Você já deve ter notado, ser burro está na moda. Num mundo cada vez mais competitivo, o burro não ameaça ninguém. Por isso mesmo é aceito socialmente, até aclamado, muito mais do que as pessoas inteligentes.

Burrice, vale lembrar, não é ignorância ou falta de cultura. Burrice é falta de raciocínio. Pode ser por falta de tempo, vontade, coragem ou aparelhamento mental mesmo. Se numa festa de aniversário você pedir para o ignorante apagar a velinha, ele não apaga porque ignora que é preciso soprar a chama. Se você pedir para o burro apagar a velinha ele vai lá e dá cinco tiros na vovó.

Entre o ignorante e o burro, prefira sempre o ignorante. Você corrige um ignorante e ele aprende. Você corrige um burro e toma um coice. O ignorante apenas ignora, não sabe. O burro não sabe, não admite que não sabe e acha que está entendendo tudo. Aí vai lá e faz desastre.

Fazer burrice não é privilégio de ninguém. Todo mundo faz, de vez em quando. Gênios também fazem burrices, mas com menos frequência. O burro, não. A marca de suas patas está em tudo o que faz. Sua assinatura é a estupidez. O burro é sempre um tapado.

A burrice sempre existiu, sempre foi motivo de riso e piada e, claro, para cada um o burro é sempre o outro. Ou os outros. No Brasil, provavelmente por causa da compreensão literal dos portugueses, eles foram os eleitos para as piadas de burrice em geral. No Canadá os habitantes da província de Newfoundland são os burros do país e, na europa os burraldos são os poloneses. Sou burra demais para analisar os motivos, só sei que algumas piadas são mundialmente adaptadas para atender seus mercados locais de consumo de burrice.

E o que mudou então, se o ser humano sempre detectou a burrice, sempre riu dela? A diferença é que agora, pelo menos no Brasil, ser burro é motivo de orgulho. E, como corolário, qualquer coisa inteligente é tida como arrogante, metida e detestável.

Se você criar algo inteligente, se você tiver uma boa ideia, redigir um ótimo texto, criar uma boa piada, achar uma solução tecnológica, desenvolver um app, inventar um jeito novo de fazer algo velho, você não vai receber elogios. O brasileiro se sente extremamente desconfortável com a inteligência do outro. Considera um ultraje, um acinte, quase uma ofensa. Por ser muito comparativo e competitivo, o brasileiro médio vê a inteligência do vizinho como um alerta piscante que o chama de burro. E isso ele não aceita, porque fere seu orgulho.

E qual a reação natural? Ele vai procurar pessoas mais burras que ele para se sentir melhor. E assim, vamos proliferando a burrice. É burro em cima de burro all the way down!

Eu acho isso uma pena. Para você, pra mim, pro Brasil, pro mundo. Porque a humanidade sempre se desenvolveu pelo estímulo ao crescimento, pelo desejo de melhorar, de evoluir. Pessoas se aliam a outras pessoas com mais recursos para obter progresso. Pelo menos é o que faz sentido pra mim.

Mas agora, quando usamos a Internet apenas para privilegiar e aplaudir a burrice, temo que o começo do fim esteja próximo. Vamos todos espiralar para baixo.

Se continuarmos assim, temendo a inteligência e buscando a burrice que não nosrevela, não critica, não ameaça, vamos ter nas próximas gerações médicos que operam o joelho errado, cirurgiões plásticos que perfuram órgãos ao fazer uma lipo, engenheiros que constroem estádios que desabem e…oh, wait. Isso parece familiar.

Talvez seja uma grande burrice publicar esse texto, mas vou confiar na inteligência humana, na capacidade de perceber sutilezas. Porque inteligência é justamente isso, vem do latim inter + legere, inter-ler, ler nas entrelinhas.

Ser inteligente é ter discernimento. É ter noção. É perceber a diferença entre uma tomada e um focinho de porco, uma dobradiça e uma borboleta, uma piada e uma ofensa, entre o dito e não dito. Orgulho da burrice, ah, seu maldito!