Inicio de ano letivo. Segundo ano do ensino médio. O que esperar? Mal sabia ele, mas o destino encarregara-se de uma grata e agradabilíssima surpresa. Morena – natural, nada de câmaras de bronzeamento artificial -, um metro e setenta centímetros com cada quilograma em seu devido lugar. Enfim, clara paixão a primeira vista, naturalmente, adolescente. Aquela paixão intensa, seja de sentimentos, seja de hormônios aflorando.

Qual seria a chance de Matheus? Matematicamente, uma em um milhão. Remotas, sejamos realistas. Mas quem possui tamanha ousadia de enfrentar o acaso? Pois bem, Matheus deixou a mercê deste.

A timidez abalroava qualquer iniciativa de Matheus. Portanto, o pontapé inicial deveria vir de Luisa. Sim! Ele descobrira o nome dela, obviamente da maneira mais cotidiana do ensino escolar: chamada.

Uma quarta feira qualquer, trivial, não possui nada de especial. Porem, esta foi uma quarta feira peculiar. O destino finalmente deu seus ares e suas pitadas “afroditianas”. Matheus chegou cedo ao colégio, como ocorre normalmente. Sua repentina paixão, Luisa, não estava presente no inicio de aula. Ah! O aglomerado de ações e fatos que estavam alinhados e, aparentemente, sincronizados em uma direção. Porem, um toque do Midas do amor os redireciona e, os ventos sopram a favor de Matheus.

A sala semelhante a um formigueiro e, ocasionalmente, ninguém estava sentado ao lado de Matheus e, ainda mais intrigante – não por sua chegada, transluzindo graça e dissipando o sono que deprimia Matheus, mas por seu atraso -, Luisa adentra na sala esbanjando graciosidade – aquela clássica cena de filme que, decorre em câmera lenta e atriz com cabelos soltos ao vento. Adivinhem? Luisa sentou ao lado de Matheus.

Por fora indiferença, por dentro, ele estremecia. Jamais sentira algo semelhante. Uma explosão de adrenalina em sua corrente sanguínea. Batimentos acelerados e sensação inigualável.

O decorrer da aula aconteceu de maneira trivial. Nenhum acontecimento considerado aprazível, a não ser a presença de sua paixão instantânea. A banal paixão por uma simples e mera troca de olhar. Matheus cultiva, mesmo sem ser recíproco.

Luisa demonstrava desconforto por cabelos soltos – costumava usa-los desta maneira, porem, hoje, algo lhe atormentava, os cabelos criaram vida e rebelaram-se contra Luisa, uma clara afronta perante sua beleza inenarrável. E, novamente ele, o destino apimentando e reconstruindo os trilhos do tempo. Luisa chegara atrasada por causa de um velho despertador; despertador este construído na Suíça, porem, a histórica precisão suíça foi afetada por um sentimento nobre: o amor, neste caso, desamor. O jovem encarregado pela montagem do relógio estava atordoado e, visivelmente, com a cabeça em outro lugar – em virtude de sua amada deixa-lo. Resultado? Relógio mal-acabado. Passou despercebido pelo controle de qualidade, consequência de uma noitada do supervisor de relógios, especialmente inspeção do dispositivo despertar. O que isto gerou? Atraso com precisão cirúrgica de dez minutos. A tardança desatinou a manhã de Luisa. Justamente o que ela esqueceu? O estojo escolar. Este seria o cupido entre Matheus e Luisa.

Visivelmente desacorçoada, com cabelo solto, Luisa tomou atitude inesperada. Virou-se na direção de Matheus e indagou:

- Você tem um lápis?!

Desta maneira, direto, sem floreios. Matheus não esperava, como um golpe, acusou, gaguejou.

- Sisisi, sim.

A situação só não foi constrangedora pelo alvoroço de Luisa.

Matheus lhe emprestou o lápis. Porem, fugindo da normalidade, Luisa utilizou o lápis para fazer um coque no cabelo. A maneira com que ela fez o coque causou frenesi em Matheus. Movimentos sincronizados, um balé entre mãos. Jamais tinha visto tamanho encanto com cabelos indo de lá para cá, de cima a baixo. Um ato, perante os demais, passaria desapercebido. Não para Matheus! O conjunto de movimentos tornou-se voluptuoso, sedutor, provocando suspiros em Matheus.

Ele olhou pasmo, com palidez cadavérica frente aos recentes acontecimentos os quais não esperava. Ela sorriu.

- Obrigado pelo lápis. Não suportava mais o cabelo atordoando os olhos.

No decorrer da aula trocaram verbetes, frases, epílogos.

Ela brincou:

- Gostei do lápis. Meu numero.

Ele respondeu, instintivamente:

- Pode ficar. Presente pelos anos que não te conheci.

Após a frase, notou a surreal besteira que havia proferido.

Ambos ficaram vermelhos. Ele por responder quase que como um ato impensado e desconhecido em sua personalidade. De fato, a sagacidade estava em seu âmago, como um leão adormecido, sendo acordado em momento oportuno. Ela ficara vermelha por não esperar o flerte. Acusou o golpe.

Desta quarta feira em diante passaram a ser colegas de classe, lado a lado. Confabulando suas historias, seu dia a dia, suas minúcias em particular. Suas singularidades em comum. Como que separados na maternidade, foram feitos um para o outro. O destino os separou e, com auxilio do acaso, tratou – tramou, arquitetou? – de uni-los.

O cupido havia disparado duas flechas, ou seria um lápis?