Pontapé inicial

Dentre os muitos clichês que permeiam o folclore da bola, um deles diz que todo torcedor se acha um técnico em potencial. Você aí, leitor, sabe disso: garanto que se alguém te ligasse amanhã oferecendo o emprego do Dunga, você não só aceitaria como diria pra si mesmo, triunfante “agora, finalmente o hexa vai ser nosso”. Não importa muito conhecer o lado mais teórico da coisa: movimentação ofensiva, linhas de quatro, inversão de jogadas, compactação por zona, marcação sob pressão… “Tudo frescura”, diríamos. No fundo, por mais racionais que tentemos ser, mantemos viva a convicção de que bastaria um razoável arsenal de frases de efeito e gritos de “raça, time!” à beira do gramado para nos transformar no próximo Telê Santana aos olhos e corações da mídia e dos torcedores do país.

Ingenuidade? Provavelmente. Mas penso que é justamente uma presunção parecida que me faz ter a petulância de vir até aqui, tentar falar justamente de futebol.

Tal como o torcedor comum que se acha um bom treinador em potencial, sempre achei que poderia ser um cronista da bola razoável. Fiz jornalismo sonhando em um dia empunhar um microfone durante alguma entrevista coletiva pós-jogo, assinar alguma reportagem parruda antes de um clássico, ou ter uma convivência mais próxima com os protagonistas daquele que sempre foi um dos meus hobbies favoritos.

Não rolou.

Acabei seguindo por outros caminhos, os poucos que uma profissão em crise me permitiram caminhar, mas a paixão nunca foi embora. Sendo assim, encaro essa como minha vingança pessoal, minha “ida da montanha até Maomé”. Decidi que vou falar do que amo nem que seja na marra, nem que seja para as paredes, nem que seja só pra satisfazer minhas próprias ambições narcisistas.

Como não há imposto — ao menos não por enquanto — para se falar bobagem, eis-me aqui exercitando meu parco latim em busca de apresentar um ponto de vista não tão particular do universo futebolístico local.

Minha história é parecidíssima com a da maioria das pessoas que namoram o “esporte bretão”. Senti as dores e as delícias do cargo de todo pobre diabo que um dia escolheu suas cores e se disse seguidor de algum clube. Entre choros, sorrisos, dias de mau humor, comemorações, gozações, palavrões a juízes, técnicos e jogadores, tive minha alma de torcedor forjada. Aprendi a amar esse esporte, a enxergar e a sentir aquela mesma poesia que os grandes cronistas da área transfiguraram tantas e tantas vezes para as páginas de jornais e revistas, e é justamente para reverenciar este sentimento que tentarei, aqui, apresentar minha versão da história sobre o esporte.

A ideia é escrever textos com periodicidade semanal (ou não) abordando direta ou indiretamente algum aspecto interessante, inusitado ou metafísico da bola, além de algum eventual palpite sobre os principais acontecimentos da rodada. Algo mais ou menos como uma mesa redonda esquizofrênica em que eu sou o único participante.

Dito isso, vamos em frente. Que Armando Nogueira que estais no céu me abençoe — e me perdoe.

A rodada

Aqui em terras paranaenses o “ruralzão” terá seus capítulos finais nos dois próximos finais de semana, dias 1º e 8 de maio, com o tradicional clássico Atletiba. O Coxa, na teoria e na prática, o teve caminho mais fácil para a final eliminando os esforçados e limitados Toledo e PSTC — clubes que, olhaí a ironia, tinham lhe imposto derrotas na fase de classificação. O reencontro na fase de mata-mata foi marcado por jogos bastante tranquilos para o Verdão, que chega à final com uma condição de favoritismo bem estabelecida.

Já o Atlético suou para bater o Londrina e, principalmente, o Paraná Clube, em uma partida decidida nos pênaltis, com todos os requintes de crueldade possíveis para o coração do torcedor. Depois de um começo de campeonato ruim, o Furacão dava mostras de estar engrenando, mas as últimas duas atuações reacenderam o alerta no Caju, e vão colocar ainda mais pressão no clube que volta a disputar uma final de Paranaense com seu time titular, o que não acontecia desde 2012.

Por mais inapropriado que seja afirmar isso tratando-se de um clássico, não é exagero dizer que pelo momento o Coritiba é o grande favorito para a peleja. Mas, cá entre nós, o Atlético chega com uma certa cara de protagonista de novela mexicana: aquela moça que come o pão que o diabo amassou durante a maior parte da história pra triunfar e casar com o mocinho rico no último episódio. A favor do Coxa estão os resultados — e atuações — nos últimos confrontos entre os clubes, partidas em que ficou provado que os jogadores do Verdão estão bem mais alfabetizados na quase centenária cartilha “Como Jogar Atletiba”.

Já o Paraná, mesmo eliminado, tem mais motivos para comemorar do que para lamentar a campanha no estadual. Fazia tempo que Tricolor não dava tanto trabalho para seus vizinhos da capital. E se isso parece pouco para um clube que outrora já foi o “Terror das Araucárias”, não dá pra negar que em função da atual situação financeira e do seu retrospecto nos últimos anos quase ter alcançado a final é uma evolução importante, que pode preconizar uma retomada dos bons tempos do time no cenário local e nacional. A Série B vai ser a prova dos nove pro Tricolor.


Paulista

A grande história do fim de semana vem de uma das semifinais do Campeonato Paulista, com a vitória e classificação do Audax sobre o todo poderoso Corinthians. O simpático time da região metropolitana de São Paulo surpreendeu o atual campeão brasileiro dentro de seus luxuosos domínios com um tipo de jogo que está entrando em extinção por essas bandas: futebol bonito, com toque de bola, sem medo de arriscar. A atuação rendeu elogios generalizados, incluindo do treinador derrotado Tite, que parabenizou efusivamente o “tiki-taka made in Osasco” da equipe comanda por Fernando Diniz. Os confrontos pelo título serão contra o Santos, também conhecido como “o time que nunca fica de fora da final do Paulistão”, o último gigante no caminho pelo inédito caneco.

Digam o que disserem, há poucas situações mais saborosas no futebol do que esses confrontos “Davi x Golias”, ainda mais quando o nanico em questão tem em seu sangue a essência que nós torcedores mais amamos: o futebol bem jogado, valente, posto em prática haja o que houver.

Aguardemos pelo desfecho.