Êxodo: Deuses e Reis (2014)

Divulgação

O filme de Ridley Scott é uma releitura — um tanto “mundana”, digamos — da libertação dos israelitas do jugo egípcio e sua saída para a Terra Prometida, a partir do texto bíblico.

Scott traz algumas liberdades interpretativas na maneira de contar a história, que diminuem o natural pendor ao espetáculo presente no material clássico.

Isso não é de todo ruim. No filme, Deus surge como um moleque chato e caprichoso, e não temos certeza se ele é real ou projeção da mente perturbada de Moisés (Bale).

Sem contar que Moisés no filme surge como uma espécie de prototerrorista, e tenta-se jogar uma semelhança — pálida, diga-se — entre ele e o Estado Islâmico.

Mas há um maior interesse em retratar o crescimento espiritual de Moisés. No começo, ele é um cético, descrente das coisas da religião. Depois, ele se torna realmente no libertador de seu povo. No entanto, após a libertação propriamente dita, o que vemos é um Moisés que não sabe a mínima agora do que fazer.

Titubeante, indeciso, apenas seguindo uma voz que ninguém mais ouve, Moisés não está nem de longe parecido com o “líder saído do nada” que várias adaptações bíblicas consagraram no senso comum.

O começo é arrastado. Da metade em diante, o filme assume seu lado blockbuster e começa a apostar na ação.

Scott não se posiciona como um diretor reverente, isso na perspectiva religiosa. Em suas mãos, a conhecida história se torna uma espécie de metáfora ambiental, de fábula sobre escravidão e liberdade, sobre a tensão entre justiça e misericórdia.

O problema maior, neste filme, é que Ridley Scott não quis radicalizar as suas escolhas. O filme não assume se vai jogar no time do fantástico, do maravilhoso — que é isso que geralmente a própria Bíblia, enquanto história de personagens, possui — ou se joga no time do realismo mais quadradinho.

É mais fácil — em matéria de narrativa e verossimilhança — acreditar que o êxodo israelita se deveu mais aos milagres do que a fenômenos naturais orquestrados de uma maneira tão justa, inusitada e veloz.

O fã de épicos bíblicos verá a grandiosidade típica, mas ele sentirá que algo está faltando.

ÊXODO: DEUSES E REIS
(Exodus: Gods and Kings)
DIREÇÃO Ridley Scott
ELENCO Christian Bale, Joel Edgerton, John Turturro, Ben Kingsley e Sigourney Weaver
PRODUÇÃO (EUA/Reino Unido/Espanha, 2014, 150 min.)
AVALIAÇÃO (bom)

Primeiras Lições de Cinema

Notas, comentários, tentativas de crítica, apontamentos diversos sobre a sétima arte.

Fernando Alves Medeiros

Written by

Feito Montaigne à roda do quarto.

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