Jovens evangélicos: preconceito e oposição | Ano 4–8ª edição

Vivemos em uma sociedade regida por segmentos e cada um necessita de uma doutrina ou rotina para levar sua vida. Os jovens, principalmente. Sem rotina de estudos dificilmente estudam, mas sem rotina de vida como conseguem?

Gabrielle Santana

Os jovens evangélicos têm sido muito zombados e ridicularizados nos últimos tempos. O preconceito sempre foi notório, mas com o passar dos anos tem crescido cada vez mais. Gabrielle Santos, de 20 anos, evangélica, nasceu na Congregação Cristã no Brasil, uma igreja regida por diversas doutrinas — entre elas vestimentas, não cortar o cabelo (mulheres), não usar acessórios e nem maquiagem.

“Não que o preconceito seja nítido, mas dá para perceber quando em rodas de conversa surgem assuntos como se você segue alguma religião, e você responde que sim, que é evangélica, já te olham com um olhar de indiferença, chegando a me dizer que eu era ‘crente do rabo quente’, com essas piadas bobas, a perguntarem também porque eu era do Congregação e estava usando calça, usando brinco, perguntando também se o meu pastor deixava eu sair pra comer pizza”, relata Gabrielle.

Cada pessoa no mundo tem um jeito de levar a vida. Alguns consideram a religião algo de extrema relevância, já outros não dão a mesma importância. Cada um vê a vida de uma forma e cada um segue aquilo que acredita. Em um mundo onde a geração ouve com os olhos, pois não acredita mais só de ouvir, mas necessita ver, fica muito difícil algum “Deus” agradar a todos. Há quem acredite no “Todo Poderoso” como há quem não acredite em nada ou em outros deuses.

O segmento cristão é algo levado muito a sério por quem o pratica. Para eles, a grandeza de Deus é maior do que qualquer coisa que exista, e quem não as pratica — e age por brincadeira como se praticasse — é visto pelos fiéis como quem zomba da fé deles. Nataly Cristina, evangélica de 21 anos, relatou um ocorrido.

“Uma amiga falou que tinha me visto na frente da igreja, aí uma colega foi e me disse Paz do Senhor (forma com a qual se cumprimentam duas pessoas de igrejas cristãs) e eu virei para responder, só que quando vi ela estava zombando, rindo, como se eu não tivesse o direito de ser humana e fazer as coisas que muitos jovens fazem. Não é porque vou na igreja e sigo o cristianismo que não posso usar um batom vermelho, cortar meu cabelo, usar um shorts, sair com meus amigos para alguns lugares. Alguns jovens ainda têm a cabeça fechada, acham que todas as igrejas são congregações que vivem em um cubo, onde só se ouve ‘não pode’.”

Nós, do Jornal Expresso, queríamos saber: porque o evangelho, a religião e as doutrinas atraem alguns e levam outros mais distantes de compartilhar essa fé? Frente a isso, conversamos com dois jovens de lados “opostos”. Lucas Constantino tem 21 anos e há um ano e meio se converteu ao evangelho. Questionado pelo Expresso sobre qual o benefício em seguir a Deus e a uma religião tem na vida dele, ele dissertou. “Eu acreditava que os meus méritos, os meus esforços renderiam a mim a felicidade que eu tanto queria, isso provou ser uma grande mentira, porque enquanto eu negava o nome de Cristo eu tinha momentos de alegria e não de felicidade, e depois de muito tempo foi quando eu conheci a Cristo, e não é aquele negócio de agora que segue uma religião deixa de fazer tais coisas. Você apenas substitui por coisas que realmente te fazem feliz”.

O jovem também conta que, antes mesmo de se converter, já tinha parado de beber, porém ainda frequentava os barezinhos, e isso não mudou após sua conversão, só foi substituído. “Eu parei de ir a tais lugares e comecei a ir ao cinema, em fast foods, ir à casa dos meus amigos, algo que já não fazia mais”, conta Lucas.

Lucas em sua igreja lendo a bíblia (Foto: Arquivo pessoal)

“O cristão não deixa de fazer nada, ele apenas troca ao encontrar Jesus, você entende que o filho do Deus vivo quer ser seu amigo, então você deixa de ir ao bar para ler a bíblia, isso instaura uma felicidade muito abrangente na sua vida, que não dá para trocar, e se você substitui, sente uma grande falta. Seguir a Deus tem me dado essa felicidade porque nele eu encontrei o amor. Uma paz e alegria encheram meu coração por pessoas que eu conheço e que não conheço também. A felicidade não depende de coisa, mas sim de pessoa. Quando se tem um relacionamento verdadeiro com Cristo, a felicidade se implanta de maneira automática”.

Na mesma direção, perguntamos a Bruce Derick, de 17 anos, agnóstico, o porquê de ele não seguir uma religião e qual benefício isso tem proporcionado à sua vida. “Crer em algo ao qual não posso ter 100% de certeza de que existe, seguir esse algo e ‘obedecê-lo’, é difícil. Não posso saber como ele foi criado ou se ele (Deus) existe mesmo, sendo assim não posso crer”, disserta. Sobre o benefício, Bruce completou. “Bom, parece que só assim tenho mesmo o livre arbítrio, até porque ele dá o livre arbítrio, porém, não siga as regras e os mandamentos propostos a ele e seja jogado na danação eterna no inferno”.

Vivemos em um país laico, onde, assim como Bruce e Lucas, você é livre para escolher o que seguir. A visão dos evangélicos em relação à doutrina de roupa e costumes é errada. Isso vai de cada igreja. Há aquelas em que os eventos só acontecem dentro da igreja e outras tanto dentro como fora. Há igreja das quais as vestimentas das moças são sempre saias e outras em que a calça é liberada, tanto no culto quanto na vida secular.

Lucas e outros jovens evangélicos da Igreja Assembléia de Deus El-Shaday em culto na rua, ao lado de moradores de rua (Foto: Arquivo pessoal)

“Acredito que elas tenham surgido como uma forma de ‘manipular’ e estabelecer a ordem na época a qual surgiram, por exemplo a católica, que antes era a segunda em comando do feudalismo. Eles faziam as pessoas temerem e acreditarem que, se obedecem, teriam uma recompensa divina no pós morte”, diz Bruce sobre as doutrinas.

Em contrapartida, Lucas afirma que “ela tem poder de atrapalhar na vida espiritual, porque essa vida é tão individual que não dá para acatar isso como obrigação. A doutrina é feita para te orientar e te levar adiante, porque a bíblia diz para sermos respeitosos com os nossos líderes porque o posicionamento deles vai nos levar adiante, tanto que eles vão prestar conta disso para Deus”.

Lucas e jovem da sua igreja com roupas comuns, que usam fora e dentro da igreja (Foto: Arquivo pessoal)

“Quando essas doutrinas infringem a palavra de Deus, você tem autoridade de refutar. Eu entendo que a doutrina pode atrapalhar, mas a partir do momento que você compreende em termos bíblicos que o véu foi rasgado e você tem livre acesso a falar com Deus e só sai se quiser, você não se prende de uma maneira tão dura à doutrina, você segue e se adéqua, mas não deixa o primordial, os mandamentos principais do Cristo. Até o presente momento, a doutrina nunca me atrapalhou”.

A questão é que, independente da sua escolha, todos devem ser felizes à maneira que escolherem viver, com um Deus os guiando ou sendo guiados pelos seus próprios desejos e consciência.

Edição realizada por Gabriela Prado.

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Projeto de Agência Experimental de Comunicação e Artes de Jornalismo do CEUNSP. Doses semanais de conteúdos originais sobre: política, economia, esporte, entretenimento, ciência & tecnologia, debates & opiniões.

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