Antes de abandonar o texto e xingar os politicamente corretos no Twitter por termos inventado mais um termo com sufixo “fobia”, tente me acompanhar nessa explicação sobre ele e, se ainda estiver insatisfeito, pode dar adeus, farewell e auf wiedersehen.

Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria, que fundou a causa após um dos seus expoentes militantes, Chico Anysio, sugeri-la, a psicofobia “é o preconceito contra as pessoas que têm transtornos e deficiências mentais.” Este preconceito pode se manifestar de diversas maneiras, desde discriminação no ambiente de trabalho e familiar, até a guerra às drogas.

Foucault descreve em uma de suas obras mais famosas, A História da Loucura, que os então chamados loucos eram jogados em depósitos junto de leprosos, prostitutas e pessoas com doenças venéreas. Eram considerados possuídos por demônios e, por causa do poder purificador da água para a igreja, foram isolados em navios, enviados para a sua própria sorte em terrenos que nunca conheceram previamente. A loucura era tratada como crime. Não existia reabilitação, apenas grades e violência.

Como sabemos, a história se repete. Hoje em dia cometemos a atrocidade, por exemplo, de tratar dependência química como parte de um problema na esfera de segurança e não da saúde. Os despejos e desocupações na cracolândia falam por si só. Os moradores de rua viciados “sujam” as cidades, as prefeituras constroem pinos e espinhos no chão para que eles não encontrem local para dormir, o que torna a psicofobia principalmente um problema predominante na classe social mais baixa da população, com recorte racial e de gênero, visto que só consegue tratamento e internações eficazes em instituições particulares. Este seria um dos problemas mais explícitos que encontramos como exemplo da psicofobia, mas ela não para por aí.

As raízes da psicofobia também encontram espaço para fincar na nossa rotina. Quem nunca escutou que depressivos são preguiçosos, ansiosos têm frescura, bipolares estão “em cima do muro”, esquizofrênicos são psicopatas, psicopatas são o mal encarnado etc.?

Especificamente no caso da mulher, a psicofobia se estende por todo o gênero. A qualquer sinal de fragilidade, seja este uma pequena alteração de humor, ou o cansaço de ter uma vida dupla com trabalho e atividade doméstica, estaremos sujeitas a tachamentos de histeria, ou à pergunta clássica: “Você está na TPM?” Parece até que nosso corpo está proibido de ter uma reação à altura das opressões que sofremos diariamente sem se reduzir à frescura ou aos hormônios.

Mais do que isso, a psicofobia rotineira pode e leva a mulher a reais condições psiquiátricas e a mantém refém de um sistema patriarcal difícil de se enxergar. A culpabilização da vítima de violência doméstica envolve preconceito à fragilidade e imobilidade que mulheres depressivas, ansiosas e dependentes emocionalmente sentem. É inconcebível para uma pessoa saudável, sem algemas mentais, ficar presa a uma situação que lhe é prejudicial como um relacionamento abusivo. Apanhar do marido e suicídio tornam-se, então, atos de covardia. Já a mulher que sofre de ambos, vira o agente ativo da sua própria opressão.

Não seria raro, então, encontrar na cultura pop exemplos desta situação. Ela se torna clara e explícita no caso de Sansa Stark, de Game of Thrones. Sansa é uma garota de treze anos e, assim como a maioria das meninas e dos meninos desta idade, não saberia como agir se estivesse à mercê de um menino mimado que estupra, violenta e espanca mulheres ao seu bel prazer e tem sete reinados aos seus pés. Mesmo assim, é encarada como chorona, irritante e muitas vezes a pior personagem da série. Os fãs não só a odiavam por sofrer abertamente, como desejavam sua morte ou mais violência, de modo que ela tivesse, enfim, uma punição por não saber se comportar diante da situação como sua irmã mais nova Arya.

Há uma indignação com a incapacidade das mulheres se levantarem e agirem de acordo com a própria vontade. É obrigatório que ela se force a resistir. É mal-visto sucumbir às forças da violência exterior. O regime masculino em que as mulheres vivem as proíbe de chorar, reclamar, sofrer ou adoecer na ficção e é ainda mais evidenciado no caso das negras, que já têm uma representação diferente no cinema:

“A negra arretada é aquela personagem expansiva, cheia de atitude, que não tem medo de puxar a orelha de quem quer que seja e é mestre em fazer movimentos circulares com a cabeça sem dar mal jeito no pescoço. (…) O problema é que tem dois caminhos que esse estereótipo pode tomar: o caminho razoavelmente inofensivo, que geralmente faz com que a negra arretada seja barulhenta, sim, mas também sensata, confiável e uma boa líder; e o caminho negativo, que envereda ladeira abaixo nos estereótipos da Negra Promíscua, da Negra Barraqueira e da Negra Perua. O problema também está na frequência com que esse estereótipo é usado, que é grande. Sim, Hollywood, pode parecer chocante para você, mas mulheres negras também podem ser introspectivas, tímidas, observadoras, reservadas, etc, etc, etc. Em suma, todo o espectro de personalidades que uma pessoa branca pode ter é o mesmo para uma pessoa negra.” Lara Vascouto no texto Esteriótipos Racistas de Hollywood.

Ao mesmo tempo que condenável aos olhos de espectadores e leitores dessas histórias, é normal para uma mulher chorar, sofrer e reclamar na vida real. É da natureza da mulher choramingar e suspirar. Elas são mais sensíveis, emotivas, porque são mães por princípio. Por isso não surpreende um homem gostar mais das moças que se destacam desse esteriótipo na televisão. Elas são diferentes, fortes, bonitas de admirar. Ele ignora o fato de que é um desses personagens que as mulheres matam com espadas, fogo e veneno na ficção. A mulher forte só é bonita nas telinhas, nas páginas. Mas que nenhuma moça ouse levantar-lhe a voz! Afinal, o sonho adolescente masculino é uma namorada frágil que esteja disponível às suas órdens sexuais (ande só com calcinha e uma de suas camisetas de Star Wars pela casa) e estomacais (faça um sanduíche para ele!).

Já no caso de Riley, em Sense8, podemos perceber a comparação entre ela e os outros sete personagens. Novamente a inutilidade e inabilidade de uma mulher depressiva incomoda o público de uma série que, supostamente, aborda a humanidade e o psicológico de várias personalidades distintas. É importante, aqui, citar a incoerência de não acreditar na meritocracia e valorizar apenas mulheres que conseguiram superar estes obstáculos. Para Riley o luto nunca acabou. Ela não superou completamente o seu passado, e não tem forças para fazê-lo tão cedo, ao contrário de Sun e Nomi. Riley representa a maioria das mulheres, que não encontram saída em suas vidas de violência, que não têm opção.

A mídia em geral endossa, portanto, o discurso machista e psicofóbico também através da ficção. Apesar de a ciência contemporânea e moderna tentar a todo custo associar transtornos mentais a disfunções exclusivamente biológicas como a interferências de hormônios gonadais ou dismorfismos encefálicos (embora nada tenha sido encontrado efetivamente em pesquisas), é suposto que as pressões ambientais sejam o principal motivo no desencadeamento dessas doenças, que são predominantes em mulheres (com proporção de 3 casos femininos para cada caso masculino).

Portanto é necessário afirmar que o modo que a mídia nos retrata em livros, novelas, séries e filmes imprescindivelmente afeta a forma que somos tratadas no dia a dia. Os esteriótipos de histérica, frescurenta, preguiçosa e chorona que reproduzimos terão como consequência enormes disparidades entre o tratamento de mulheres e homens em cárcere, na psiquiatria, na segurança pública e nas estatísticas de suicídio.

É necessário, então, que tomemos a responsabilidade de exigir um do outro a valorização da mulher depressiva, ansiosa, bipolar, esquizofrênica e outras na mídia, para que todas consigam se libertar do estigma e do penhasco imprevisível que são as doenças mentais. Não há machismo sem psicofobia e, portanto, não se liberta todas as mulheres sem a libertação das mulheres neuroatípicas.

Que a guerra contra elas cesse antes que elas cessem as suas próprias vidas.