@rosana

Não sei como, quando ou para quem Silvio Santos disse isso, mas foi assim que a frase dele ao falar da fama, ficou gravada na minha cabeça:

“-Se eu quiser comer um cachorro-quente na rua, tenho que ir até os Estados Unidos.”
Fonte da caricatura

O desejo de ser famoso, rico, importante, como o apresentador do SBT, está baseado num Silvio Santos público que vemos e cuja vida perfeita todos imaginamos. Mas só ele sabe exatamente como é ser Silvio Santos, de forma real e com todas as consequências que isso acarreta, como essa, não poder sair às ruas como qualquer outra pessoa comum para fazer coisas simples como devorar um sanduíche, dar uma volta de bicicleta num domingo ou passear incógnito na praia.

O desejo de ser uma celebridade é como sonhar em comprar um aquário de peixes ornamentais, a gente só pensa na parte colorida e divertida e esquece de todas as obrigações que vem junto e que, se não forem cuidadas, transformarão seu aquário risonho e límpido num paralelepípedo de água suja, vidros verdes e cheio de caracóis no lugar de peixinhos.

Essa ilusão de nos tornarmos importantes, famosos e até imprescindíveis, deve fazer parte da dificuldade que todos nós, humanos, temos de aceitar nossa finitude. Queremos sr eternos e, se não for possível, pelo menos viver um século de felicidade e conforto sendo reconhecidos e amados como pessoas especiais, que se destacam na multidão, que chamam a atenção, que não são como todos ‘os outros’.

É aí que a coisa começa a dar errado. Primeiro porque pro outro você é que faz parte dos ‘outros’ (#LostFeelings)Porque tudo isso existe apenas na nossa imaginação de aquaristas sonhadores. Isso não é real, não é o que acontece com qualquer pessoa que adquira uma importância mínima, que receba um pouco mais de luz dos holofotes, que passe de raspão por essa tag chamada ~fama~.

Chamar a atenção destaca você para o bem e para o mal, por mais simplório, tonto e maniqueísta que soe. Se você faz sucesso na Internet, você tem mais leitores, ouvintes, seguidores, amigos e, consequentemente, mais opositores, haters e inimigos. Se você ganha mais dinheiro porque os anunciantes vêem em você uma oportunidade de ter muita repercussão pagando pouco, você também tem boas chances de ter mais processos de ter que gastar mais com advogados. Nunca fui rica para saber, mas todos dizem que manter uma fortuna custa muito mais caro do que se pensa e, que, a paranoia que vem de brinde com o par fama/fortuna é suficiente pra investir um outro tanto em tratamentos psiquiátricos.

Hoje, com uma multidão de pessoas em busca da fama a qualquer preço, com ruídos ensurdecedores que anulam o silêncio, com um excesso de luz e estímulos que agitam o cérebro e nos impede de domir, com uma pressa que nosso corpo não acompanha, começamos a reavaliar as coisas que abandonamos. A simplicidade, a delicadeza, a privacidade, a invisibilidade, a lentidão, a calma, a desimportância.

Ser desimportante não é ser uma nulidade. Ser desimportante é ter o seu real tamanho. É dar passos proporcionais às susa perna,metaforica e literalmente. É ser importante para um pequeno número de pessoas do seu mundo verdadeiro e não se matar para conquistar adesão de milhares que você nem conhece e, no fundo, nem importam.

Ser desimportante é mais do que ter direito à privacidade, é querer tê-la. É não precisar se exibir o tempo todo, não ter a compulsão de compartilhar tudo pra ser visto, é não sentir necessidade patológica de aprovação de estranhos, essa doença que leva tanta gente à obrigação de ser engraçado o tempo todo e fazer piadas com absolutamente tudo nas redes sociais.

Fonte

Ser desimportante é ter resiliência, para ir e voltar para seu estado fundamental. É ter um estado fundamental de equilíbrio pra o qual voltar.

Quando você se esforça demais para parecer ser o que não é, ter mais do que lhe cabe, tentando impor uma realidade irreal, você espana a rosca, esgarça o tecido, destrói a elasticidade da mola.

Buscar a fama idealizada, que não existe em nenhum outro lugar do universo a não ser dentro da sua mente, é o caminho entre você e a insanidade, é luta quixotesca contra moinhos de vento imaginários. De ilusão também se vive? Não, de ilusão também se morre.

Recolher-se em vez de exibir-se, ouvir mais que falar, olhar e conseguir ver, tocar e ser capaz de sentir, respirar e encher os pulmões, admitir o erro como parte da vida, aceitar os erros alheios sem ódio, compreender em vez de julgar; ser desimportante em vez de ser célebre. Que bênção.