A amiga do meu amigo.


Pra ler ouvindo: J.Mascis — Wide Awake.

A amiga do meu amigo apareceu pela primeira vez em uma quinta-feira chuvosa enquanto eu tomava cerveja com o nosso amigo e mais alguns desconhecidos no boteco do Seu Zé. Ela me deu um beijo no rosto e quase me deu o segundo, mas antes de encostar o rosto parou e disse: “Em São Paulo é um só, né?” — segurando um sorriso meio sem graça.

A amiga do meu amigo era engraçada, falava besteira, baixaria e não perdia um capítulo da novela das oito. Tomava cerveja meio quente no copo sujo, não torcia pro Corinthians e adorava empanada. Menos a de frango com passas, mas também, quem gosta de uva passa? A amiga do meu amigo não era baixa e nem alta. Não era magra e nem gorda. Não tinha cabelo liso e nem crespo. E quando sorria tinha um dentinho meio torto pra direita, o que a fez desistir da profissão de modelo logo cedo, mas foi o que me chamou a atenção desde o começo.

Naquele dia, a amiga do meu amigo elogiou a camiseta velha que eu estava usando. Contou que adorava aquela banda, que nenhum amigo meu conhecia, e disse até que ia no show deles naquele sábado. Eu meio confuso com a novidade, só resmunguei que não consegui comprar ingresso. Ela sorriu com o dentinho torto pra direita e voltou a conversar com os outros desconhecidos da mesa.

A amiga do meu amigo apareceu de novo depois de algumas semanas no aniversário do nosso amigo. Ela estava diferente. Salto alto, maquiada e com o cabelo liso. A amiga do meu amigo além de ir em shows de punk rock, adorava dançar, sabia a letra de todos os hits dos anos 80, todos, virava shots de tequila sem fazer careta e por algum motivo desconhecido gostava de conversar comigo. No fim da noite, depois de descer a Rua Augusta descalça segurando os saltos na mão e comer o sanduíche de pernil do Estadão ao lado de um travesti que fez questão de mostrar os novos peitos pra ela, a amiga do meu amigo me deu o segundo beijo daquela noite. E dessa vez não foi no rosto.

Na quarta-feira seguinte eu encontrei a amiga do meu amigo. Não foi em uma festa, um boteco e nem tinha o nosso amigo. Ela foi comigo ao cinema ver um filme sem explosões, por causa dela, e comer pipoca com muita manteiga, por minha causa. Depois fomos jantar em um restaurante que não era caro e nem barato. Mas que também não importava muito, a gente só queria continuar juntos. A amiga do meu amigo me contou que tinha nascido no interior, era a única filha de uma família com 7 irmãos e que tinha pavor de coelhos. Quanto mais branco pior. Eu contei histórias da minha infância paulistana, da minha quase banda, do meu quase moicano e algumas piadas meio sem graça, mas que por algum motivo que eu não sei explicar, ela ria de todas.

Naquela noite, a amiga do meu amigo me convidou pra subir e conhecer seu apartamento. Em poucas horas nós quase quebramos o sofá da sala, quebramos uma garrafa de vinho e eu consegui ver bem de perto as 3 tatuagens que ela me disse que tinha e eu não acreditei. Mas mesmo quase sem dormir, a amiga do meu amigo não perdeu o sorriso tortinho na manhã seguinte. Antes de partir, eu dei um beijo no lado esquerdo do rosto dela. Outro no direito. E um último beijo, esse na boca. Mas não teve nada a ver com sorte, não. Foi só porque eu quis mesmo.

A amiga do meu amigo adora beber vinho e assistir filmes idiotas embaixo da coberta. Eu sei porque a gente passou a fazer isso algumas vezes por semana. Todas as vezes na minha casa. Ela dizia adorar a falta de decoração e que não ligava pra bagunça. Disse também que minha cama abraçava ela de um jeito que ela nunca tinha sido abraçada. O que me deu um pouco de ciúmes, confesso.

A amiga do meu amigo adora strogonoff de frango com muita batata palha e pudim de sobremesa. Eu sei porque foi o que eu cozinhei pra ela no jantar de dia dos namorados daquele ano. Nesse mesmo dia, meio que sem querer, ela deixou a escova de dente na minha casa e acabou ganhando de presente uma gaveta no meu armário. A amiga do meu amigo adora viajar no banco de passageiro só pra fazer danças esquisitas para os outros carros quando fica entediada, canta no chuveiro de toca no cabelo enquanto usa o shampoo de microfone, adora me beijar como se estivesse pelada na frente de todo mundo e por mais que ela não acredite, ronca sempre que dorme bêbada.

A amiga do meu amigo quase não fala mais com meu amigo, mas virou a minha melhor amiga. Minha companheira de shows, a gordinha, linda, cherosa, dorminhoca, quatro olhos, marida e até a tia dos meus sobrinhos. Dependendo da situação. A amiga do meu amigo gostou tanto da falta de decoração da minha casa que resolveu mudar pra lá e dar um jeito nisso. Eu assumo que mesmo não gostando no começo, ter uma cadeira amarela no meio da sala é muito foda. E foi assim que nos últimos três anos eu e a amiga do meu amigo passamos a dormir todas as noites na cama que abraça melhor que eu.

Mas no começo desse ano, as coisas mudaram quando eu cheguei em casa depois de uma semana em um congresso em Brasília. Eu abri a porta e a amiga do meu amigo não estava lá, nem as roupas dela e nem a cadeira amarela. No lugar delas tinha um bilhete dizendo que ela precisava de um tempo só pra ela e um buraco no meu coração que eu ainda não consegui medir o tamanho.

Ontem, depois de alguns meses separados, a amiga do meu amigo apareceu de novo em um bar enquanto eu bebia cerveja com o nosso amigo e alguns desconhecidos. E como na primeira vez que a gente se viu, antes de sentar na mesa, ela me deu um beijo. No rosto. Meu coração acelerou. Minha boca não salivou. Eu virei um copo de cerveja pra me acalmar. Ela, muito educada, elogiou minha camiseta, como da primeira vez. Eu agradeci e sorri nervoso. Ela sentou do outro lado da mesa e ali ficou conversando com os outros desconhecidos.

A amiga do meu amigo continua engraçada, falando besteira, baixaria e já não liga muito pra novela das oito. E depois de tantos anos juntos e alguns meses separados, eu estava ali de frente pra ela novamente. Nessa hora, eu podia querer um milhão de coisas. Podia querer sentir o cheiro dela de novo. Dormir mais uma noite grudado com ela. Entrar com ela pelado em casa e quase quebrar o sofá da sala. Eu podia querer todas essas coisas. Mas eu só queria uma. Uma coisa e nada mais. Eu só queria depois de tanto tempo juntos, poder olhar pra ela e não sentir nada. Eu queria, do fundo do meu coração, poder olhar pra ela um dia e conseguir tratar ela como se ela fosse só a amiga do meu amigo. Só isso.


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