Relacionamento abusivo e assédio: causa e efeitos

De quem viveu e convive com a dor

Reprodução: Sociologia Líquida
*Os nomes de algumas entrevistadas foram modificados a pedido das mesmas.

Não há gritos, há apenas um silêncio incômodo. Talvez, para a sociedade, assédios e relacionamentos abusivos sejam algo invisível. Mas, para quem sofre, não há trégua. Há revolta, dor, sentimento de culpa, desespero e, às vezes, estagnação. A reportagem do “Vertentes” ouviu relatos de mulheres que viveram relacionamentos abusivos ou foram assediadas.

Denunciar assédios e falar de abusos ainda pode ser considerado algo complicado, porque a sociedade sempre coloca a vítima como culpada. Exemplo recente disso aconteceu com a escritora gaúcha Clara Averbuck que sofreu estupro de um motorista do UBER dia 26 de agosto e relatou isso nas suas redes sociais. No entanto, ela não o denunciou. Por quê? Porque, imediatamente após a publicação feita, começaram a chover comentários acusando-a de mentirosa, dentre outras coisas pesadas. O assunto tornou-se, então, um divisor de águas na internet: de um lado, quem entende o que mulheres passam dentro de uma delegacia, do outro, quem diz que ela só quis aparecer inventando histórias.

Mas se engana quem pensa que assédios são só sexuais. Há assédios morais e psicológicos e termos específicos para alguns deles. O gaslighting é uma forma de abuso psicológico em que o abusador distorce ou cria informações falsas fazendo a vítima a acreditar naquilo. O abusador pode fazer a pessoa enlouquecer, levando-a a não acreditar na própria capacidade. Com a estudante Melissa Guimarães* (21) aconteceu algo assim. Ela passou por gaslighting na escola e no emprego. “Sofri meu primeiro assédio psicológico na escola, quando alguns alunos inventaram histórias caluniosas a meu respeito e tive que sobreviver com piadinhas durante os três anos de Ensino Médio. Achei que fosse apenas uma fase e que minhas próximas experiências seriam melhores, mas, no meu primeiro emprego, passei por outros tipos de assédios que se caracterizavam por atos grosseiros e exagerados por partes dos meus patrões. Sempre que acontece algum evento de assédio, seja lá qual for, seja ele me atingindo ou pessoas próximas, me sinto injustiçada e com um profundo desejo de mudança”, desabafou.

Manterrupting é outra prática corriqueira que, muitas vezes, passa despercebida. Nesse caso, o homem não reconhece a mulher como ser igual e sempre interrompe sua fala, inibindo, assim, o seu direito de expressão. Marília Soares* (30), funcionária pública, contou que há reuniões de trabalho em que um colega sempre a interrompe. “Temos reuniões em equipe e se eu opino em algo, ele distorce a minha fala e me coloca como retardada, como se eu não soubesse nada. Eu até gostaria de dar exemplos claros disso, mas tenho medo de ser reconhecida e sofrer represálias dentro da empresa”, confidencia Marília em meio a um triste suspiro.

A psicóloga Cristiane Nogueira (39) observa que a violência psicológica é tão grave quanto a violência física, e é um comportamento extremamente nocivo, pois a pessoa fica aprisionada nesse ciclo. “Muitas vezes, ouvimos que as mulheres não saem de relacionamentos porque gostam de ser machucadas, mas isso não é verdade. A vítima fica desprovida de recursos psíquicos afetivos, não vê saída e também é ameaçada”.

Psicologa Cristiane Nogueira

Conforme se observa nos exemplos discutidos pela professora, a violência psicológica pode trazer violência física e, por isso, não há como falar de assédios sem falar de relacionamentos abusivos. Mas, como diferenciar um relacionamento abusivo de um relacionamento saudável? No relacionamento saudável, as pessoas estão ali de igual para igual e se constituem como uma soma. Ele deixa de ser saudável a partir do momento em que um dos dois começa a perseguir, ter comportamentos possessivos e a agredir, tanto verbal quanto fisicamente.

A design de interiores Natália Dias* (25) já tinha um ano de namoro quando começou a perceber que os comportamentos de seu parceiro eram carentes e tóxicos. “Eu e meu namorado morávamos sozinhos, cada um na sua casa, e estávamos longe da nossa família e amigos. Só tínhamos um ao outro e, por isso, ficamos presos a essa relação. Ele se mostrou uma pessoa completamente carente e tóxica, e tinha ciúme de tudo. Só ele poderia existir na minha vida, fazia muito terror psicológico quando a gente brigava, além de me humilhar verbalmente. Ele já chegou a se trancar no banheiro com uma faca, enquanto eu estava desesperada do lado de fora. As agressões vieram pouco depois disso. Já levei soco na boca machucando tudo porque eu usava aparelho na época, já levei soco na cabeça e quase perdi os sentidos — minha orelha ficou roxa com a pancada –, entre outras agressões menores como arranhões. Eu sempre revidei as agressões… Era horrível. Claro, ele sempre chorava depois e me pedia desculpas”. De acordo com ela, isso atrapalhou muito seus relacionamentos posteriores, pois passou a sentir insegurança e, também, se tornou uma pessoa possessiva.

Para Natália, o apoio de amigos e familiares foi fundamental para a superação desses problemas. Foi esse apoio que possibilitou a ela voltar a sentir segurança e deixar para trás os comportamentos possessivos e o medo de se relacionar com outras pessoas. “O mais importante é perceber que você está num relacionamento abusivo. Dói enxergar isso porque, afinal, você ama aquela pessoa. No entanto, se você consegue perceber isso, o amor próprio deve falar mais alto. É muito dolorido também porque, normalmente, sua autoestima já se foi há muito tempo. Mas é preciso ter força e buscar essa força nos amigos e familiares”, afirma. Diante do que vivenciou, Natália aconselha: “se você vive um relacionamento abusivo, aceite ajuda, se ajude, saia dessa o mais rápido possível, se cuide. Quando passar, não tenha raiva do seu passado e nem se culpe pelo que viveu. Passou”, finaliza.

Mas, por ser um assunto pouco falado — e, muitas vezes, velado –, as pessoas têm dificuldade de perceber que estão em um relacionamento abusivo. “A gente fala muito pouco sobre isso e sempre que falamos as pessoas se defendem. Elas gostariam de ficar ao lado da pessoa. Elas não gostam do comportamento, mas gostariam de que a pessoa mudasse”, observa a psicóloga Cristiane.

Para a doutora em História Marcelina de Almeida, toda vítima tem que denunciar e combater esse tipo de comportamento. Ela contou que, quando era mais nova, sofreu um assédio sexual. “Eu estava em uma casa de praia com meu marido e minha filha e havia outro casal conosco. Eu me lembro de que fui colocar minha filha para dormir e, quando percebi, o marido da minha amiga tinha se deitado do meu lado e começou a me molestar. E ainda me ameaçou caso eu contasse para alguém após eu o ter afastado. Na época, eu senti muita culpa, mas hoje já me livrei disso. Descobri que ele havia assediado outras mulheres”, lembrou.

De acordo com uma pesquisa feita pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é o quinto país com maior número de feminicídios no mundo. Sobre esses números, o estudante de psicologia Victor Figueiredo observa que é importante a vítima olhar para dentro de si mesma, se conhecer, procurar ajuda e denunciar. “Se algo faz mal pra gente, nós temos que nos conhecer e, a partir daí, tomar medidas cabíveis”. E se “o mundo está ao contrário e ninguém reparou”, como diz uma música do Nando Reis, é hora de, pelo menos no que diz respeito ao assédio, tomar providências para impedir que ele ganhe proporções perigosas e cause ainda mais estragos.