NÃO SIGO
SOBRE MÚSICA E LATAS DE SALSICHA
Entre seguir uma profissão e viver uma profissão, existem diferenças. Cláudio Oderich optou por um caminho diferente planejado por sua família

Por Daniel Grudzinski (texto) e Priscila Mella (fotos)
D o lado de fora, ninguém diria que é um estúdio. O número 606 da Rua Dom Pedro II, em Canoas, fica em uma região residencial. Embora pequena, a sala de ensaios é muito boa, mas o diferencial está no suporte.
No estúdio Chadam, Cláudio é a pessoa que agenda os ensaios, dá suporte às bandas e produz gravações. Para entender o estúdio, precisamos primeiro conhecer Cláudio, e o ponto de partida dessa história, é a tatuagem de uma lata de salsichas.

Sobre o cara do estúdio e a tatuagem da lata de salsicha
Nem todas as tatuagens precisam ter significado, mas essa tem muito. Cláudio Fontoura Oderich é a oitava geração do fundador da Conservas Oderich, Adolfo Oderich, que criou a empresa em 1908.
Ele leva o mesmo nome do pai, Cláudio Oderich, diretor geral de operações da empresa. Pareceria óbvio se Cláudio trabalhasse na empresa da família. Mas o óbvio não é necessariamente o melhor.
Sobre uma grande empresa
Conhecemos a Oderich pelos sachês de ketchup, maionese e uma vasta linha de alimentos. Tudo surgiu há 106 anos. Em 1879, um cara chamado Adolph Oderich imigrou da Alemanha para a cidade de São Sebastião do Caí, no Rio Grande do Sul. Esse cara era jovem, tinha 22 anos e, assim que chegou por aqui, montou um armazém.
Na época, banha era um produto relevante na economia e também funcionava como moeda de troca. Embora de difícil perecimento, a qualidade da banha era variável e dependia da origem. Então, o cara desenvolveu uma maneira de industrializar esse produto com um padrão específico de qualidade. Posteriormente, enviou seu filho mais velho para a Alemanha, a fim de desenvolver uma solução em conservas de alimentos. O guri voltou três anos depois dominando uma tecnologia de conserva de alimentos em embalagens metálicas, e em 1908 fundaram a Conservas Oderich.
Sobre o cara do estúdio que não trabalha nessa grande empresa
Oito gerações para frente, e 78 anos depois da fundação da empresa, Cláudio surgiu na família Oderich. Atualmente ele tem o estúdio, atua em três bandas e também é produtor musical. O contato com a música foi cedo, aos cinco anos. Naquele momento ainda não era uma grande paixão e se resumia às aulas de piano com sua avó materna.
Assim como com todos seus primos, a avó foi quem ensinou as primeiras notas musicais. Aos cinco anos, em um piano de parede, Cláudio decorava partituras. Embora a paixão pelo “fazer música” tenha vindo bem mais tarde, ao resgatar o antigo violão de sua mãe.
Cláudio não teve muito tempo de interagir com sua mãe biológica. Quando tinha pouco mais de três anos, ela morreu em um acidente de carro, retornando de um concurso público. Meses mais tarde, a família receberia sua nomeação, pois seria juíza da Justiça Estadual gaúcha. Mesmo assim, ela teve um papel fundamental na formação pessoal do filho.
Aos 11 anos, Cláudio descobriu um violão Gianninni que fora de sua mãe. Foi ali que transpôs as notas musicais das teclas para as cordas de nylon do instrumento de quase 30 anos. Junto com o aprendizado do violão, surgiu a paixão pelo rock.

Sua família nunca o proibiu de fazer o que gostava — pelo menos não diretamente. Ao passar dos anos, o interesse pela música ofuscava alguns deveres de Cláudio. Seu pai nunca fora declaradamente contrário às atividades musicais do filho, mas a música se mostrava mais importante do que o compromisso com os estudos.
Com 12 anos, Cláudio já havia formado sua primeira banda, deixando o violão de lado para dedicar-se ao contrabaixo. Para adquirir o instrumento, teve que recorrer à sua avó materna.
Sobre um verão empacotando sachês de condimentos
O primeiro baixo passou pouco tempo “morando” com Cláudio. O confisco do instrumento veio junto com as baixas notas escolares, e, quando pôs as mãos novamente no baixo, nunca mais o levou para casa. Desde então, a residência do instrumento foi a casa de um dos colegas de banda.
Anos para frente, a música e o desempenho escolar conflitaram novamente: Cláudio fora reprovado na escola, e dessa repetência surgiu a primeira experiência profissional.
Na forma de “medida educativa”, foi convencido a trabalhar na empresa durante o verão daquele ano. Enquanto sua família curtia as férias no litoral, Cláudio descobria que encaixotar latas e sachês não era tão divertido.
O jaleco branco e as botas de borracha faziam parte da rotina de um funcionário da produção. As manhãs de um turno integral de trabalho começavam com ginástica laboral, seguida por horas de separação de milho e encaixotamento de sachês. Mesmo trabalhando, os ensaios nunca foram deixados de lado.
Sobre escolher uma faculdade e trabalhar na empresa da família
Ao terminar o Ensino Médio, Cláudio começou a faculdade de Administração. Mas havia uma peculiaridade neste curso superior: Cláudio se graduaria em Empreendedorismo e Sucessão. Segundo a descrição oficial dessa graduação, o curso “possibilita uma compreensão da dinâmica particular de empresas familiares e dos elementos que facilitam ou dificultam o processo de sucessão familiar, objetivando dar continuidade ao empreendimento da família”.
Sob forte incentivo familiar, durante a primeira metade de sua graduação, Cláudio trabalhou na área logística da planta de Eldorado do Sul. Lá atuava na organização do envio de embalagens metálicas para outras fábricas da empresa.
Naquele momento, Claudio estava genuinamente deslumbrado com as atividades profissionais. A música agora estava longe de ser sua prioridade, e o foco era o trabalho. Durante aquele período, surgiu a oportunidade de viajar para o Canadá para cursar inglês e se aperfeiçoar na língua.
Sobre aprender a viver fora e ter uma nova experiência profissional
O Canadá não ensinou somente a língua inglesa. Por lá, Cláudio teve um choque cultural — mas no bom sentido. Terminou os módulos do curso de inglês com antecedência e teve a oportunidade de trabalhar em uma cafeteria.
Por suas qualidades comunicativas, mereceu uma função gerencial e se viu recompensado profissionalmente de maneira genuína. E foi no exterior que voltou a frequentar shows e reconstruir sua paixão pela música.

Sobre voltar ao Brasil, deixar o trabalho e investir na música
De volta ao Brasil, retomou sua graduação e voltou a trabalhar na empresa da família. Mas, ao retornar para casa, seu principal foco passou a ser sua banda — a Interfone.
As dinâmicas do trabalho e as relações familiares dentro da empresa sempre foram pontos negativos da sua atividade na Conservas Oderich. Sob pressão, Cláudio deixou de trabalhar na empresa da família para nunca mais retornar.
Nessa época, algo inesperado aconteceu. Mais de 20 anos após a morte de sua mãe, Claudio foi beneficiado por um processo indenizatório.
Foi a hora de — literalmente — investir na música. Em Porto Alegre, começou a gravar um disco da Interfone, e, na sequência, decidiu junto com os integrantes da banda ir para São Paulo e finalizar a gravação do seu disco por lá.

Em São Paulo, o foco foi total na música. Durante um ano, gravaram em um estúdio de referência e puderam envolver-se com grandes nomes da cena nacional.
Cláudio estava independente, fazendo o que realmente gosta e se envolvendo cada vez mais nos seus próprios interesses. Além das bandas em que já tocava, surgiu a oportunidade de tocar em mais uma, a NEC. Com o projeto do disco da Interfone finalizado, a banda retornou ao Rio Grande do Sul.
Sobre o Chadam 606
De volta ao Sul, Cláudio se associou com um amigo e pôde pôr em prática um novo projeto: o Estúdio Chadam.

Do ponto de vista de Cláudio, o Chadam não é simplesmente um estúdio, é uma ferramenta de fortalecimento da cena musical. Não é qualquer banda que ensaia por lá. Ali circulam bandas em que realmente acredita, com som e visão similares ao que ele admira e gosta na música.
Há mais de dois anos, é o espaço onde Cláudio investe seu tempo e seus interesses. O caminho profissional que construiu para si mesmo não envolve dinâmicas conflituosas e interesses divergentes.
Quem imagina que Cláudio brigou com a família para fazer o que ama, está errado. Não existe pressão para atuar na Conservas Oderich. Seu caminho até aqui mostrou que viver uma profissão é muito diferente de ter uma profissão.
Muito mais do que escolher seguir ou não uma profissão, é fundamental ter claro para si qual é o propósito desta atividade. Aqui, Cláudio fala pelas próprias palavras, o propósito da sua profissão.