A mentira que é verdade: compreenda como as Fake News atingem e influenciam | Ano 4–8ª edição

Com o crescimento da internet, o maior desafio é compreender se as notícias falsas atingem e se deixam influenciar. Será que estamos preparados para lidar com elas?

Camila Bandeira e Gabriela Lobo

Foto: Divulgação/Internet

São denominadas Fake News postagens que apresentam conteúdo falso. Essas informações causam títulos duvidosos, gerando cliques nas postagens com caráter de notícias jornalísticas através das mídias sociais. Além disso, colabora deixando um determinado personagem em evidência, prejudicando outro indivíduo, o que corresponde ao que chamamos de “Imprensa Marrom”.

A Fake New foi criada pelo site Ceticismo Político e compartilhada 360 mil vezes. Muitas vezes a divulgação é feita de forma intencional, ou seja, já sabendo que é uma notícia falsa; entretanto, quando compartilhadas, as pessoas desconhecem que estão lendo fake news pelo simples fato que as notícias falsas condizem com o seu pensando, e estas gostariam que aquilo fosse verdade.

O primeiro equívoco está justamente em generalizar toda desinformação como “fake news”. Essa expressão, importada da língua inglesa nos últimos dois anos, partia de personalidades e instituições que queriam desacreditar críticas feitas a elas por jornalistas. Essa prática tem como objetivo desviar de polêmicas e evitar responder sérias investigações. Pensar na segurança e no respeito pelas informações verídicas também é resguardar a diferença entre o termo “fake news”, que carrega consigo um peso de desinformação e notícias falsas.

Estas têm o poder de se propagarem sozinhas, apelando para o emocional humano. Quando esse tipo de notícia concorda com determinadas opiniões pré-estabelecidas, ela tem mais chances de ser compartilhada, porque as pessoas estão sempre em busca de mais argumentos que justifiquem seus posicionamentos. Com isso, os produtores de notícias falsas acabam se aproveitam da falta de autocrítica e de checagem de informações. Diante disso, esses produtores lucram muito em pouco tempo.

Em uma entrevista com Fabrizio Di Sarno, professor do CEUNSP (Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio), ele comenta sobre o caso da Vereadora Marielle Franco, as ondas de notícias falsas e o comportamento das pessoas mediante o fato. “Os extremistas de ambos os lados têm trabalhado muito nesta questão das fake news e de inventar notícias falsas em épocas de eleição. Isso mostra o modo como essas pessoas estão operando para atingir seus objetivos, espalhando, de uma maneira muitas vezes maléfica, para poderem divulgar suas causas e aproveitando do fato que essas só leem o título e acabam nem lendo com profundidade o que a matéria está dizendo. E essa questão das pessoas lerem muito o título faz você colocar uma fake news, e as pessoas automaticamente acabam comprando a ideia. Isso é bastante problemático”, relata.

Muitas vezes notícias falsas são compartilhadas via Facebook e WhatsApp, e quem compartilha não tem conhecimento. O Jornal Científico Science publicou um estudo informando que notícias falsas se espalham mais rápido e são compartilhadas mais de 70% do que as verdadeiras, e levem, em média, seis vezes menos tempo para alcançar os 1.500 leitores no Twitter (rede social na qual o tráfego foi analisado).

O Expresso conversou com algumas estudantes. Gabrielle Ferreira, estudante de design de moda de 18 anos, conta que “sim, já compartilhei notícias sem consultar se é verdade ou não”. “No início do WhatsApp eu compartilhava tudo, era mais nova e mandava até corrente”, conta. Vállery da Costa, estudante de psicologia de 21 anos, conta que não costuma “ver se é verdade, quando é promoção, essas coisas, eu só vejo se é verdade depois que já mandei, e quando é notícia de famoso eu geralmente mando perguntando se é verdade”. Também conversamos com Beatriz Galhego, técnica de garantia de 26 anos. “Costumava compartilhar de tudo e até passei por situações constrangedoras por mandar uma informação que não era verdadeira”.

A divulgação dessas notícias é feita pelas redes sociais, por anúncios pagos, pessoas e perfis falsos. Hoje, considera-se que o WhatsApp deve ser a mais problemática das redes sociais quando se fala em desinformação. Quando as mensagens circulam diretamente entre pessoas, não existe um regulador dessas mensagens que possa classificar o que é verdadeiro ou não.

É por isso que a melhor maneira para combater essas notícias é a educação, transparência e o exercício de checagem de fatos. As Fake News se iniciaram com morte de artistas que estavam vivos, porém hoje elas estão muito além, como aconteceu na eleição dos Estados Unidos e o Brexit (processo de saída do Reino Unido da União Europeia). Há um poder no botão “compartilhar” nas mídias sociais. Ao clicar, será disparada para cidades, estados e países diferentes. O problema não se encontra no compartilhar, mas sim na veracidade do conteúdo.

Como identificar Fake News

  1. Confirme as fontes — algumas notícias costumam ser traduzidas de sites de outros idiomas e republicadas sem revisão de tradução. É muito importante checar a fonte original da reportagem em questão e averiguar se não houveram erros no momento em que aquele texto foi traduzido;
  2. Aprenda a mexer no site que está visualizando — é muito importante ser cauteloso em relação ao que se lê na internet. Pesquise sobre a página ou o perfil que está seguindo. Ser crítico é a melhor solução;
  3. Leia a matéria completa e preste atenção nos autores — é normal o costume de não ler a matéria completa e tirar conclusões precipitadas, por isso leia as informações até o fim e pesquise sobre os autores, ainda mais se nunca ouviu sobre os responsáveis pela criação e propagação dessas notícias;
  4. Confira a data de publicação — não publique ou compartilhe notícia velha como atual. Quando isso acontece, automaticamente considera-se a notícia como falsa pelo tempo que se passou desde a data de publicação;
  5. Dê uma olhada em outras notícias do mesmo site — por mais que uma informação pareça ser verdadeira, é preciso verificar nos detalhes a veracidade da publicação. Dê uma olhada em outros posts do site ou perfil e veja se algo já foi desmentido e quais são os comentários. Por mais difícil que pareça, não é impossível desmascarar uma notícia falsa;
  6. Utilize o Google Notícias — o Google oferece uma ferramenta pouco utilizada, que permite checar se uma notícia é verdadeira ou não. Basta acessar a página do Google, digitar a chamada da notícia na barra de busca e, após os resultados, clicar no campo “Notícia” (como na imagem abaixo).

Iniciativas jurídicas brasileiras

Imagem: Reprodução

A primeira iniciativa brasileira para combater a veiculação de notícias falsas se encontra na Lei de Imprensa (Lei n.º 5.250, de 09/02/1967), declarada pelo Supremo Tribunal Federal como não recepcionada pela Constituição de 88, nos termos da ADPF 130–7/DF, da relatoria do Ministro Carlos Ayres Britto.

Precisamente no artigo 16, refere-se à Lei criminalizada e conduta “publicar ou divulgar notícias falsas ou fatos verdadeiros truncados ou deturpados, que provoquem: I — perturbação da ordem pública ou alarma social; II — desconfiança no sistema bancário ou abalo de crédito de instituição financeira ou de qualquer empresa, pessoa física ou jurídica; III — prejuízo ao crédito da União, do Estado, do Distrito Federal ou do Município; IV — sensível perturbação na cotação das mercadorias e dos títulos imobiliários no mercado financeiro. Pena: De 1 (um) a 6 (seis) meses de detenção, quando se tratar do autor do escrito ou transmissão incriminada, e multa de 5 (cinco) a 10 (dez) salários-mínimos da região (…)”.

Perguntamos se quem cria uma Fake News está cometendo um crime, e para Leonardo Santanna, estudante de direito de 24 anos, “a atividade em si de divulgar notícias falsas nas redes sociais, de acordo com a legislação atual, não configura crime. Há, no entanto, algumas exceções. Se essas ‘notícias’ ofenderem a honra de determinada pessoa ou a ela imputar falsamente a prática de um fato criminoso, a conduta de divulgar a notícia falsa é punida pela legislação penal. São os crimes de difamação e calúnia. Há, também, punição para aquele que imputa em época de eleições, com o intuito de prejudicar sua candidatura. Tramitam atualmente no Congresso Brasileiro alguns projetos de lei que tem por finalidade tornar crime o ato de divulgar notícias falsas. Tais projetos, no entanto, devem ser analisados com cautela a fim de que seja evitada qualquer hipótese de censura ou ataque à liberdade de expressão dos cidadãos”. Leonardo também explica quais são as medidas que devem ser tomadas judicialmente.

“Na esfera judicial, o ato de divulgar notícias falsas pode gerar responsabilização civil daquele que a divulga. Por exemplo, se alguém publica uma notícia ofendendo ou denigrindo a imagem de outra pessoa se baseando em algo falso, o responsável pela publicação pode ser obrigado a indenizar o ofendido por danos morais”, informa.

Infográfico: CrowdTangle/Facebook

Através das mídias sociais, as notícias falsas e sensacionalistas ganharam um engajamento, consequentemente gerando uma queda no jornalismo. Porém, a postura de um bom jornalista é correr atrás da matéria, checar e comprovar dados e fatos que estão acontecendo, com isso passando à frente das Fake News.

Muitas vezes as notícias falsas, quando produzidas, causam confusão, pois estão saindo do foco jornalístico, afetando toda credibilidade do profissional que é responsável por apurar, elaborar e expor os fatos, tendo como consequência um comportamento questionável e falta de ética de quem publicou. Fernando Cesarotti, professor de jornalismo no CEUNSP, disserta sobre a interferência das Fake News no meio jornalístico.

“Bom, não se sabe exatamente como surgem, ficam sabendo de alguns casos e de algumas centrais de notícias falsas. Nosso papel como jornalista é identificar e checar. Então se você acha que aquela notícia te satisfaz demais, ela tem boas chances de ser falsa. Um dos motivos pelos quais as pessoas espalham notícias falsas é porque elas acreditam”, conclui.

“O bom jornalista é o maior antídoto contra as notícias falsas”, diz Ricardo Pedreira, diretor executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ).


Edição realizada por Gabriela Prado.

Portal Expresso

Projeto de Agência Experimental de Comunicação e Artes de Jornalismo do CEUNSP. Doses semanais de conteúdos originais sobre: política, economia, esporte, entretenimento, ciência & tecnologia, debates & opiniões.

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