Jardim Comestível

O espaço urbano, além de ser o local de moradia, lazer e cultura é o de sociabilidade e problematização. Posto isto, o intuito do Projeto do Jardim Comestível teve como fim dar o primeiro passo para uma maior interação da comunidade local com a vegetação da praça localizada na rua Paraíba com rua Gonçalves Dias, em Belo Horizonte. Além de levantar questões pertinentes à agricultura urbana e sua inserção imediata.

O alimento atualmente é encarado como uma mercadoria, algo que se encontra logo ali, no supermercado ou sacolão mais próximo. Nos distanciamos cada vez mais de sua origem, de seu processo de preparo ou crescimento e principalmente de suas particularidades. As áreas públicas verdes, de jardins e canteiros, em sua grande parte são destinadas a plantas ornamentais, flores e pequenas e médias árvores, o que reforça um caráter estético e muitas vezes impessoal para quem utiliza o local.

O cuidado dedicado a estes espaços públicos são em maioria responsabilidade de alguma entidade ou individuo, o que enfatiza ainda mais um sentimento de não pertencimento daqueles que utilizam destes locais. A intenção do Jardim Comestível da praça da rua Paraíba com a rua Gonçalves Dias é justamente a de promover uma maior interação e consequentemente um maior sentimento de pertencimento. Além de mudar esteticamente a imagem do canteiro no qual se fez a intervenção (este se encontrava com escassa vegetação), a proposta teve como objetivo o plantio de leguminosas e tubérculos além de fornecer alimento a uma rede articulada ao processo (cozinha Comum da Escola de Arquitetura e Urbanismo e Design da UFMG, moradores locais e alunos)e problematizar a questão da agricultura urbana em espaços públicos.

Por que não plantar comida ao invés de grama? Ao se plantar vegetais que podem ser consumidos como alimentos, gera automaticamente um sentimento de maior zelo para com o ambiente, além de dar um retorno direto aos envolvidos: o alimento propriamente dito. As pessoas respeitam e se propõem a participar com maior afinco quando se trata de hortaliças, legumes ou frutas. Temos espaços ociosos em nossas cidades, temos necessidade de comida, de muita comida, por que não plantar nesses locais?

Contexto com a Escola

A discussão em relação aos possíveis impactos da intervenção no contexto da própria Escola de Arquitetura e Design da UFMG (EAD-UFMG) se desenvolveu desde os primeiros encontros de elaboração da proposta. Observamos várias questões a serem elaboradas para aprimorar a experiência dos frequentadores da Escola e seu entorno imediato, de modo que a estrutura ofereça melhores condições de permanência nessa. Sendo assim, identificamos em conjunto possibilidades de conexão entre a rotina da Escola, as atividades já desenvolvidas em projetos internos (abertos ao público geral) e a proposta de jardim comestível.

Um dos projetos que melhor se relacionou com a intenção de se fazer uma horta comunitária na própria EAD-UFMG foi o projeto Cozinha Comum, iniciativa dos próprios alunos que tem como objetivo oferecer um espaço devidamente equipado para os estudantes do local e demais frequentadores para que possam cozinhar a própria comida como alternativa às lanchonetes e restaurantes que não são atraentes a todos. Seria uma boa possibilidade oferecer à Cozinha Comum alimentos orgânicos, gratuitos e cultivados pelos próprios interessados.

O isolamento entre a Escola e as pessoas ao redor foi identificado como outra questão a ser observada que poderia ser minimizada por um projeto de horta comum. Seria interessante que os moradores e frequentadores da região pudessem ir ao espaço (que normalmente se limita aos alunos) para cultivar alimentos. Além de utilizarem de um espaço público apto a receber esse tipo de proposta, o que a cidade muito pouco oferece, eles poderiam levar suas experiências, conhecimentos e ampliar o acesso àquele espaço, tornando-o público de fato.

Mais ambiciosos ainda, imaginamos que a presença de uma horta urbana naquela região possa inspirar outras iniciativas nesse sentido, uma vez que há oferta de alimentos orgânicos na atualidade, porém com preços elevados que não atendem a todas as pessoas e ainda que haja grande número de interessados em se alimentar de forma mais saudável.

Desenvolvimento

Como já mencionado, durante o primeiro mês da matéria que impulsionou a proposta, houve algumas inspirações com relação à possibilidade de implantar um jardim comestível em ambiente urbano como alguns existentes tanto no Brasil quanto em outros países. A partir desse impulso, o grupo começou a buscar projetos já existentes com o mesmo intuito, intervenções e métodos de como possibilitar essa prática.

Além de pesquisar sobre o cultivo de plantas em ambiente externo, foi preciso ter o cuidado de encontrar espécies que fossem resistentes e que se ramificassem com facilidade, pois o local para a plantação na praça possui um solo muito arenoso e desgastado pela exposição aos meios urbanos. Esse espaço foi o escolhido, apesar de haver algumas outras áreas menores e que poderiam ter um cultivo mais fácil, pois a proposta ampla do grupo era unir a agricultura urbana com a possibilidade de segurar uma terra que normalmente se espalhava pelo espaço do antigo lago da praça, tentando ser apoio a possibilidade desse voltar a ser cheio d’água.

Dessa forma, houve a escolha de dar o pontapé inicial do desenvolvimento a partir do conhecimento mais prático do solo e contactar grupos de agricultura urbana mais acessíveis dentro da região de Belo Horizonte. Foi possível conseguir algumas mudas de capuchinha, peixinho, alecrim, hortelã, capim-cidreira, manjericão e serralhinho com um integrante do grupo Aroeira. De acordo com algumas indicações dessa pessoa e após essa entender sobre o espaço, o qual iria ocorrer as plantações (situação do solo, iluminação, questões sobre irrigação), o grupo fez sua primeira tentativa de plantio das mudas no dia 25 de setembro (mesmo dia, o qual ocorreu um mutirão para a limpeza geral da região do lago). Lembrando que houve todo o processo de afofamento e adubagem do solo em conjunto a uma fina camada de brita próxima ao entorno imediato da área do lago (parte em que há um declive da terra local). Por volta de uma semana depois, apesar do grupo ter irrigado as plantas em todos os dias, as mudas não conseguiram vingar.

Primeiras tentativas

Antes da segunda tentativa, houve uma pré banca, a qual demonstrou ao grupo que uma ideia mais sintética sobre a agricultura urbana e sua prática — como a não necessidade imediata de diversas espécies de plantas no local e a instalação de jardins suspensos (ideias, as quais iriam ser implantadas de novo, no caso das diversas espécies, e pela primeira vez, como o jardim suspenso) — poderia ser mais eficaz a curto prazo, já que o tempo disponível era abaixo de um mês, além de ter sido um ponto de reflexão sobre as possíveis possibilidades mais amplas de afetar positivamente as pessoas que pela praça transitam. Assim, o grupo focou mais em uma única espécie para o local: o almeirão roxo. Foi feito um canteiro estreito com as mudas no dia 04 de outubro como uma forma de visualizar se essa planta iria vingar. Além das dificuldades de plantio como afofar a terra, retirar o seu excesso e todo o trâmite de adubo, o almeirão roxo foi plantado em menor quantidade, pois uma das integrantes do grupo já tinha percebido em seu lote que essa espécie poderia se tornar uma ‘’erva daninha’’, assim, se espalhando mais do que o desejado. Entretanto, novamente, apesar de todo o cuidado de irrigação, retirada de folhas das árvores que poderiam estar afetando o crescimento e a presença de uma placa alertando as pessoas para não pisarem naquele espaço, foi perceptível que a região plantada sofreu negligência de quem passava, assim, sendo pisada e também não conseguiu se desenvolver.

Criação do primeiro canteirinho : Almeirão Roxo

Apesar do grupo ter ficado frustrado e até mesmo desmotivado após as tentativas ineficazes de desenvolver um jardim comestível, foi feito na última semana de desenvolvimento da matéria (a partir do dia 12 de outubro), uma terceira tentativa de plantio. Dessa vez, as mudas plantadas foram: duas espécies de abóbora, cará, capuchinha, beterraba e melancia. Houve também a implantação de placas para as pessoas entenderem o que poderia ser encontrado e um chamamento para que essas participassem da prática em um futuro próximo. Toda via, houve um novo conhecimento sobre plantio antes dessa última prática: a necessidade de utilizar substrato para que as plantas cultivadas em meio urbano consigam se desenvolver. A partir de um contato de uma das integrantes do grupo com uma vendedora de sementes do Mercado Central, antes desconhecida, foi perceptível o porquê os outros plantios não conseguiram vingar: como o solo em questão estava muito degradado, era necessário colocar um substrato (compostagem) na área escolhida para que esse absorvesse a água da irrigação e servisse como base propícia para o desenvolvimento das plantas. Foi interessante entender que na situação em que o solo escolhido se encontrava, adubo não seria um meio eficaz para melhorar e poder desenvolver qualquer tipo de plantação; apenas quando a terra já tem uma qualidade boa mínima.

Trabalho em conjunto para a construção dos canteiros e pequena trilha para passagem

Então, apesar de os esforços iniciais não terem gerado frutos com relação as plantas, foi perceptível que tiveram uma importância enorme para que todos os integrantes do grupo entendessem mais sobre as dificuldades de manusear ferramentas específicas para tal ação, como um solo pode ser melhorado e como isso não é nada fácil e rápido e, além de tudo, que mesmo com técnicas para facilitar o desenvolvimento de plantas, não cabe a nós querer apressar algo que depende de outro ser vivo.

Canteiros ( Primeira e última imagem) _ Sistema de irrigação com Pet (Segunda imagem)

E, como dito acima, por essa experiência e prática terem um retorno a longo prazo, é necessário que haja um cuidado e atenção frequente do espaço, assim, para incentivar o contato escola e cidade em termos mais amplos (o qual foi o pontapé da proposta), o grupo contactou o Colégio Santo Antônio para que práticas de ensino, plantio e cuidado do solo e plantas possam ser disseminados (ainda há o aguardo de uma resposta), além de esperar uma continuação por meio da Cozinha Comum e dos próprios moradores e transeuntes da região para que esses também possam se sentir pertencentes à praça, a essa prática de plantio urbano e cuidado do espaço.

Futuro

Diante de todos os esforços, a intenção do Projeto do Jardim Comestível era concretizar a interação da comunidade com a vegetação da Praça. Esperamos observar em poucos meses o crescimento de vegetais como beterraba, cará, capuchinha e duas espécies de abóboras.

Para que isso ocorra, é necessário que os moradores próximos, funcionários e alunos da EAD-UFMG, assim como os transeuntes da região possam compreender para quê e quem foi feito este tipo de jardim: para todos. Desde que o cuidado, a pesquisa e interesse possa se reverter em alimentos mais saudáveis e acessíveis.

Com isso, a terra que era seca e árida, com pouca visibilidade, que aparentava estar esquecida, não proporcionava nenhum tipo de conforto ou atração visual é agora fonte de alimentação, possibilita conforto térmico, ponto de encontro e conhecimento.

Além de tudo, desejamos atrair os olhares para a reprodução de hortas nas próprias casas e que a população consuma dietas mais saudáveis.

Quanto aos questionamentos que surgiram sobre o local ser tombado como patrimônio público é válido destacar que a horta implantada atende ao Princípio de Reversibilidade. Ou seja, ao ser retirada, a praça volta ao seu estado original, mas não é algo que se deseja diante da variedade de possibilidades de usos da própria.

Portanto, as barreiras existentes entre as pessoas e a Escola quanto aquela área, se torne pública e pertencente a todos. Um abrigo aberto da alimentação orgânica e próspero de novas ocupações e possibilidades.