Ninguém quer ser feliz.

Para ler ouvindo: Jonny Two Bags — Clay Wheels.

Pergunte pra qualquer criança do mundo o que ela quer ser quando crescer e as respostas serão: astronauta, médico de formigas, mecânico de naves espaciais, piloto de autorama, ajudante de Papai Noel, o Neymar ou qualquer outra profissão muito mais divertida do que a sua. A imaginação é tão grande que chega a ser impossível adivinhar o que elas vão responder, mas uma coisa eu tenho certeza, nenhuma delas vai responder que quer ser feliz.

Daí você vai me dizer que crianças são muito novas pra entender o que “ser feliz” significa. Tá, eu concordo com você e mudo o desafio. Pergunte pra pessoas 20 anos mais velhas: “O que elas querem ser daqui 10 anos?” As respostas serão um monte de siglas que não significam nada: “Eu quero ser CCO da América Latina”, “CMO de novos mercados”, CPO, ECD, GCP, ou dono do mundo para os mais ambiciosos. Admito que alguns poucos dirão que daqui a 10 anos querem ser pais, outros que querem abrir o próprio negócio, e tem até quem vai dizer que quer morar na Austrália, porque hoje em dia todo mundo quer morar lá, mas ninguém vai dizer que só quer ser feliz.

Ser feliz não tá na moda e dá menos like no Facebook do que reclamações, mas eu entendo o porquê. Ninguém escolhe ser feliz porque na cabeça das pessoas, ser feliz é o fim. Ninguém acha que felicidade é só um estado que você leva a vida. A maioria das pessoas acha que ser feliz é o objetivo final da vida. Quem é feliz, chegou lá. Zerou o jogo. PRONTO! Ser feliz é o pote de ouro no fim do arco íris e se você o encontrar no meio do caminho, vai duvidar e continuar procurando.

Imagina você com 25 anos trabalhando com o que gosta, vivendo rodeado de amigos, de quem você ama e com tudo o que você sempre quis. Perfeito, né? Mas o que você faz? Você vai lá e corre atrás de mais. Você não pode ser completamente feliz aos 25 anos. Porque ser feliz é o fim, lembra? E é por isso que a gente vive correndo atrás de novos desafios. Pior ainda, novos problemas. E isso serve pra tudo. Imagina encontrar o amor da sua vida no primeiro ano da faculdade. “Como assim? E todas as outras pessoas desse mundo? A vida não pode ter sido tão legal comigo. Isso só pode estar errado.”- você pensa.

Esse ciclo de dúvidas criou uma geração angustiada que tem muito mais do que precisa e mesmo assim ainda quer mais. Vive correndo atrás de desafios impossíveis de serem alcançados. Amores não correspondidos. Problemas sem soluções. Um bando de gente que passa a vida em busca de cargos e salários altos para um dia, e somente um dia, poder finalmente ser feliz.

Semana passada, uma amiga em um almoço veio reclamar que não sabia o que fazer da vida. Finalmente o cara que ela estava apaixonada há meses estava na dela. Ela tinha certeza que naquela noite ele a iria pedir em namoro, só que agora ela não sabia se gostava mais dele. Tava confusa e querendo desistir. Eu ouvi quieto toda a história e só fiz duas perguntas quando ela acabou: “Mas não foi você que passou os últimos meses fazendo de tudo pra esse cara se apaixonar por você? Não era ele o “cara perfeito” e agora que ele te quer, você desiste?” Ela me ouviu como se eu tivesse falado a coisa mais inteligente do mundo e pensou um pouco antes de dizer: “É, talvez esteja na hora de aceitar que eu posso ser feliz, né?” Eu tentei não rir na hora e respondi: “É, eu acho que você devia fazer esse grande esforço e aceitar que você pode ser feliz.” Ela riu e disse: “Tá, eu vou tentar. Prometo!” e voltou a se concentrar na salada sem graça que ela tanto gosta.

Eu também tentei voltar pro meu frango grelhado sem gosto, mas aquela conversa não saía da minha cabeça. A gente passa a vida toda procurando por novos e cada vez mais difíceis desafios, mas será que ninguém percebe que o maior de todos os desafios está bem na nossa frente? Será que ninguém entende que o mais difícil de todos os desafios é conseguir aceitar que a gente pode sim ser feliz? E ser feliz agora! Será que é tão difícil aceitar isso?