O trotskismo em Portugal (1968–1974). Notas para uma compreensão.

João Moreira

Este é o terceiro artigo da série Trotski e o troskismo em Portugal. Aqui podes ler o primeiro e segundo artigos.

No final da década de 1960 o trotskismo deu os primeiros passos em Portugal. Sem quadros políticos, foi dirigido por jovens liceais e universitários, sem passagem anterior pela militância comunista e sem ligação ao movimento operário. Estes factos não se devem estranhar. Ao longo do século XX, o trotskismo viu-se cercado pelos diversos fascismos, estalinismos (o plural é usado porque o maoismo é também um estalinismo) e democracias representativas de matriz mais ou menos progressista ou conservadora. Por outras palavras, a corrente que tem em Leon Trotsky parte da sua raiz política e teórica, que sofreu a repressão e/ou o extermínio que os regimes políticos antes referidos exigiam. Em todo o caso, o ascenso das lutas de libertação nacional ocorridas a sul, a radicalização das lutas operárias e estudantis no mundo ocidental e a luta política travada pelas populações a leste contra os regimes dominados pelos partidos comunistas alinhados com o Partido Comunista da União Soviética, durante os longos anos 60, favoreceram a “revitalização” das ideias associadas a Leon Trotsky (Fields, 1988: 39) e a diversos marxismos de matriz anti-burocrática durante aquele período.

No que diz respeito ao particular contexto português — dominado por uma guerra colonial que levava mais de uma década e por uma ditadura fascista que se aproximava rapidamente do meio século –, os primeiros grupos trotskistas procuraram oferecer uma alternativa política de carácter marxista à margem do Partido Comunista Português e da miríade de organizações maoístas.

Nascido a partir do voluntarismo de jovens estudantes — de “enragés de todas as espécies”, para utilizar as palavras de Manuel António Pina na sua crónica “Aos Nossos Heróis” na revista Notícias Magazine (Pina, 2013: 358) — e não a partir de qualquer cisão no PCP (ao contrário do fenómeno maoísta), mais do que uma corrente política organizada, o trotskismo português acabaria por se assemelhar a “uma corrente intelectual” (Rémond, 2003: 336). Mas quem disse “sem teoria revolucionária não há prática revolucionária”?

Privado do contacto com a classe trabalhadora por razões antes descritas, aquele movimento político, muito diminuto e, ainda assim, muito fraccionado, conseguiu apenas ganhar alguma influência no meio estudantil liceal e universitário, se comparado com as outras correntes políticas da esquerda radical em ascensão. Ainda assim, ao embrionário trotskismo português deve reconhecer-se a ousadia de denunciar os regimes policiais de Estaline, Mao ou de Brejnev e, simultaneamente, de exigir um modelo político e cultural que voltasse a reconciliar a palavra socialismo com a palavra liberdade: um modelo feminista e sem tabus sexuais; um modelo que não findasse em qualquer fronteira nacional; um modelo de democracia absoluta (como reclamaria Rosa Luxemburgo); um modelo que não significasse nunca, utilizando as palavras de Sousa Dias, “a anulação do individual, da individualidade de cada indivíduo” mas “muito pelo contrário” (Dias, 2008: 147).

Crise académica de Coimbra de 1969

Mas sem exemplo ou, como diria Bensaïd, “sem manual de instruções” (Bensaïd, 2008: 62), entre 1968 e 1974, o reduzido movimento trotskista português apenas acabou a ter sucesso na divulgação das novas temáticas (algumas delas receadas pela maioria da esquerda radical), como a questão feminina, a cultura e as artes, a sexualidade e a própria liberdade individual — recolhendo a influência de organizações como a Liga Comunista francesa, processos como o Maio de 1968, movimentos intelectuais, culturais e políticos pouco ortodoxos e centralizados como a Nova Esquerda, o situacionismo e o anarquismo. Nesse sentido, o trotskismo português também se destaca do restante espectro da esquerda radical por refletir não apenas as concepções ideológicas e práticas (neste caso das várias Quartas Internacionais), mas também por, e apesar da dimensão muito minoritária, servir de meio de transmissão de novas tendências socioculturais, nomeadamente as provenientes da cultura juvenil ocidental emergente, acabando por um tal leque de conjunto heterodoxo de princípios, valores e práticas sociais sair das diminutas organizações.

Note-se ainda a capacidade daqueles jovens em promover uma maior abertura não só no campo científico e político mas também nas dimensões estéticas. A promessa de liberdade (política e cultural) de Trotsky fora assim recebida pelos trotskistas portugueses (ainda que tal recepção variasse segundo a organização em causa). É também nesse sentido que, pelo menos entre aqueles jovens, o marxismo voltaria a receber autores estranhos ao marxismo oficial, como Anton Pannekoek e Rosa Luxemburgo, Wilhelm Reich e Herbert Marcuse — não esquecendo o (então «recente») jovem Marx.

Mas não se atente apenas a autores marxistas convictos. Estes combinariam muito razoavelmente com autores de matriz existencialista como Franz Kafka, Albert Camus ou Jean-Paul Sartre, mas também surrealistas como André Breton, ou mesmo psicólogos como Lewis e Moreno. Essa dimensão individual e libertária, consequente de tradições filosóficas, estéticas e científicas alegadamente contrárias ao marxismo, teria um papel fulcral no desenvolvimento político daqueles grupos. À semelhança da caracterização que Paul-Laurent Assoun faria da Escola de Frankfurt, crê-se que, em grande medida, aqueles jovens militantes acabariam por harmonizar “o pólo inconsciente”/individual com “o pólo histórico”, tendo em vista “uma emancipação coletiva” (Assoun, 1989: 92). Por outras palavras, não aceitariam que “o fim do desenvolvimento histórico” se resumisse à “subordinação do individual ao coletivo” (Lefebvre, 1977: 38).

Capa de um dos jornais da Liga Comunista Internacionalista (LCI)

Também por isso, e por reacção às experiências associadas ao dito Socialismo Real, o trotskismo que se desenvolve em Portugal durante os últimos seis anos do Estado Novo tendeu a ser mais «conselhista» do que «trotskista». O ideário socialista daqueles jovens estaria muito associado aos conselhos operários e à liberdade política total no quadro de uma economia planificada. Seria por isso natural a aproximação a autores que oferecessem um outro “socialismo” — ou “o socialismo que nós queremos”, como tantas vezes diriam — que não finalizasse na “ditadura sobre o proletariado” — para a qual alertaria um Trotsky pré-bolchevique –, e em que a “liberdade” fosse “sempre a liberdade daquele que pensa de outra maneira” como lembra Rosa Luxemburgo nas páginas d’A Revolução Russa (Luxemburgo, 1975: 86).

Assim, acredita-se que aqueles jovens estariam, em grande medida, num trilho político exigindo um socialismo de liberdade não-qualificada ao contrário do que era regra no campo do chamado socialismo real. Tal socialismo reservaria necessariamente a autonomia individual e levaria em conta outras dimensões, nomeadamente a sexual proposta pelos freudo-marxistas Reich e Marcuse.

Prosseguindo, crê-se que o trotskismo português adoptou, com ou sem noção disso, um ou o marxismo “de mãos limpas” (Judt, 2012: 231), “vivo” (Lefebvre, 1977: 117), e, como referia Sousa Dias falando de Marx, “intempestivo” (Dias, 2011: 15). A dialética e a versatilidade proporcionadas pela absorção muito frequente de autores tão diferentes e à margem do fenómeno estalinista — e, em alguma medida, marxista — promove esta mesma conclusão. O marxismo deixaria então de ser um compêndio catequista, como uma grande parte da esquerda comunista o queria tornar, e com sucesso, o fez — até hoje. Se um qualquer compêndio fosse, seria um em que figurariam diferentes abordagens, perceções, propostas políticas e (até) culturais. No fundo, os jovens trotskistas recuariam um marxismo pré-Estaline enquanto “corrente de pensamento plural e heterogéneo” (Arcary, 2000: 3), e ao confronto teórico inerente àquele. Também por isso, não se deve esquecer que o contacto relativamente próximo com católicos progressistas, anarquistas, situacionais e alguns elementos das Brigadas Revolucionárias, favoreceria um questionamento uma perspectiva muito diversa sobre o marxismo e sobre a própria realidade.

Suplemento propagandista da LCI

Por tudo isso, tal como Trotsky “recusava a tratar” o materialismo histórico “de modo dogmático” (Bianchi, 2007: 59), o marxismo das organizações ditas trotskistas tendia a ser um marxismo devolvido à crítica, à dúvida e à dialética, lato e questionado. Numa palavra, ao seu passado já quase ancestral. Fora essa a sua forma embrionária e fora dessa forma que este se desenvolvera até ser “puxado para trás”, (Lefebvre, 1977: 116), pela ofensiva estalinista vitoriosa.

Concluindo, se Perry Anderson não tinha dúvidas em afirmar que a “herança teórico-política” do revolucionário ucraniano dotaria de alguns “elementos fundamentais para qualquer renascimento do marxismo revolucionário a uma escala universal” (Anderson, 1979: 131), também o autor da prosa que aqui se finaliza crê que o legado das diminutas organizações políticas, não só teórico mas também político, dotará de alguns dos “elementos fundamentais para qualquer” ressurgimento do “marxismo revolucionário” em Portugal.


Bibliografia

ANDERSON, Perry (1979), Considerações Sobre o Marxismo Ocidental, Porto, Edições Afrontamento.

ARCARY, Valério, (2000), As Esquinas Perigosas da História — Um estudo sobre a história dos conceitos de época, situação e crise revolucionária no debate marxista, Tese de doutoramento apresentada à Universidade de São Paulo.

ASSOUN, Paul-Laurent (1989), A Escola de Frankfurt, Lisboa, Publicações Dom Quixote.

BIANCHI, Álvaro (2005), Trotsky em Português: esboço bibliográfico, Campinas, IFCH/Unicamp, Coleção Textos Didáticos.

DIAS, Sousa (2011), Grandeza de Marx — Por uma política do impossível, Lisboa, Assírio & Alvim.

FIELDS, A. Belden (1988), Trotskyism and Maoism: Theory and Practice in France and the United States, Brooklyn, Autonomedia.

JUDT, Tony (2012), Pensar o Século XX, Edições 70, Lisboa.

LEFEBVRE, Henri (1977), Problemas Atuais do Marxismo, Lisboa, Ulmeiro.

LUXEMBURGO, Rosa (1975), A Revolução Russa, Barreiro, 17 de Outubro.

PINA, Manuel António (2013), Crónica, Saudade da Literatura, Lisboa, Assírio & Alvim.

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