Sobre a velhice humana como problema filosófico
Como uma visita a uma casa do idoso pode servir de base prática para, nas aulas de Filosofia, elencar a velhice como problema filosófico entre estudantes do ensino médio



Quando fui oficialmente comunicado sobre a realização dessa atividade, logo me surgiu o interesse em participar. Sou daqueles que tem em si uma impulsividade para aquilo que gera bastante interesse e também uma curiosidade bem anormal — as vezes até mesmo extrema. Portanto, como bolsista do PIBID, não titubeei em deixar clara a minha presenta confirmada ao saber que uma das atividades de aula seria a visita a uma casa do idoso. Mais do que ir pela primeira vez a tal lugar, o que pessoalmente me chamou atenção foram as possibilidades de elencar a Filosofia tendo como base uma prática, uma vivência. Não diminuo aqui os exemplos elaborados por um(a) professor(a) em sala de aula para o conteúdo que deseja ensinar aos estudantes, mas as vantagens me soam visivelmente melhores quando se associa o ensino de determinado saber aos estudantes a uma vivência que praticamente todos experienciaram. O aprendizado, ao meu ver, torna-se um resultado muito mais próximo do realizável.


Recebi portanto um e-mail contendo a programação da atividade. Sendo simples e facilmente decorável, não duvidei da capacidade de realizá-la. Portanto, às 8h do dia 11 de junho de 2015, estavam eu e mais outros bolsistas presentes na Escola Estadual Ruy Araújo para levar uma turma de estudantes do 2º ano do ensino médio para a casa do idoso São Vicente de Paulo. Foi pedido com antecedência — para os integrantes do PIBID e estudantes — ao dia da visita a doação de alimentos e outros itens de saúde e limpeza para essa Casa.


A saída do Ruy com os estudantes se deu praticamente como o programado: por volta das 8h30. O meio de transporte usado foi um microônibus, sendo possível que todos fossem sentados. A chegada ao abrigo foi rápida e tranquila. Os bolsistas, após a chegada, logo foram arrumando separadamente o montante total das arrecadações. Enquanto os alunos entravam dentro de uma ampla sala para aguardarem a chegada progressiva dos idosos presentes, alguns integrantes do PIBID — após a entrega das doações — já preparavam o lanche na cozinha da Casa e organizavam o bingo. Enquanto isso ocorria, os idosos do abrigo iam chegando devagar para onde os estudantes estavam. Naturalmente os alunos iam abordando os idosos, perguntando deles e sobre eles, por fim: interagindo com eles. Admito que não parei para acompanhar integralmente qualquer diálogo que ocorria ali — devido a minha preocupação em registrar em foto e vídeo essa eventualidade — , mas suspeito que aquele momento de troca de saberes e de conversa descontraída foi de alguma forma marcante para todos os estudantes presentes.

Observando a Casa com um pouco mais de atenção, é facilmente percebível a influência católica. Quem sabe, especulo aqui, isso se deva ao posicionamento religioso de todos os idosos e idosas presentes ali. Enfim: o que reforça em mim ainda mais minha pontuação a questão da influência católica era, fixa em uma parede da cozinha e a vista para todos, um grande quadro baseado no afresco A Última Ceia de Leonardo da Vinci.

Casa do Idoso São Vicente de Paulo luta para manter bom atendimento
“O desafio de qualquer instituição que sobrevive de doações é ter que conviver com a carência financeira, que se tornou uma luta constante das direções e voluntários para oferecer o melhor conforto e qualidade de vida para os necessitados.
Uma dos locais conhecidos em Manaus é a Casa do Idoso São Vicente de Paulo, localizado na rua Jerônimo Ribeiro, 14, bairro São Raimundo, Zona Oeste. O local é cuidado por aproximadamente 20 funcionários — boa parte dos quais voluntários.
A Casa do Idoso é um complexo de três pavilhões com 10 apartamentos cada, cozinha com despensa, refeitório, salão social, enfermaria, secretaria e a capela de São Vicente de Paulo. Com esse espaço, o asilo abriga 21 idosos carentes, alguns abandonados.
Antes de se tornar Casa do Idoso, o abrigo teve origem no ano de 1950, na rua Ramos Ferreira, localizado no bairro Aparecida, e era conhecido como Vila Vicentina ou Vila das Viúvas. Mas, no ano de 1979 a vila foi vendida e, para o terreno em que funcionavam os transmissores da rádio Rio Mar, foi transferido o abrigo onde a sede funciona até hoje.
Desde 1980, a Casa do Idoso vem se adequando a uma estrutura organizacional para que esteja em conformidade com o Código Civil e Estatuto Nacional do Idoso […]. A diretora informou que a Casa do Idoso, desde sua fundação, é totalmente sustentada por doações, mas que estão batalhando para colocar o asilo na lista das instituições que recebem apoio dos governos.”
Seguindo o cronograma, foram realizadas as apresentações gerais, tanto da Casa quanto da bolsista Jaqueline Soares. Após isso, os estudantes se reuniram para ao som de suas vozes e de um violão cantar a música Como é grande o meu amor por você do Roberto Carlos. Com o término dessa apresentação, o lanche foi servido e por fim o bingo ocorreu. Em alguns minutos ao término de todas as atividades, todos já estavam no microônibus voltando para o Ruy Araújo.

São Vicente de Paula: quem é? O que foi?
São Vicente de Paulo nasceu a uma terça-feira de Páscoa, em 24 de abril de 1581, na aldeia Pouy, sul da França. Como era então frequente, Vicente foi batizado no mesmo dia de seu nascimento. Era o terceiro filho do casal João de Paulo (Jean de Paul) e Bertranda de Moras (Bertrande de Moras), camponeses profundamente católicos. Vicente se formou em teologia na Universidade de Toulouse e em Direito Canônico em Roma.

Inspirado por seu amor a Deus e aos pobres, Vicente de Paulo foi o criador de muitas obras de amor e caridade. Sua vida é uma história de doação aos irmãos pobres e de amor a Deus. Existem diversas biografias suas, mas sabemos que nenhuma delas conseguirá descrever com total fidelidade o amor que tinha por seu irmãos necessitados. Muitos acham que a maior virtude de São Vicente é a caridade, mas sua humildade suplantava essa virtude. Sempre buscava o bem da Igreja. São Vicente de Paulo foi um pai dos Pobres e um reformador do clero. Basta dizer que a Associação dos Filhos de Maria, hoje Juventude Mariana Vicentina, criada a pedido da Virgem Maria que apareceu a Santa Catarina Labouré na noite de 18 de julho de 1830, e as Conferências Vicentinas, fundadas por Antônio Frederico Ozanam e seus companheiros, em 23 de abril de 1833, foram inspiradas por ele. Espalhadas no mundo inteiro, vivem permanentemente de seus exemplos e ensinamentos.
Segundo São Francisco de Sales, Vicente de Paulo era o “padre mais santo do século”. Faleceu em 27 de setembro de 1660 e foi sepultado na capela-mãe da Igreja de São Lázaro, em Paris. Foi canonizado pelo Papa Clemente XII em 16 de junho de 1737. Em 12 de maio de 1885 é declarado patrono de todas as obras de caridade da Igreja Católica, por Leão XIII.



Não vou negar que essa minha visita a tal lugar me marcou. Se foi profundamente só o tempo dirá, mas não nego as influências que essa evento cometem em mim até agora. Não é todo dia que você e imersivamente levado para uma visão de como é o ser humano no futuro, de sermos defrontados com o fim da vida e sobre como o nosso corpo perece ao tempo assim como tenta se adaptar ao mundo e as necessidades de seu sujeito. Achei ótimo! E espero que tenha ocorrido em mim o mesmo choque que levei e que ainda rumino em minha mente quando me é oportuno.
Todavia — e com a bagagem de saber que tenho — , queria aproveitar o ocorrido para elaborar a minha visão pedagógica e filosófica. Retorno aqui para um trecho do primeiro parágrafo desse texto:
“Mais do que ir pela primeira vez a tal lugar, o que pessoalmente me chamou atenção foram as possibilidades de elencar a Filosofia tendo como base uma prática, uma vivência. Não diminuo aqui os exemplos elaborados por um(a) professor(a) em sala de aula para o conteúdo que deseja ensinar aos estudantes, mas as vantagens me soam visivelmente melhores quando se associa o ensino de determinado saber aos estudantes a uma vivência que praticamente todos experienciaram”.
Eu pessoalmente considero mais fácil — do ponto de vista de efetivar um saber que pretende ser ensinado pelo professor — o uso de exemplos reais ou próximos disso em sala de aula para contextualizar o que deseja ensinar. Claro: n fatores contribuem para que o atual modelo educacional nos coloque para aprender dentro de sala de aula. Logo, por ainda não ser possível mudarmos a superestrutura e estruturas que nos comandam, nos subjetivam e nos moldam, nos resta ser anarquista por vias legais.

Independentemente do tatear pedagógico ou filosófico que farei rapidamente, devemos saber de antemão o que significa envelhecimento:
“[…] o envelhecimento é processo contínuo durante toda a vida e que provoca no organismo modificações biológicas, psicológicas e sociais. As modificações biológicas são as morfológicas, reveladas por aparecimento de rugas, cabelos brancos e outras; as fisiológicas, relacionadas às alterações das funções orgânicas; as bioquímicas, que estão diretamente ligadas às transformações das reações químicas que se processam no organismo. As modificações psicológicas ocorrem quando, ao envelhecer o ser humano precisa adaptar-se a cada situação nova do seu cotidiano. Já as modificações sociais são verificadas quando as relações sociais tornam-se alteradas em função da diminuição da produtividade e, principalmente, do poder físico e econômico, sendo a alteração social mais evidente em países de economia capitalista”.
De uma ótica pedagógica, temos uma experiência de choque real da realidade que os alunos tem para com os idosos possivelmente mais necessitados. A falta de amparo de uma família — isso quando ela existe para o(a) idoso(a) — e/ou das instâncias políticas competentes findam no que foi visto na Casa. A questão da fragilidade do corpo de um ser humano idoso também pode ser um fator contributivo. Portanto, de uma rápida e superficial leitura desse exemplo-experiência, temos três elementos para servir de base para trabalhos e aulas futuras: família, política e corpo. Muitros outros elementos podem levantados. Logo, uma primeira atividade a ser realizada seria — por exemplo — a de pedir para que os alunos elaborassem um pequeno texto relatando a sua experiência pessoal. Posteriormente, em sala de aula, seria instaurado uma análise em conjunto dos problemas encontrados/visualizados através dessa experiência. Só com essas duas atividades já teríamos como trabalhar a questão do sujeito, da subjetividade, da alteridade e das responsabilidades do poder público e de nós mesmos diante dos cidadãos dessa faixa etária.
Com os problemas levantados — começo a realizar aqui a transição do pedagógico para o filosófico — , fica fácil recorrer a essa experiência em aulas posteriores — aposta-se aqui no alto potencial de choque de realidade que o aluno sofreu com tal eventualidade a ponto de ela continuar viva por um longo período de tempo. É possível, através de temas filosóficos chaves, trabalhar com a problemática do idoso. Deixo abaixo alguns exemplos:
- Ética: viveu bastante para ter experiência e saber melhor o que é certo e errado. Será?

- Política: uma juventude bem vivida ecoa também na política quando se envelhece. Visando o máximo possível as realizações em prol da coletividade, é quando estamos velho que vemos se o que realizamos durante boa parte da vida se concretizou.

- Estética: quando a preferência estética é a de um corpo bonito, jovem e forte, os idosos ficam no lado oposto disso. Portanto, sendo a velhice um sinal de que estamos não somente próximo da morte como também um sinal da gradual perda de nossas características de juventude, o ser humano busca o retardamento dos sinais físicos de envelhecimento.

- Educação: nossas habilidades de aprendizado diante do mundo são possivelmente debilitadas com o envelhecimento do ser humano. Logo, é fácil reconhecer a lógica de que idosos aprendem vagarosamente ou que não aprendem mais. Todavia deve ser incentivado a educação entre as pessoas dessa faixa etária.

É possível também trabalhar a questão do idoso através de determinados filósofos, ou seja: é feito um gancho teórico para com a prática. Lao-Tsé “[…] percebeu a velhice como um momento supremo, de alcance espiritual máximo”. Confúcio “[…] acreditava que a autoridade da velhice é justificada pela aquisição de sabedoria” além de que “[…] sua maior ambição era que os idosos pudessem viver em paz e, principalmente, que os mais jovens amassem esses seres”. Sócrates “ […] faz referências ao envelhecimento, como a ideia de que para os seres humanos prudentes e bem preparados, a velhice não constitui peso algum”. Por isso, pensava que “Quanto mais cedo o ser humano começar a preparar-se para o processo de envelhecimento, procurando viver de forma saudável, longe de uso e abuso de drogas, desenvolvendo atividades físicas regulares, alimentando-se adequadamente, ingerindo grande quantidade de água, realizando suas atividades laborais satisfatoriamente, conquistando o apreço e a amizade dos outros, usufruindo o lazer e o entretenimento e tendo sempre em vista a criação de projetos futuros que sejam voltados à coletividade, mais sua vida terá um sentido concreto, transformando sua velhice na continuidade natural da sua vida”. Platão “ […] afirmava que a velhice faz surgir nos seres humanos um imenso sentimento de paz e de libertação”. Aristóteles “ […] achava que uma boa velhice era aquela em que o ser humano não apresentasse enfermidades”. Hipócrates: “ […] determinou normas assistenciais, sobre na higiene corporal; recomendou atividade física e mental, assinalando preceitos dietéticos, baseados em geral na sobriedade”.
Vá além:
Por fim, vejo que o Existencialismo poderia ser um dos melhores temas filosóficos a serem tratados com base na experiência dos alunos na Casa. Como traduzir as potências, vontades e desejos que um ser humano jovem tem com as do ser humano idoso e vice-versa? Como o(a) idoso(a), através de seu tempo de vida maior, poderia nos ensinar sobre o que David Foster Wallace chama de configuração natural? Como estarmos conscientes de que o que mais importa é sobre à vida antes da morte?



