São Paulo — Vista aérea do Ibirapuera, 2016. Por Maria Clara Feitosa

São Paulo desmatada

As consequências ainda presentes da falta de consciência de muitos anos.

Não é difícil encontrar textos e matérias que considerem as consequências do descaso com o Meio Ambiente no Estado de São Paulo. Considerando a maior área urbana da América Latina, a capital do estado se torna constante alvo de críticas e análises.

Recentemente se descobriu que São Paulo não reprovou no índice médio de área verde por habitante recomendado pela OMS(Organização Mundial de Saúde) para áreas urbanas pela simples presença de Reservas Ambientais. Fato é que a cidade propriamente dita não possui árvores suficientes.

Segundo a Folha de São Paulo, em 2014, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente publicou dados demonstrando que neste ano houve o aumento da média de área verde por pessoa, hoje de 14,07 m²/pessoa. Em 2013 era de 12.5m²/pessoa, porém o resultado conta diretamente com a presença de áreas de preservação que se encontram fora do perímetro urbano. Para fins de comparação, sabemos que Curitiba tem a média de 64.5m²/pessoa e é considerada a cidade mais verde do país.

O programa Cidade Sustentável publicou uma compilação de dados coletados em agências ambientais por todo o Brasil. Os dados da Cidade de São Paulo não estão anexados, mas outras capitais do país estão representadas, dando uma ideia geral da condição ambiental das maiores áreas urbanas brasileiras.

Mas o que se via um ano antes, em 2013, era exatamente o contrário. Uma matéria publicada pela Band.com, mostra que o que estava acontecendo era a diminuição do índice de área verde em, pelo menos, 9 regiões da cidade de São Paulo. A notícia reporta que uma das áreas, inclusive, chegou a perder 60% da área verde naquele ano. A região do Jabaquara, que possuía um índice de 5,98m², chegou a 2,41m², representando uma perda de 59,5%. Pinheiro, região que conta com o Parque Villa Lobos, foi a segunda colocada com uma perda de 58,5%, caindo de 5,26m² para 2,18m².

Segundo o Departamento de Aprovação de Edificações, no ano passado foram emitidos 68 alvarás para a construção de prédios na região de Pinheiros, 11% do total da cidade

Porém, a matéria informa o mesmo dado de crescimento de área verde de 12m² para 14m² na cidade como um todo. Mas mesmo estando dentro do limite estabelecido pela OMS, a cidade é reprovada pela (SBAU) Sociedade Brasileira de Arborização Urbana, que define o limite mínimo mais exigente de 15 m².

Tudo bem, mas o que isso significa de verdade? Por que as áreas verdes são tão importantes numa cidade. Para entendermos temos que saber o que é desmatamento e quais suas consequências diretas para o meio ambiente.

Desmatamento não afeta apenas a vegetação, mas causa impactos diretos na biodiversidade da região. Isso quer dizer que, não só as plantas somem, mas os animais também, sejam eles predadores ou presas, de grande, médio e pequeno porte, gerando um desequilíbrio que pode levar várias espécies à extinção. Considere o Mico-leão-dourado. Amplamente conhecida, essa espécie é tida como “guarda-chuva” ou “bandeira” para a proteção ambiental da região que habita. Esse mico é endêmico da Floresta Atlântica do Sudeste do Brasil, ou seja, só existe naquela área. Há um projeto relevante que a protege chamada Associação Mico Leão Dourado. Protegendo essa espécie consegue-se proteger a floresta em que vive e as demais espécies e indivíduos que convivem ali. Se essa região for, finalmente desmatada por qualquer motivo, não somente a floresta e os indivíduos que vivem ali desaparecerão, mas também haverá a extinção imediata do Mico-leão-dourado na natureza. Já ouviu falar na Ararinha-azul? Aconteceu exatamente isso com ela. Sorte que essa espécie de psitacídeo ainda existe em cativeiro, com sucesso reprodutivo e há em andamento um programa de reintrodução da espécie in Situ. Problema é conseguir manter preservada e protegida essa região em que está sendo introduzida. Não é raro projetos de preservação de espécies serem ameaçados pela prática da agropecuária ou por empreendimentos imobiliários.

Mas o que tem a ver com São Paulo? Lembra da crise de abastecimento de água do Sistema Cantareira que assolou a cidade entre 2014 e 2015 (e que ainda existe, porém mais branda)? Pois é. Segundo especialistas, o desmatamento em bacias hidrográficas contribui para diminuir a quantidade e a qualidade das águas de uma região.

Uma matéria publicada na DW, a coordenadora da Rede das Águas da SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro, afirma que

Nós temos apenas 30% de área com florestas preservadas nesse manancial [Sistema Cantareira]. O restante precisa ser recuperado ou têm uso inadequado de solo. […] A floresta aumenta a resiliência dos mananciais. O desmatamento não é causa da seca, mas, se houvesse maior cobertura vegetal, o esgotamento dos reservatórios poderia ser evitado”, diz Ribeiro.

Um certo consenso entre especialistas é que há uma mentalidade de “esgotamento” com relação aos mananciais.

“É a falsa cultura da abundância, a ideia de que podemos esgotar os reservatórios, porque depois vem o período de chuvas e enche de novo. Só que há uma diminuição do volume de águas ao longo das décadas em vários reservatórios do sudeste. Em São Paulo, isso ocorre na bacia do Piracicaba e na bacia do sistema Cantareira”, afirma Ribeiro.

É o pensamento de “aqueduto romano”, que consiste em usar o reservatório até esgotar e depois buscar água limpa em uma região mais distante.

“É o que São Paulo está fazendo. Em breve vai ter que pegar água no Paraná”. José Galízia Tundisi

Além das consequências que já foram mencionadas, a WWF traz outras importantes:

Modificação do clima local e mundial — É reduzida a capacidade da floresta de absorver o gás carbônico (CO2) poluidor. Ao mesmo tempo, existe uma presença maior de CO2 liberado com a queima de árvores, combustíveis, etc.

Impactos sociais — Com a redução das florestas, as pessoas têm menos possibilidade de usufruir os benefícios dos recursos naturais que esses ecossistemas oferecem. Isso se traduz em mais pobreza e, em alguns casos, essas pessoas podem ter necessidade de se mudar de lugar e procurar outras áreas para garantir seu sustento.

Mas quando se trata da cidade de São Paulo, podemos considerar também as ilhas de calor. A floresta age como um controlador térmico, onde as temperaturas são mais amenas e a variações térmicas são menos bruscas. Em regiões onde há área verde em abundância, não vemos as variações que acontecem, por exemplo, no centro da cidade, que já registraram diferença de 10 graus em um só dia.

Estudos feitos com satélites termais pela professora Magda Lombardo, do departamento de Planejamento Territorial e Geoprocessamento da Unesp, mostraram que o gradiente de calor — que mede a diferença de temperatura nos pontos da cidade — aumentou nos últimos anos. Na região da Serra da Cantareira, a temperatura média é de 18ºC. Na Sé, pode chegar a 33ºC.

O que acontece em São Paulo é a acentuada verticalização, considerada grande responsável pela diminuição das áreas verdes das regiões urbanizadas. Essa verticalização, gerada pelo avanço imobiliário, cria mais e mais cobertas de concreto e asfalto, aumento os índices de poluição e produzindo ou agravando as “ilhas de calor” que têm temperaturas elevadas e baixa umidade do ar. Isso acontece principalmente em regiões como Centro, Oeste (principalmente Barra Funda e Lapa), Leste (Itaim Paulista, Penha, Aricanduva)e Sul (Itaim Bibi, Vila Olímpia e Jabaquara).

Eu vim de Recife, e lá faz muito calor o ano inteiro, mas posso dizer que eu nunca senti um calor tão asfixiante como o verão de São Paulo. E depois de saber que a temperatura média daqui seria 18ºC o ano inteiro se a floresta estivesse preservada, como no Cantareira, eu literalmente senti na pele as consequências de mais que desmatamento, mas do descaso com a conservação/preservação nesta cidade.