UERJ inicia ano letivo após meses de atraso, mas futuro na instituição ainda é instável

Considerada uma das melhores do país, a universidade se tornou a imagem da calamidade pública no Rio de Janeiro

A população do Rio de Janeiro tem enfrentado, nos últimos meses, uma situação de calamidade financeira e política. Um dos símbolos da crise no estado é a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Próxima de declarar falência, a instituição, considerada pelo Ministério da Educação como uma das 30 melhores da América Latina, iniciou o ano letivo de 2017 no último dia 28, com cerca de seis meses de atraso.

No entanto, a retomada das aulas não é vista com alívio pelos alunos e servidores da UERJ. O pagamento dos salários atrasados tem sido gradativo e os professores contratados não recebem desde janeiro. Além disso, nenhum funcionário ligado à instituição recebeu o 13º salário no ano passado e, ainda, há dívidas com fornecedores e prestadores de serviços terceirizados.

O que mais preocupa a comunidade acadêmica fluminense é a instabilidade. No início de agosto, a reitoria da UERJ publicou comunicado afirmando que a universidade possuía “condições mínimas” para funcionar”. Tais condições só foram possíveis mediante o pagamento dos salários atrasados de maio, junho e julho de parte dos professores. Enquanto isso, serviços básicos como limpeza e o restaurante universitário não foram reativados.

(Foto: Reprodução/Facebook Asduerj — Associação dos Docentes da UERJ)

Em seus 66 anos de história, essa é, sem dúvida, a pior crise enfrentada pela instituição. Com uma estrutura que engloba 13 unidades e atende a quase 42 mil alunos e 2,6 mil docentes, o sucateamento da UERJ não indica risco apenas àqueles ligados diretamente à ela. A universidade é responsável por importantes produções científicas no país, sendo palco para idealização do Sistema Único de Saúde (SUS) e pioneira na utilização de cotas em seus processos seletivos.

Enquanto o Estado não faz grandes movimentos para salvar a instituição, professores, alunos e funcionários técnico-administrativos se mobilizam por meio de protestos, assembleias e atos. Páginas foram criadas nas redes sociais ganhando adesão de pessoas de todo o país. Além disso, a ação chamada de “UERJResiste” tem um site no qual são feitas publicações de diferentes partes do movimento.

O crescimento da crise

Os problemas relacionados aos repasses se agravaram em 2015, chegando ao ápice em 2016. Atualmente, estima-se que o Governo do Rio tenha dívidas de mais de R$ 350 milhões com a UERJ. Os problemas enfrentados pela administração da universidade logo foram sentidos pelos alunos. “Desde o meu primeiro período, sentimos o início da crise que era mais aparente nos laboratórios, onde faltavam muitos itens fazendo os experimentos serem modificados. Depois, a empresa que administrava o bandejão, sem o devido pagamento, desistiu, e a empresa seguinte diminuiu muito a qualidade do restaurante. As bolsas começaram a atrasar e o pagamento dos funcionários terceirizados — faxineiros, seguranças etc –, também, o que se sucedeu em uma ocupação estudantil e uma demissão em massa de funcionários. No último período, depois de meses de greve, não tínhamos bandejão, bibliotecas, bolsas, limpeza… E cursamos um período inteiro em 75 dias letivos, o que prejudicou muito o aprendizado das matérias”, relatou preocupada a estudante do 5º período de Engenharia de Produção, Karoline Soares.

(Foto: Reprodução/Facebook Asduerj — Associação dos Docentes da UERJ)

O restaurante universitário, chamado de bandejão, está fechado desde o ano passado. O motivo foi a falta de pagamento, direcionado diretamente pelo estado. Em declaração à imprensa, o reitor Ruy Garcia alegou que houve a tentativa de realizar uma licitação com cerca de 50 empresas, porém, nenhuma quis assumir o serviço, já que não tinham garantia de pagamento. Com isso, as 5 mil refeições diárias produzidas no local deixaram de ser servidas.

Outro ponto alarmante é a interrupção de dezenas de pesquisas científicas. A Fundação Carlos Chagas de Amparo à Pesquisa (FAPERJ) deixou de pagar cerca de 86 milhões de reais à pesquisadores da universidade. Além disso, os mais de 7 mil bolsistas da UERJ também tiveram o auxílio em atraso, sendo o débito pago nas últimas semanas. Mas isso não minimiza a sensação de insegurança perante o futuro na instituição.

Até o retorno na última semana, os alunos haviam frequentado a universidade de abril a julho apenas para repor as aulas perdidas durante a greve ocorrida no segundo semestre de 2016. Os danos são inúmeros, tanto para funcionários quanto para estudantes que convivem com a incerteza. “É muito ruim para um estudante não conseguir fazer planos. Planejar estágio, intercâmbio, cursos, além da previsão de conclusão praticamente não existir. O último período foi cursado em 75 dias. É impossível reduzir o número de aulas dessa forma e continuar com a mesma qualidade de aprendizado. Os laboratórios, onde deveríamos aprender melhor a parte prática, não têm quase nenhuma condição de funcionamento, deixando as matérias apenas teóricas. Assim, a qualidade da faculdade só cai e muitos vestibulandos têm desistido da UERJ, o que pode afetar, principalmente, o modo como o mercado nos vê”, desabafou Karoline.

Mesmo com um bom plano de recuperação, a UERJ ainda deverá lutar por alguns anos até se recompor por completo. Os primeiros impactos externos já começam a ser vistos no número de inscrições para o vestibular: de 80 mil caiu para 37 mil na última seleção. Ainda assim, os alunos dos cursos de Medicina e Odontologia ficaram entre os melhores na pontuação do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) aplicado pelo Ministério da Educação, mas, para que isso continue, a crise na UERJ precisa ter um fim — e rápido.