Trilogia Millennium ou Como o jornalismo pode ser usado de forma brilhante na ficção

Por: Ana Júlia G. Przsiczny

Utilizar personagens que tem alguma relação com jornalismo não é um recurso inédito ou extremamente original na ficção. Parando para pensar no assunto, em pouco tempo é possível lembrar-se de alguns exemplos muito conhecidos: Clark Kent, disfarce utilizado pelo Super-Homem, e sua namorada, Lois Lane, são repórteres do jornal Clarim Diário; o personagem título do filme Cidadão Kane é jornalista; Miranda Priestly é editora da revista de moda em que trabalha Andrea Sachs, no livro O Diabo Veste Prada, posteriormente adaptado para o cinema; em muitas comédias românticas, como Nunca Fui Beijada, as protagonistas são colunistas, repórteres, cronistas. Apesar do tema relativamente comum e recorrente, Stieg Larsson, autor da trilogia Millenium, provou que é possível inovar e marcar a história da literatura policial utilizando o gancho do jornalismo.

A trilogia Millennium é composta pelos livros Os Homens que Não Amavam as Mulheres, A Menina que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar, todos publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras. O autor, que nasceu na Suécia, era um jornalista conceituado e premiado em seu país, mesmo antes de escrever os livros que o fariam mundialmente famoso — fama que ele não chegou a conhecer, pois faleceu de um ataque cardíaco logo após entregar sua obra à editora.

A trama gira em torno do personagem Mikael Blomkvist, fundador, sócio e editor da fictícia Revista Millennium, conhecida por suas reportagens polêmicas que denunciam escândalos políticos, e sua relação com a hacker Lisbeth Salander — que viria a ser, fora das páginas, um dos maiores exemplos de personagem feminina forte e independente.

No primeiro volume, os protagonistas são apresentados, tanto para os leitores quanto um ao outro, e envolvidos em uma trama de investigações, escândalos e assassinato que rodeia uma família rica e tradicional. Durante o desenvolvimento, todo o processo da investigação é descrito em detalhes, seja pela utilização de tecnologias com Lisbeth, ou pela caça jornalística de Mikael, um excelente entrevistador, que se envolve profundamente com sua pesquisa. Usando técnicas bem conhecidas por ele graças ao trabalho na revista, Mikael encontra respostas que nem mesmo a polícia conseguiu encontrar em anos de busca.

Apesar de se tratar de uma ficção, todos os acontecimentos são perfeitamente críveis, e enredam o leitor de tal forma que fica difícil distinguir o que é real e o que não é. Isso é mérito exclusivo da habilidade com escrita de Stieg Larsson, e de seu óbvio conhecimento de técnicas de pesquisa e apuração — comprovado pelos prêmios recebidos na Suécia relativos às denúncias sobre corrupção na política. Basicamente, ele sabia tudo que há para saber sobre a ferramenta com a qual estava trabalhando, e o demonstrou em cada parágrafo dos três livros.

Além do tradicional suspense encontrado em obras desse gênero, os livros se aprofundam em questões sociais, principalmente na forma que a sociedade trata as mulheres. A violência cometida todos os dias contra elas é não apenas denunciada, mas escancarada, condenada, destrinchada: focando em poucas personagens, Larsson demonstra todo o sofrimento pelo qual mulheres do mundo inteiro passam, não apenas violência física, mas também o julgamento das pessoas e da própria mídia, que o autor condena, apesar de ser jornalista. O sensacionalismo e a falta de empatia dos veículos que cobrem, principalmente, o caso de Lisbeth Salander — acusada, injustamente, de assassinato, e perseguida tanto pela polícia e pela mídia, quanto pelos verdadeiros criminosos -, mostram o poder que veículos de divulgação têm sobre o pensamento de toda a sociedade.

Para os fãs assíduos de livros de suspense, é leitura obrigatória. Para estudantes de comunicação, também. Para quem não se encaixa em nenhuma das duas categorias, ainda assim, fica a recomendação, pois não basta apenas se tratar de uma aula de empatia, investigação e jornalismo, a trilogia também é entretenimento de — muita — qualidade.