A contribuição social da Paixão de Cristo saltense

O evento que reúne boa parte da sociedade saltense foi cancelado em 2017, abrindo para debate sua influência no cotidiano da cidade

Por Vitor Zaninelo

(Foto: Reprodução/ Freepik)

Tradição desde 1996, a encenação da Paixão de Cristo é o maior e mais abrangente acontecimento artístico e cultural da cidade de Salto, atraindo olhares tanto da população local quanto regional. “O espetáculo é sempre lindo, de se encher os olhos. É uma honra e uma alegria muito grande poder participar!”, relata Ênio Scallet, ator que protagonizou Jesus Cristo nas últimas cinco edições.

No início do mês de março a prefeitura, em nota, informou que a encenação da Paixão de Cristo de 2017 foi cancelada devido às dificuldades econômicas em que o município se encontra. A notícia se espalhou e chocou não somente os envolvidos na produção do evento, mas também os espectadores fiéis que, ano a ano, esperam sempre por novidades e muita emoção.

Para Edivaldo Cruz, ator e integrante do elenco há dezoito anos, o aspecto social contido no espetáculo é de extrema importância, uma vez que, o simples fato de convidar outra pessoa a participar dos ensaios, por exemplo, promove em si uma sensação de dever social cumprido. Edivaldo e Ênio ressaltam ainda que muitas vezes, pessoas que nunca tiveram acesso a uma oficina de teatro ou até mesmo aos palcos sagrados da representação teatral participam da Paixão de Cristo e acabam tomando gosto pela arte de encenar. “Você nota a importância dela quando vê que ali nos ensaios existem pessoas, crianças, jovens ou adultos que poderiam fazer tantas outras coisas, mas optaram por estar ali, longe da violência mundana e até mesmo das drogas.” enfatiza Edivaldo.

Segundo Ênio Scallet, cancelar o evento foi um choque para todos. “O cancelamento da Paixão de Cristo chocou e afetou a todos nós, seja de uma forma ou de outra. A atitude do prefeito em comunicar à equipe que a encenação não aconteceria esse ano foi plausível. Foram apresentados em uma reunião com as lideranças da cidade dados e índices orçamentários, deixando claro que a prefeitura, de todas as maneiras, tentou fazer com que o evento não fosse cancelado”. Para o ator, o espetáculo é uma grande representação artística e cultural, uma das poucas oportunidades que o município tem de reunir num só evento, teatro, dança, música, iluminação, som e todos os sentimentos e emoções do qual dele deriva. Partindo do ponto de vista de que o brasileiro vai muito pouco ao teatro o cancelamento é, portanto para Ênio, uma perda significativa.

Sem dúvida, a cidade de Salto passa por um momento delicado no que diz respeito as suas finanças públicas. O cancelamento da Paixão de Cristo, significa uma quebra nas tradições que há anos contribuem para a elevação e divulgação da cultura local, disseminando a arte e democratizando o acesso da população a manifestações artísticas populares.

Esperançosa, toda a população saltense aguarda que a terra dos taperas e de grandes nomes que fizeram e fazem parte de sua história, como Anselmo Duarte, saltense e ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1962, com o filme O Pagador de Promessas continue sendo berço de eventos que transformem a vida das pessoas, fazendo-as refletir e tornando-as melhor.

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