AlternAtiva: História, Identidade e Perspectiva

João de Matos

Logo do colectivo AlternAtiva

A crítica à Praxe Académica, muito mais do que uma crítica a uma especificidade cultural do panorama português, existe radicada na ideia de que se for verdade que a praxe académica foi reintroduzida nas universidades portuguesas por revivalismo tradicionalista, então também é verdade que hoje, sendo a praxe um fenómeno social que abrange o país inteiro, não existe como tradição. De facto, o que mais caracteriza a praxe neste novo milénio que vivemos não é a reprodução dos costumes do que poderia, eventualmente, ser chamado de tradição, mas antes a verdadeira polissemia na qual este conceito se traduz: os grupos que praticam a praxe não reproduzem todos os mesmos comportamentos, pois toda a praxe está vinculada a regras específicas (os chamados «códigos de praxe») que vão variando de grupo para grupo. Não estamos, pois, na presença de um fenómeno social que esteja assente numa matriz que possamos aproximar da tradição ou da cultura, mas antes de um agrupar de perspetivas sobre o que a praxe pode ou deve ser. Não quer isto dizer que não existam linhas gerais, uma estrutura-matriz em torno da qual a praxe se agrega; ela existe, e está bem definida. Mas essas linhas não correspondem ao significado histórico-social que a praxe assumiu conforme se foi desenvolvendo ao longo dos séculos: os códigos de praxe são feitos à imagem e segundo as vontades e os apetites daqueles que a praxe procura representar.

É neste sentido que criticamos a praxe: condenamos as suas práticas (a degradação física, moral e psicológica de quem nela participa), reguladas pelos variados códigos de praxe, mas condenamos, sobretudo, a estrutura que à praxe está associada. Criticamos a praxe porque esta exclui: ao impor uma hierarquia de obediência ao «Dux», silencia-se a voz dos alunos e das alunas mais novas — justamente aquela que, numa situação de suposta integração, mais se deveria fazer ouvir. Criticamos a praxe porque esta discrimina: reproduz os pressupostos da normatividade social, marginalizando toda a gente que já é oprimida dentro e fora do espaço da sua faculdade — referimo-nos aqui às «brincadeiras» de tom homofóbico, transfóbico ou sexista, banalizadas nestes espaços supostamente inócuos. Criticamos a praxe porque esta deseduca: ao invés de procurar formar cidadãos informados e conscientes do mundo que os rodeia, educa para a subserviência e para o conformismo — é esta a verdadeira aprendizagem de se rastejar na lama aos berros.

Fotografia de Maria Runkel Cardoso

Em sendo certo que a praxe se alicerça nestes pontos, ou seja, que não há praxe sem machismo ou homofobia, que não há praxe sem exclusão e hierarquização social, surgiu a imperativa necessidade de resposta: vários movimentos nas últimas décadas têm procurado criar oposição à institucionalização desta barbárie social, procurando confrontar estes rituais, denunciando-os como verdadeiros espaços de opressão. Talvez o mais conhecido deles tenha sido o MATA (Movimento Anti-«Tradição Académica»), cuja ação culminou na divulgação de um Manifesto Anti-Praxe, que foi subscrito por personalidades e instituições do país inteiro.

O AlternAtiva surge à margem desta resposta, já que não procura o confronto direto com a praxe, ainda que não esteja alienado da responsabilidade da denúncia e da resposta à mesma: pretende, única e exclusivamente, ser (como, de resto, o nome indica) uma alternativa à praxe. A ideia do movimento é contrariar a praxe pela positiva, ou seja, construir alternativas de integração no espaço da faculdade que sejam do interesse geral dos novos alunos e das novas alunas, de forma a evitar a monopolização dos espaços de acolhimento pela praxe. Desta forma, procuramos dinamizar espaços com uma ambiência descontraída, através da organização de eventos de cariz cultural e recreativo, num espaço de convívio informal, livre de hierarquias, humilhações e opressões.

Fotografia de Maria Runkel Cardoso

A nossa identidade é alicerçada na crítica comum que fazemos ao espaço da praxe. Assim, a nossa organização funciona de acordo com uma estrutura horizontal, onde todos têm o mesmo direito à palavra e ao poder de decisão; rejeitamos a discriminação com base em traços identitários, incentivando e dinamizando atividades várias dentro de linhas de affirmative action e tendo o cuidado de traduzir a nossa comunicação externa para inglês, de forma a que os alvos da nossa mensagem não sejam exclusivamente alunos e alunas portuguesas; tratamo-nos uns aos outros com respeito, carinho e camaradagem, pois sabemos que é do respeito e da comunicação que se constroem as relações sociais mais profundas.

Surgimos como resposta à praxe, ou melhor, surgimos como alternativa à praxe, e é como alternativa à praxe que nos pretendemos construir. Uma vez que as praxes académicas estão difundidas a nível nacional, a nossa resposta deve, também ela, ser o mais abrangente possível: o movimento que iniciámos, este ano letivo, na FCSH, deverá estender-se a outras faculdades de Lisboa, para já, e do país, no futuro: a ideia é que estas réplicas do AlternAtiva, disseminadas a nível nacional e em contacto umas com as outras possam constituir uma alternativa real ao fenómeno que é a praxe.