Rua Catão, Lapa — 2016. (Aplicação digital)

Sobre o projeto

Norte teórico e potencial prático do projeto.

São Paulo é uma cidade assombrosa. Ela pode não ser para quem nasceu, cresceu e se desenvolveu aqui, mas quando se considera que esta é a maior cidade do Hemisfério Sul, a coisa muda um pouco de perspectiva.

Não que haja novidade. Toda grande metrópole, seja ela a maior ou a menor, ainda é uma metrópole que carrega em si todas as mazelas inerentes a uma. Questões de saneamento, zoaneamento, lixo, ilhas de calor, água potável, animais sinantrópicos, pragas, superlotação, trânsito, transporte… A lista continua como se não houvesse fim. Mas quando se tratam de 15 milhões de pessoas aglomeradas em meio a todas essas questões, devemos entender as proporções que elas tomam.

Pessoalmente, — e digo isso porque é um projeto que começou como pessoal — me é impossível não a comparar com Recife, de onde vim. Recife é grande, tem muito mais problemas de congestionamento, São Paulo poderia ficar orgulhosa, tem uma cena artística incrível, mas é mais quente tanto em temperatura quanto em temperamento. O humor, no sentido daquilo que permeia tudo e todos, nutrindo, é mais quente. A vida não é tão hostil. Se a esquerda não estiver livre, tudo bem. O mar, logo ali, limpa o céu ao ponto de ter vários tons de cyan a mais que o céu quase cinza de SP, mesmo em dias claros de sol. Se você nunca saiu da cidade, você não sabe o que é um céu azul.

Enfim, a comparação continua. E como uma boa recifense, o bairrismo me domina sempre, mas a cidade de São Paulo começou a crescer em mim e já me peguei a defendendo em visitas a Recife. Pois é.

Guiada pela minha formação em veterinária de animais selvagens, mesmo que afastada há alguns anos, as questões ambientais sempre estão latentes e na superfície de minha mente. E olhando para a cidade, essas questões gritam, principalmente em certas regiões da cidade. Por isso, quis trazer de volta à memória do povo que aqui vive o que a cidade era antes de ser cidade. Quis, também, entender qual as consequências desse afastamento construído da natureza. Será que, de fato, esse distanciamento gerou alguma alteração no âmago do que é ser humano?

Pesquisando o assunto, me deparei com Rousseau. Ele conceitua a Natureza. A publicação que me iniciou nesse conceito, e de certa forma o norteou, foi o “Conceito de Natureza em Rousseau”, escrito por Dalva de Fatima Fulgeri, na Revista on-line Paradigmas, do Centro de Estudos Filosófico de Santos.

Em suma, Rousseau afirma que a sociedade e a civilização como conhecemos corrompem o homem. Fala que a volta ao sentimento e à natureza, que é boa, é um movimento que deve ser buscado pelo humano. Aspectos como liberdade, igualdade e fraternidade viriam passivamente ao contexto humano pois são mais que direitos amparados por lei, são naturais. Isso resgataria as morais naturais do homem, tornando-o mais que apenas uma máquina utilitarista da sociedade, fazendo-o compreender e respeitar a ordem eterna, natural, entendendo que é apenas parte de um todo.

Os percalços da socialização porém, afastaram o homem de si próprio lançando-o contra o seu semelhante. A partir desse embate da convivência social resultam dois conflitos: o que o faz voltar-se para a interioridade, instinto de conservação, amor de si, e o outro contrario que o faz conscientizar-se do outro, piedade. Esta tendência, é o que o leva a transformar-se em ser social. É nesse processo de transformação que o homem se degenera. Porque ele abandona seus instintos naturais passando a usar a justiça no lugar da piedade. (Fulgeri, 2003)

E se há a desnaturação do humano, o seu meio também se desnatura. Enfim, se torna artificial. Cimento, muros, postes, fios, carros, cinza. Desdobrando a natureza, desenvolvendo, deixando de se envolver. Eis o progresso.

Enfim, a ideia é criar mementos pela cidade de como era antes. São Paulo era uma frondosa floresta tropical de Mata Atlântica. Rica de biodiversidade, verde, povos indígenas que viviam em total integração com a natureza. Muito diferente da frenética cidade de hoje. Esses mementos seriam painéis de lambe-lambe aplicados pelas regiões mais estéreis da cidade — muros de linhas de trem, prédios abandonados, pilares de viadutos, etc. — afim de resgatar um pouco do verde que havia ali. Uma simulação de enxertos florestais “colhidos” em remanescentes da região metropolitana, como Jaraguá e Cantareira.

Diante disso, a expectativa é gerar questionamentos, reflexão e, talvez, saudosismo e desejo por esse regresso. Este que faria bem tanto para humanos quanto para o meio ambiente. Que mudaria, quem sabe, as possibilidades do futuro da cidade. Que transformaria o olhar das pessoas para seu meio, como lidar, desfrutar e cuidar deste. As expectativas e os objetivos são subjetivos e sutis, talvez. Mas a repercussão pode ser concreta e real.

O projeto ainda está em fase de desenvolvimento, de divulgação, pesquisa e levantamento fotográfico. O próximo passo será fazer com que os painéis venham à vida através do levantamento de recursos como crowdfounding ou editais artísticos e de pesquisa. Se tiver interesse em ler o projeto na integra, ele está disponível em PDF aqui.

Bom, o projeto continua, a busca continua…