Mobilização Nacional Indígena 2015
O cenário é a Esplanada dos Ministérios, com o Congresso Nacional de fundo, em Brasília, capital federal do Brasil. Eram 4 da manhã, o céu estava rosa, o Cacique Pataxó Ra Ra Nailtom já estava de pé, com sua maraca em punhos a tocar e cantar “ooh rei guerreiro, que festeja de tanta alegria. Venha desmanchar o mal, que homem branco fazia.” Na próxima hora, os 1200 indígenas de 200 etnias diferentes que ali estavam acampados em barracas de lona preta e bamboo já haviam se levantando e faziam seus rituais matinais.

Terra Livre é o nome da ocupação anual realizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil para pressionar as lideranças políticas do país a demarcar territórios indígenas.



Este ano, com o congresso mais conservador eleito desde o fim da ditadura militar, há uma nova ameaça. Um projeto de lei (PEC215) quer retirar a responsabilidade pelos territórios indígenas da união e transferi-la para o congresso, colocando em risco direitos fundamentais garantidos pela constituição brasileira.


“Nós somos diferentes do agro-negócio, eles querem terra apenas para ganhar dinheiro e ficar muito rico. A nossa riqueza é uma terra forte, fértil. A Terra é a nossa mãe e mãe não se negocia, não se maltrata”, diz o cacique Anastácio Peralta, um dos lideres indígenas da etnia Guarani Kaiowa, que habitam o centro-oeste do Brasil e são constantemente açoitados por jagunços de grandes latifundiários, vivendo uma das situações mais críticas do país.

Durante o encontro, foi protocolada uma carta dos povos indígenas direcionada a presidenta da república Dilma Roussef, questionando a demora na homologação de terras já demarcadas e a morosidade para demarcar os territórios ainda não reconhecidos oficialmente. Recebidos pelo vice presidente da república e pelo presidente da camara, um grupo de lideranças indígenas apontou 3 questões emergenciais: a homologação de 21 territórios que só aguardam a assinatura da presidenta; o arquivamento imediato da PEC 215; e a paralisação de obras de hidroelétricas em terras indígenas.

“A placenta dos nossos ancestrais está enterrada na nossa terra, a PEC 215 é um golpe do Congresso Nacional pra continuar a invasão dos nossos territórios” diz o Cacique da Aldeia Tekoa Porã e o Cacique Nailtom completa “Essa lei é o fim da vida dos povos indígenas”.

Ainda que não tenham recebido nenhuma garantia concreta por parte do governo federal, os povos indígenas demonstraram mais uma vez sua força e unidade, capazes de percorrer o país e se mobilizar em grandes números para lutar por seus direitos. Como disse o Cacique Babau “Caso essa PEC seja aprovada e se vocês quiserem, eu estou disposto a montar uma guerrilha e tomarmos de volta o que é nosso”.

fotos e texto (CC-BY SA) 2.0 Thiago Dezan