Representatividade: A quebra dos padrões

Maria Tereza Oliveira

C ada vez mais, questiona-se como as pessoas tem sido representadas, seja na música, no cinema ou, até, em publicidade. Os padrões impostos pela sociedade deixam de fora a maior parte das pessoas, pois essas não se encaixam neles e, por isso, não se sentem incluídas.

As mulheres são as maiores vítimas do padrão de beleza imposto. Isso pressupõe que elas sejam altas, de traços delicados, com os cabelos minuciosamente penteados, entre outras exigências. Para se encaixar, muitas delas adotaram o espartilho, alisaram o cabelo, fizeram várias cirurgias plásticas e algumas desenvolveram até distúrbios alimentares na esperança de se sentirem nos padrões.

Entretanto, atualmente, os questionamento sobre tais padrões têm se tornado frequentes e, aos poucos, as pessoas estão enxergando a beleza além daquela imposta. A aceitação acontece em ritmo lento, principalmente, devido à forma como a mulher ainda é representada.

Juliana Nogueira (26) contou que não se sente representada pela indústria audiovisual. “Eu vejo uma predominância de mulheres altas e, principalmente, magras. A gente vai assistir uma propagada de xampu e quem está lá é a Gisele Bündchen, propaganda de esmalte é a Mariana Ximenes e por aí em diante. Faltam modelos plus size para nos representar. E quando eu digo plus size, eu quero ver mulheres realmente gordinhas de verdade, porque muitas modelos que eu vejo nem sempre são fofinhas”, argumentou.

(Foto: The Grosby Group)

Juliana também explicou que sente falta de mulheres com seu biotipo na cultura pop. “Eu não me lembro de assistir uma novela em que a mocinha seja gordinha. A gordinha é resumida a alívio cômico, deixando a carga dramática para a atriz padrãozinho”, lamentou. “É importante frisar que, quando, a gente questiona esse tipo de escalação do elenco, não estamos menosprezando o talento de atrizes como Isis Valverde, Paola Oliveira e Juliana Paes, por exemplo, que compõem o elenco da atual novela das nove. O problema não é a presença da atriz magra, é a ausência de atrizes talentosas como Fabiana Karla e Cacau Protásio vivendo personagens que vão além do alívio cômico”, justificou.

Ela observa que esse problema também está refletido na música brasileira. “Cantoras como Preta Gil, Marília Mendonça e Simone da dupla com a Simaria, embora talentosas, sofrem com piadinhas sobre seu corpo constantemente. A gente não vê o mesmo julgamento com cantores”, argumentou. Juliana disse que não viu muita diferença na forma com que é representada e raramente consegue se identificar com algum personagem. “Acho que, infelizmente, isso nunca vai mudar, pois a TV sabe que o que vende é o corpo magro. O público não aceita com facilidade uma pessoa fora do padrão e, ironicamente, nós vemos nas ruas mais Marílias do que Giseles”, refletiu.

(Foto: Isabella Pinheiro/Gshow)

Pessoas que fazem parte do grupo LGBTQ+ também passam por situação parecida. Seja por preconceito ou falta de empatia, raramente alguma ação publicitária voltada para o público LGBTQ+ é feita. Homens são criados desde a infância a agirem como “machos”. A sociedade quer que a masculinidade dos homens seja sempre reforçada. Jhonatan Silveira (23) é homossexual assumido desde os 19 anos e disse que não se sente bem representado. “Bom, a representação do público LGBTQ+, em geral, é bem complicada, sobretudo, no Brasil. Nós somos um país conservador e um simples passo à frente para representar a minoria costuma ser atacada”, falou.

Ele disse que embora tenha visto avanços para a representatividade, ainda falta muito para o ideal. “Se você for parar para lembrar, quando havia um personagem homossexual em alguma novela ou programa, ele sempre era caricato e caía no alívio cômico. O assunto não era tratado da forma certa, ao invés de ajudar a gente a se identificar, fez com que o grande público tivesse uma visão limitada de nós e reforçou estereótipos na sociedade. Apesar dos pesares, hoje a gente consegue ver alguns personagens LGBTQ+ com mais carga dramática sendo trabalhados e nos identificando. O vencedor do Oscar diz muito sobre isso. Em Moonlight vemos um filme com temática LGBT onde os personagens são retratados de maneira profunda e sem caricaturas”, observou.

(Cena do filme Moonlight)

Para Jhonatan, apesar de promissora, ainda falta muito para chegar ao ideal. “É difícil porque, para continuarem a investir em representatividade, a indústria precisa ter um retorno positivo. A gente vê marcas fazerem propagandas usando casais LGBTs e isso acarreta diversos ataques e ameaças de boicotes. É preciso conscientizar toda a sociedade para que, um dia, a gente não precise ser representado”, afirmou.

Embora o Brasil seja conhecido pela sua miscigenação, o país é considerado racista devido a diversos comportamentos lamentáveis que muitas pessoas insistem em ter. Parte importante para a conscientização das pessoas quanto os malefícios do racismo é a representação de negros em publicidades ou na cultura pop. Érica Gouveia (22) contou ter sentido uma leve mudança na forma com que os negros estão sendo representados. “Eu como mulher negra vejo que não temos tanto espaço em papéis principais da mídia em geral e, quando somos representados, em sua maioria, somos empregadas domésticas ou criminosos. Acho que só vi uma vez na novela Viver a Vida em que a Thaís Araújo fazia uma modelo muito famosa. Fora essa, não me lembro bem se teve mais”, questionou.

(Foto: Divulgação/TV Globo)

Érica afirmou que a mídia elabora muitos mais personagens brancos. “Quando faz um negro, vejo que eles seguem um estilo como se todos os negros tivessem que ser daquele jeito exótico. A mulher negra bonita é tratada como uma beleza exótica enquanto a branca só é bonita. Isso é um padrão que foi criado pela sociedade e está na cabeça das pessoas” explicou. Érica também lamentou a sexualização e objetificação com que com as mulheres negras são representadas. “A mídia nos pinta como se sempre tivéssemos que estar chamando muito a atenção seja por roupas super coloridas ou por papéis que envolvem samba, roupa curta ou favelas. É muito raro de se ver nos papéis de novela, um negro como alguém bem sucedido”, lamentou.

Ela não culpa inteiramente os escritores pela forma com que os negros aparecem em obras audiovisuais. “Isso é a realidade que vivemos. Os negros são a população mais pobre e para conseguirmos mudar o jeito de das pessoas verem o negro como algo muito diferente e inferior, temos de começar de fora, precisamos reeducar as pessoas, precisamos primeiro construir a nossa imagem dentro de nós mesmos e, isso, será refletido na sociedade”, aconselhou.

Érica disse ter notado que o empoderamento negro tem ajudado a melhorar a representação dele. “Nós estamos tendo uma consciência maior da nossa capacidade de ser quem queremos ser, estamos nos respeitando e ensinando as crianças a se respeitarem do jeito que são, enfim, estamos construindo uma base mais forte e isso já começou a ser refletido na sociedade e, consequentemente, nos papéis de novelas, filmes, seriados”, contou. “Embora ainda exista um padrão, estamos conseguindo quebrá-lo não só as mulheres negras, mas as gordas, magras, amarelas, ruivas e daí por diante… Estamos conseguindo, aos poucos, impor à sociedade que somos, sim, capazes de sermos quem quisermos ser. Acho que hoje ainda não estamos 100%, mas estamos a caminho”, finalizou.