Veterano Robinho marca o quarto gol do Galo, que naquela altura prometia vencer de goleada. Não foi o que aconteceu (Foto — Reprodução Facebook)

Emoção, enfim

Ninguém negava que o Brasileirão 2016 tinha tudo para ser um campeonato equilibrado, antes mesmo da bola rolar. Tirando um ou dois times pontuais, a percepção geral era a de que veríamos clubes de nível e elencos muito similares, o que invariavelmente tornaria a briga pelos extremos da tabela de classificação imprevisível. Mas, como comentei logo após o choque de realidade e das péssimas atuações da primeira rodada do torneio, equilíbrio sem bom futebol não opera milagre aos olhos sedentos de espetáculo de ninguém. Teríamos um campeonato nacional insosso e desinteressante?

A resposta para essa pergunta, felizmente, parecer ser não… Ao menos pelo que vimos nesta última rodada.

Se ninguém até agora apresentou um nível técnico de encher os olhos, pelo menos temos visto alguns jogos capazes de despertar emoções extremas no torcedor, seja por resultados obtidos no apagar das luzes, ou por vitórias improváveis conquistadas sob os olhares boquiabertos dos jornalistas e do público. E, neste sentido, a sexta rodada do campeonato é um pequeno microcosmos do que há de mais cativante neste esporte: emoção genuína fruto daquela improbabilidade que as vezes só o futebol consegue trazer à tona.

Sport foi valente e buscou o empate na Ilha do Retiro em jogo nervoso, cheio de emoção e polêmica (Foto — Reprodução YouTube)

O exemplo mais emblemático do que foi esta última rodada provavelmente foi o já memorável 4x4 entre Sport e Atlético Mineiro, em Recife. Leão e Galo, em má fase, precisavam de uma vitória para apaziguar os ânimos de seus torcedores, o que por si só já dava à peleja a expectativa de um jogo pegado e emocionante. A promessa não apenas se cumpriu, como veio acompanhada de elementos cinematográficos: depois de um jogo disputadíssimo, os visitantes terminaram a primeira etapa com um emblemático 4x2 no marcador, conquistados com a ajuda de dois pênaltis “polêmicos”. A fúria de torcedores e jogadores pernambucanos contra a arbitragem prometia incendiar ainda mais a partida e vendia a ilusão de que veríamos um Sport nervoso e impaciente na segunda etapa. Ledo engano: com o apoio incondicional do torcedor Rubro Negro que foi em bom número à Ilha do Retiro, o time foi encurralando o Atlético, diminuindo o marcador e posteriormente chegando ao empate numa magistral cobrança de falta de Diego Souza. Um jogo emocionante, digno das melhores coisas que o futebol pode proporcionar.

Mas, este não foi o único bom exemplo de jogaço da rodada. Corinthians e Coritiba, em Itaquera, foi outro embate que mereceu elogios pela capacidade de tirar o fôlego da torcida. O Timão perdia até os 44 do segundo tempo, quando chegou ao empate. Se tal façanha por si só já representava um desfecho apoteótico para um jogo marcado por uma disputa intensa, foi só quando o Alvinegro conseguiu virar o placar aos 49 que ele definitivamente entrou para a lista de possíveis jogões do Campeonato. Corinthians vitorioso e líder da competição.

Na mesma rodada ainda houve espaço para mais uma vitória no apagar das luzes do Grêmio sobre a Ponte Preta, na Arena, também aos 49 da segunda etapa, decretando um magro e importante 1x0 para os gaúchos, e para um cardíaco Flamengo 1x2 Palmeiras, com direito a bom público, polêmica de arbitragem, golaço flamenguista, expulsão e defesa espetacular de zagueiro (??!) que gerou o pênalti que decidiu o jogo.

Verdade seja dita, essa não foi a única rodada com bons jogos neste Brasileirão, mas é definitivamente a melhor até aqui. Se faltam grandes jogadores e atuações exuberantes, tem sobrado disposição e vontade de vencer por parte das equipes. Ainda está longe de ser aquele campeonato “capa de revista” que todo mundo sonha, mas ao menos não é a tragédia que muitos anunciavam. E partindo do princípio que já teremos na próxima rodada alguns clássicos, incluindo um nitroglicerinado Palmeiras x Corinthians que poderá decidir a liderança do torneio podemos ver que, CBFzíces e problemas à parte, o futebol brasileiro ainda respira.

Paranaenses — Coritiba, e o “Green Hell” no mau sentido

Pela segunda vez no Campeonato, Coritiba sofreu virada nos acréscimos. Um verdadeiro “Inferno verde” para seu torcedor (Foto — Reprodução Facebook)

Tal como tinha dito em meus últimos pitacos por aqui, estes dois últimos jogos eram importantíssimos para os representantes paranaenses na competição, principalmente para o Coritiba. O momento não era dos melhores, e fracassar nos jogos poderia custar caro para o planejamento e estrutura das equipes ao longo do torneio. O Furacão até fez sua parte parcialmente, vencendo um dos jogos e salvando-se das críticas mais exacerbadas, mas o Coxa não teve a mesma sorte: as duas dolorosas derrotas tornaram distantes as já diminutas esperanças do Alviverde em sonhar brigar por algo que não fosse uma fuga do rebaixamento.

O Atlético começou sua jornada na última semana na quarta-feira (1º), quando foi até Porto Alegre enfrentar o até então vice-líder Internacional. Ironicamente, o que se viu em campo foi um roteiro parecidíssimo com o da última atuação Rubro Negra fora de casa, contra o Botafogo: um time que começou melhor, se impôs, encurralou o adversário, perdeu chances e… Acabou sofrendo o gol que decretou a derrota. Nos 25 primeiros minutos o Furacão foi soberano, controlando as ações do jogo e levando perigo ao gol Colorado. A partir daí o Inter deu um lampejo de recuperação e equilibrou parcialmente a posse de bola, mas ainda chegava pouco à frente. Foi neste cenário que os donos da casa abriram o placar com um gol de Vitinho, aos 38, num lance bastante questionado pelos atleticanos que viram uma falta sobre o zagueiro Cleberson no lance, além de uma condução de bola com o braço. Reclamações à parte, os paranaenses foram para o vestiário com a frustração de saírem atrás mesmo tendo feito um bom jogo e com a impressão que poderiam reverter a situação na segunda etapa. No entanto, o que se viu foi um Colorado bem postado, que foi pouco ao ataque mas se defendeu com precisão, abusando das faltas e dando pouquíssimas chances ao ainda criticado ataque Rubro Negro. O 1x0 no placar final foi mais um balde de água fria na cabeça de um time que novamente fez o mais difícil e se impôs fora de seus domínios, mas ainda assim se viu voltando para casa sem pontos na bagagem.

No sábado (4), na Arena da Baixada, o Furacão entrou em campo com a pressão de ter que vencer para sair da zona de rebaixamento, e teve o Santa Cruz pela frente. O torcedor esperava um time ávido e furioso pela vitória, mas o que se viu foi um Atlético que jogou de forma lenta e pragmática, sem empolgar. O Santa veio recuado, apostando nos contra-ataques e na pontaria do veterano atacante Grafite para resolver as coisas lá na frente quando alguma oportunidade surgisse. O Atlético atacava com a costumeira paciência que gera impaciência do torcedor, típica dos times de Paulo Autuori. Ainda assim, não havia alternativa: os pernambucanos vieram para Curitiba com a armadilha prontinha para surpreender, e qualquer erro poderia ser fatal. O lance que decidiu a partida só surgiu aos 14 da etapa final, quando o volante Deivid aproveitou um rebote da defesa para acertar um belo chute e acordar a metafórica coruja do ângulo direito do goleiro Tiago Cardoso. O Santa ainda tentou reagir, mas aí foi a vez do atlético se armar no contra-ataque esperando por um vacilo dos visitantes, o que não aconteceu. O placar final de 1x0, mesmo sem um grande futebol, ajudou o Atlético a tirar parte da pressão de suas costas e de oferecer aos jogadores uma semana tranquila de trabalho antes do próximo desafio.

Quanto ao Coritiba, só desastres: os até então comandados de Gilson Kleina entraram em campo na Vila Capanema, tendo a missão de salvar o pescoço de seu pressionado treinador. O dia chuvoso de Curitiba deixou o campo pesado, em péssimas condições, acentuando ainda mais o clima de batalha campal que se anunciava antes da bola rolar. O Coxa começou melhor, e ao natural abriu o placar depois de cobrança de escanteio com o zagueiro Rafael Marques, aos 10 minutos de jogo. O gol animou a partida, fazendo os catarinenses acordarem e darem trabalho aos donos da casa, que também levavam perigo. O panorama mudou depois que os visitantes empataram o jogo em dois pênaltis, aos 23 e 39, ambos convertidos pelo atacante e artilheiro da equipe Bruno Rangel. O lance do segundo penal foi bastante criticado pelos jogadores e torcedores do Coxa, que criticaram a interpretação de “mão na bola invisível” do árbitro Pablo dos Santos Alves. Na segunda etapa, o Verdão voltou com tudo, tentando reverter o péssimo resultado, e se beneficiou de um aparente desinteresse ofensivo dos catarinenses. A pressão fez efeito aos 21 minutos, quando o atacante Ortega empatou o jogo e deu esperanças de uma virada ao torcedor. Mas não era dia do Coxa: cansados, os jogadores Alviverdes falharam e permitiram dois gols dos visitantes saídos dos pés de Bruno Rangel, aos 36, e Lucas Gomes, aos 44. Ainda houve tempo para o zagueiro Juninho descontar aos 49, mas de nada adiantou: o Coritiba foi novamente derrotado, por 3x4, e dessa vez não houve como salvar o emprego do treinador Gilson Kleina, demitido do comando da equipe paranaense.

Ainda sofrendo a ressaca do fracasso e e sob a batuta do técnico interino Pachequinho, o Coxa foi até São Paulo enfrentar o Corinthians no sábado (4), ciente de que teria um páreo duro pela frente. Os comandados de Tite jogavam pela liderança do Brasileiro, mas encontraram um Coritiba mais ligado do que de costume que dava cancha aos donos da casa, mas não corria riscos. O jogo de xadrez era improdutivo para o Timão que se viu em maus lençóis quando os paranaenses encaixaram um contra-ataque fulminante e abriram o placar com Negueba, aos 46, no último lance do primeiro tempo. A segunda etapa desenhava um jogo de pressão constante dos donos da casa e de um Coritiba que, se atento, poderia ter mais chances de gol aproveitando os espaços extras oferecidos pelo rival. De fato, foi o que se viu: o Corinthians veio para cima e atacou o Verdão com fúria, mas parava na boa atuação dos defensores visitantes, que davam conta do recado embora recuassem cada vez mais. O castigo veio aos 44 minutos, quando o criticado atacante André desviou um cruzamento e empatou o jogo. Mas o sofrimento ainda não tinha acabado para o combalido coração do torcedor Alviverde que viu o Coxa tomar a virada aos 49, com um gol de Uendel, dando números finais ao embate. Um resultado dolorido para o Coritiba, mas justo, que premiou o time que não abriu mão de vencer em nenhum momento.

Se o pior já passou ou não no Coxa, só o tempo vai dizer. Mas a impressão que fica é que sem reforços e uma boa chacoalhada no elenco teremos a tendência de mais um ano de fortes emoções na briga contra o rebaixamento. Falta muita coisa para o Coritiba conseguir sair do “Green Hell” onde está no momento, e só com o apoio e a paciência vinda das arquibancadas a missão poderá ser cumprida em tempo rápido suficiente para o clube almejar metas mais otimistas em 2016.

Já no Atlético, os ventos são mais tranquilos: se ainda não conseguiu nenhum resultado brilhante ou começou a figurar na parte de cima da tabela, o Rubro Negro não vem jogado mal, e deixa a impressão que carece mais de ajustes pontuais do que de uma grande revolução para deslanchar e ter uma jornada mais tranquila no Brasileiro. Se quiser sonhar com algo mais precisará treinar a alquimia de transformar posse de bola em gols e trazer mais alguns reforços.

Os paranaenses voltam a campo pela sétima rodada do Brasileirão no sábado (11) com o Atlético indo ao Morumbi enfrentar o São Paulo, e no domingo (12) com o Coritiba recebendo o Sport.

Pra não dizer que eu não falei de um ídolo

Este é um espaço onde teoricamente eu deveria falar apenas de futebol, mas não há como não mencionar a triste notícia da morte do lendário boxeador americano Muhammad Ali, uma das figuras mais importantes e lendárias da história de TODOS os esportes.

Ali, nascido Cassius Clay, foi mais do que um atleta brilhante em sua área: foi um ser humano revolucionário, que marcou seu tempo não apenas por seus feitos dentro do ringue, mas também pelas bandeiras e debates que levantou na sociedade mundial, principalmente nas questões envolvendo racismo.

Não pretendo ficar aqui elencando as dúzias de motivos que fizeram/fazem deste homem um dos seres humanos mais admiráveis com quem já tivemos a honra de compartilhar o universo ao mesmo tempo. Não faltam nos últimos dias textos e vídeos excelentes que dão a dimensão dos feitos incríveis de Ali, e eu recomendo fortemente que caso você não tenha ideia de qual sejam eles, os procure e aprenda sobre sua história. Só não se permita deixar para lá a oportunidade de celebrar a existência desse homem tão especial.

Ao partir, Ali deixou o mundo ainda mais carente de ídolos de verdade, dignos de admiração irrestrita. Ainda assim, inquestionavelmente, sua passagem pelo mundo não foi e não será em vão. Seu legado permanecerá ecoando para sempre na memória de todo aquele que sonha ver e viver um mundo melhor, e não há herança mais preciosa que alguém possa deixar para esse mundo do que essa.

Vá em paz, ídolo.