Abril de novo ou Abril não volta?

João Vilela

Algures em 2011, por altura das grandes manifestações inorgânicas do 12 de Março e do 15 de Outubro, circulou um cartaz dizendo «Se nos roubarem Abril, dar-vos-emos Maio». Era um bom cartaz em termos estéticos, e sobretudo um belíssimo exemplo do estado médio da consciência dos jovens trabalhadores arredados do pacto social que, nessa altura, saíram às ruas para desencadear o maior ciclo de mobilização de massas desde o PREC. Expressa com singular verdade disposições, ilusões, causas dos reveses de 2013, pistas para vitórias no futuro. É raro, francamente, ver um episódio histórico, ou melhor, o transe histórico de uma geração de trabalhadores, tão bem organicamente representado.

O primeiro ponto é esta relação com Abril como uma coisa que ainda pertence à juventude precarizada, como coisa que lhe possam porventura roubar. A mitificação de Abril é um tema vasto, que não cabe no espaço deste artigo, e em que um dia valerá a pena pegar. Mas nenhuma das dimensões do processo desencadeado com o golpe militar de 25 de Abril pertence a estes jovens. Se com Abril queremos referir movimento popular revolucionário, que a burguesia arremeteu primeiro no 25 de Novembro, e depois em vagas sucessivas de violenta liquidação das suas conquistas mais avançadas (recordem-se os mortos da desocupação das UCPs, durante um Governo PS, ou os do Maio de 1982 no Porto, às mãos da AD), não chegou a estes jovens. Se falamos do pacto social vertido na constituição, e que assegurou a paz comprada entre classes a troco de reformas, a burguesia rompeu-o sem dó nem pena há anos atrás, e praticamente ninguém desta geração que agora se levanta está abrangido por ele. A burguesia não nos vai tirar Abril, nem nos pode tirar Abril. Abril não é nosso: Abril é uma revolução popular que morreu com o Eanes, e um conjunto de conquistas sociais reformistas que foi dilacerado lentamente nos quarenta anos seguintes, pouco restando dele a quem agora chega a adulto.

Contudo, a segunda parte do cartaz encerra a compreensão, ainda difusa, ainda imprecisa, mas já existente, de que não há qualquer saída para a juventude precária que não seja a luta. E essa saída, é notável a forma como o «dar-vos-emos Maio» o sintetiza, só pode ser a de filiar a sua luta no combate de mais de cem anos dos trabalhadores de todo o mundo para romperem as suas cadeias e tomarem o poder, acabando com classes e com privilégios. Haverá ainda muito entulho ideológico, muitas ilusões, muita propaganda legalista e reformista vendida a rodos pela burguesia e pelos partidos das classes intermédias para desintoxicar. Mas é visível a compreensão de que não existe vitória sem luta. Cumpre apenas esclarecer sobre a dimensão e a dureza que essa luta vai comportar.

De notar que não é em si mesmo errado que os trabalhadores do séc. XXI conheçam o principal momento da luta da sua classe no séc. XX. Mal teria andado o proletariado russo se, em 1917, a experiência da revolução de 1905 ou até a da Comuna de Paris lhe fossem totalmente alheias! A história do movimento operário não pode, contudo, ser um fetiche, uma espécie de época de ouro mítica à qual se quer regressar, lembrando a repetição em farsa que Marx parodiava no Brumário. A história da classe serve para aprender com os erros e acertos a fazer hoje, por nossas mãos, a obra da nossa libertação. A haver um Abril que nos pertence, é o da experiência vivida e real da luta pelo poder de quem se ergueu contra o capitalismo nessa altura. Abril que nos compete apropriar, sim, mas para ir além dele.E não ultrapassaremos Abril sem percebermos concretamente o combate que se nos impõe. Sem perceber que não podemos continuar a permitir ingerências imperialistas, como as que alimentaram, via Carlucci e CIA, a contra-revolução que nos derrotou. Que não podemos deixar a burguesia e a sua máquina de Estado, embora desorganizados, incólumes e prontos a reconfigurarem-se para nos mandar de volta à exploração. Que não podemos esperar que a luta e a guerra revolucionária seja feita, por procuração, por capitães e generais do exército burguês, competindo-nos, como diz «A Internacional», fazer por nossas mãos tudo o que a nós diz respeito. Em suma, não ultrapassaremos Abril sem entendermos os seus limites no momento em que ocorreu, as causas da sua derrota, e sem prepararmos, no futuro, uma organização popular a salvo de repetir esses mesmos erros. Não queremos Abril de novo, e não é só porque Abril não volta: é porque Abril não chegou.

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