O Brasil dos refugiados da Síria

Ferdi Shan, refugiado Sírio, saiu do seu país buscando segurança e fugindo de uma guerra que está longe de terminar (Foto: TV Expresso)

Por: Vanessa Arruda

Vindos de lugares devastados onde a fome, a violência e a guerra andam lado a lado alastrando sofrimento por onde passam, os refugiados sírios se arriscam atravessando fronteiras por terra ou mar, buscando socorro em países da Europa, perdendo assim parentes, filhos ou até própria vida.

Por serem poucos os países europeus com portas abertas, muitas dessas pessoas resolvem se abrigar no Brasil, com a esperança de permanecerem seguros e ter uma nova vida. “Saí da Síria há cerca de sete anos. Fui chamado para a guerra, mas consegui por meio um contato escapar, dizendo que estava viajando. Fui para a Jordânia e morei lá por dois anos e meio, vivendo muito bem. Resolvi sair, pois o povo daquele país é muito bravo. Passei pelo Catar e depois tive a oportunidade de vir para o Brasil”, conta Ferdi Shan.

(Infográfico: TV Expresso)

Adaptação no Brasil

Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos refugiados é a comunicação. O ensino da língua portuguesa é feito em mesquitas, por voluntários brasileiros e também por estrangeiros que estão no Brasil há mais tempo. Mesmo assim, a dificuldade ainda é grande, restringindo o acesso serviços e documentações necessárias para a permanência no país. “Dirijo sem CNH no Brasil há quatro anos. Tenho tentado tirar habilitação no Brasil, mas as regras do Detran me impedem, pois os exames são feitos em português. Levei comigo um advogado para que ele fosse meu tradutor, mas o Detran não autorizou”, declara Ferdi Shan.

Além das diferenças linguísticas, os problemas enfrentados pelo povo brasileiro que também refletem nessas comunidades de refugiados. O desemprego no país chega a 12 milhões de pessoas e para os refugiados a dificuldade em conseguir um emprego é ainda maior. Boa parte dessas pessoas possuem aqui profissões diferentes das que tinham no país de origem.

Nessas comunidades, é comum se acharem empresários, médicos e comerciantes que foram obrigados a abandonar a profissão pela paz e segurança num país estrangeiro. Ferdi, por exemplo, precisou trabalhar bastante para montar o próprio negócio. “Quando eu cheguei ao Brasil não tinha nada. Fui trabalhando e me esforçando e há três meses consegui montar meu salão”, comenta.

Liberdade Religiosa

Na Síria, a perseguição religiosa é uma questão delicada. Todos os dias, cristãos são torturados por extremistas muçulmanos e mortos em pelotões de fuzilamentos. Os muçulmanos que não aderem as mesmas ideias extremistas sofrem as mesmas consequências. Num país como o Brasil onde há várias religiões que se respeitam, os refugiados se veem livres para professar a sua fé e frequentar os cultos sem o perigo da perseguição e da morte.

Ferdi Shan é ateu, mas vê no Brasil que as religiões embora diferentes, conseguem conviver sem violência ou intolerância. “Dependendo do país muda muito. Na Síria, nós viajávamos muito, conhecemos vários países e também as variedades e costumes do povo árabe. A minha família é muçulmana, mas é mais aberta, nós temos amizade com pessoas de várias religiões, mas se conversarmos sobre religião, percebemos que eles são fechados para esse assunto”, afirma.

(Foto: reprodução internet)

Brasil Fechando as Portas

Nos países da Europa e nos Estados Unidos, o asilo é negado aos refugiados por questões políticas e pelo medo do terrorismo. No Brasil, o problema tem sido outro. Segundo o Conare (Comitê Nacional para os Refugiados), o número de pedidos de refúgio cresceu de 966 para mais de 28 mil em 2010 e nos últimos anos, o país tem sido mais rígido em relação a esses pedidos. Em 2016, foram 886 pedidos de asilo deferidos contra cerca de 1200 não deferidos, mesmo sendo muitos deles por motivação econômica.

Com o Conare a fiscalizando os pedidos com mais atenção, os refugiados que chegam ao país com documentos não formais são barrados e a lei acaba por descartar os documentos falsos, negando a entrada dessas pessoas no país. Tudo isso acabando por prejudicar os refugiados que foram obrigados a abandonar casas, carros e a vida que tinham por causa da guerra.

Segundo o professor Ângelo Aparecido Souza Jr, Especialista e Mestre em Direito Internacional da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos), essas condições impostas pelos países que fecham as fronteiras não condizem com o Estatuto de Refugiados da ONU (Organização das Nações Unidas) feito em 1951, que assegura condições de abrigo aos refugiados.

Ângelo Aparecido Souza Jr (Foto: TV Expresso)

O professor ainda critica as motivações que levam a essa rejeição.“Eu vejo um grande retrocesso dos países europeus a partir do que aconteceu na Síria. São diversas as desculpas, dizem que os refugiados estariam tomando os empregos ou alegam que é por questões de segurança, pois não se tem controle dos refugiados que na maioria das vezes entram clandestinamente. Por outro lado, a postura do Brasil em relação a isso é bastante equilibrada”, comenta.

Ferdi Shan conta que sua família gostaria que ele se estabelecesse na Alemanha, mas ele se adaptou no Brasil e hoje diz preferir aqui a Europa. “Eu tenho amigos espalhados por vários países. Se você olhar meu Facebook tem amigos meus na China, em Taiwan, nos Estados Unidos e todos eles e chamaram de burro por vir para o Brasil. Mas eu não acho, eu gosto daqui. Aqui sou tratado muito bem. E ninguém vai falar ‘Sai do meu país que eu não gosto de você’ como nos Estados Unidos, por exemplo”, finaliza.

Para saber mais da história de Ferdi Shan, assista também a matéria produzida pela TV Expresso:

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.