Os velhos de Itaperuna

Itaperuna é a cidade de espírito mais velho que eu conheço. Todas as lojas são óticas, farmácias ou padarias, repetidas às dezenas, e das três a padaria é o maior indicador disso. Quem é novo não se incomoda de tomar café em casa, come na rua, no ônibus, na cantina perto do trabalho. Compra um Guaravita na banca de jornal e sobrevive nisso até o almoço. Daí vai amadurecendo, acordando mais cedo e sentindo a vontade de pôr a mesa, comprar uns pães e manteiga, uma geleiazinha. A coisa evolui com os anos até o ponto em que meus tios-avós estão, que é de manter a mesa de café da manhã, com goiabada e queijo feitos em casa, posta o dia inteiro.

Chegamos na casa deles às duas da tarde e nos atualizamos sobre o resto da família enquanto vó Nilza fervia o leite. A morte de um conhecido é um acontecimento casual na terceira idade, e por consequência toda notícia dos velhos é mórbida:

— Sabe Liginha, mulher de Celso?

— Sei.

— Morreu cantando no coral da igreja. Caiu no padre.

Outros três conhecidos morreram desde nossa última visita, incluindo um evento bizarro em que um trabalhador de plantação de tomates que gostava de comer enquanto colhia sofreu uma reação horrível aos agrotóxicos e “estufou todo”, nas palavras gentis de minha avó. Eu me encolho na cadeira enquanto meu pai se endireita na dele, tomando a oportunidade de pregar sua dieta nova. “A alimentação viva”, ele começa, “trata exatamente disso. Essas comidas com veneno arruinam nossa saúde. Desde que eu comecei meu crudivorismo…”

Ele nem sempre foi assim. Como muitos homens durões e agressivos, meu pai amoleceu com a idade, sentindo falta de algo maior na vida. Enquanto a maioria toma o caminho da igreja, ele, um ateu que se preza por seu discernimento lógico, entrou no equivalente nutricional de um culto. Nada de carne, nada de açúcar, nada de massas, nada de nada.

“…Vocês podem ver que ela não tá feliz com isso, ela fica puta. Filha? Ela nem ouve mais.” Meu pai vai ser o único velho de Itaperuna que não toma café da manhã.

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