Edir, o Grande

I — Apontamentos sobre o homem aquém do mito
E eis que Nada a Perder chega ao Netflix.
É sempre uma tarefa difícil falar de Edir Macedo, essa figura controversa. Parece que nunca seremos capazes de olhá-lo com isenção, sem cair nos estereótipos de “homem de Deus” ou de “mercador da fé”, sem superar a devoção religiosa ou a figura que ficou no imaginário popular.
Porque o nome dele faz um verdadeiro contorcionismo entre a defesa acrítica de seus seguidores e o forte preconceito de seus detratores.
Muita tinta se gastou falando nele, quer seja na imprensa, quer nos processos judiciais, nas teses acadêmicas, nas redes sociais ou no caudaloso material que sua instituição, dia após dia, produz.
Mas, afinal, quem é ele?
Assistimos ao filme, vemos a sua humanidade sendo deformada pelas lentes grossas da mitificação. Talvez nunca saibamos quem seja esse carioca radicado nos EUA — sempre oculto atrás de camadas e camadas de discurso oficial e aura religiosa.
Olha só que interessante paradoxo: sempre oculto, mas com grande apetite de aparições sensacionalistas. O filme, as “pedaladas” em computar a venda dos ingressos (e as avaliações dos usuários nos principais sites de cinema), a ciranda política, os livros na lista dos best-sellers, mais reforçam a confusão.
Quem é Edir Macedo? O que ele quer?
É praticamente impossível falar de Edir Macedo e não falar da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). E vice-versa. A transnacional da fé exala os próprios humores desse homem, como uma extensão gigantesca de sua psique. Poderosa, arrogante e megalomaníaca, a IURD já virou de cabeça para baixo a religiosidade brasileira.
Dizem que toda religião diz muito de sua época e de sua sociedade. A Igreja Católica, por exemplo, em seus ritos, tem muito de Idade Média. O Protestantismo, por sua vez, retrata os valores da Idade Moderna. O Espiritismo é a religião do cientificismo do século XIX.
Se isso for verdade, como entenderíamos a IURD? A fúria sincrética da fé no contexto do Rio de Janeiro sob o “milagre econômico”? Deus abrasileirado, “cordial”, que quer nos ajudar a ser alguém via sociedade do consumo? O Miserável Brasil Profundo com ganas em modernizar-se?
É também curioso perceber que, no Rio de Janeiro onde nasceu a suavidade apolínea da bossa nova e o furor dionisíaco do funk carioca, tenha nascido também a IURD, uma mistura de empresa e agência de cura, de consultório e escola, de auditório e sindicato.
Uma igreja que se notabilizou com pastores de branco abençoando sal e arruda em cadeia nacional, uma constelação de empresas dos mais diversos ramos, Arca da Aliança feita de plástico, réplica do Templo de Salomão encravada numa avenida de passado operário, em São Paulo, no Brás, etc.
A Igreja Universal é esse Brasil Grande, para o bem ou para o mal.
Mas a IURD também é, digamos, a faceta mais visível e barulhenta desse senhor de setenta e poucos anos, ex-funcionário público da Loteria do Rio de Janeiro, magnata das telecomunicações e bispo blockbuster que ainda reage mal aos dislikes.
A IURD é o bispo Edir Macedo.
Tanto é, que, como exercício mental, é interessante imaginar como será o futuro da instituição quando ele, com o avançar da idade, tornar-se frágil demais para continuar liderando ou quando vier a falecer.
Talvez, nessa altura, a igreja tome cara de instituição consolidada, estabelecida, sem esses espasmos de crescimento agressivo.
É possível que essa necessidade atual dele de fazer obras de grande vulto, de contar a sua visão dos fatos, talvez seja uma forma de não querer morrer.
E agora, o polêmico teólogo tropicalista quer ser amado através da mais cara das artes que é o cinema. Do jeito dele, sem pedir licença, fazendo pouca autocrítica e muito barulho. Ressentido, o bispo mostra como todos foram contra ele, mas ele venceu “surpreendentemente”.
A princípio, tentamos entender o motivo dessa “lavação de roupa suja” na tela grande.
Engolimos em seco quando percebemos que estamos acompanhando (meio cúmplices, digamos) a revanche do Macedo. Como convidados daquela festa de casamento de opulência tal em que o noivo quer celebrar sua “volta por cima”.
Talvez toda sua trajetória impressionante seja uma grande revanche contra seus fantasmas, seus inimigos, o mundo que ele nega a aceitar.
Para mim, Edir Macedo é o cúmulo da brasilidade, esse permanente estado do nosso país, parado a meio caminho entre o arcaico e o moderno. Onde tudo é extremo, híbrido, fronteiriço.
Em um momento, olhamos para ele, encontramos uma espécie de gênio empreendedor, visionário, que provocou um curto-circuito no País para fazer o que acreditava — e fez muito. Em outro momento, encontramos um “jagunço corporativo da fé”, uma figura autoritária, paranoica, a representação máxima do “jeitinho brasileiro” transplantado no ambiente religioso.
De um lado, vemos um revolucionário dentro da tradição pentecostal, que atualizou nossa relação com o sagrado (e do dinheiro) à luz dos novos tempos, como um Osho tupiniquim cristão. Do outro, a personificação ressentida desse capitalismo canibal praticada cá nos trópicos, sob a bênção de Deus. Um Robin Hood às avessas?
Ou o religioso da classe média que, por não ser aceito numa instituição, resolve ele mesmo criar a sua própria? De empregado a patrão, de ovelha a pastor. Pastor, não: bispo.
O filme, evidentemente, passa longe dessas reflexões, fixando apenas no aspecto exterior, do “mito”, na tela. Chegamos a pensar o quanto de ficcional há numa autobiografia, a trucagem que se faz dos eventos, a interpretação deles, as omissões e o exagero das tintas.
No filme, Macedo (Gontijo) passa por um caminho que, se há muitas pedras, há poucos equívocos.
II — O mito e seus arranhões
Os problemas do filme são intrínsecos à sua natureza — é um filme encomendado, feito para “fazer coro” ao “discurso oficial” da igreja. Por isso, a atmosfera laudatória do longa-metragem.
O contraditório é praticamente eliminado. O filme é a visão que o Macedo tem de si próprio, com alguns lapsos de modéstia, sinceridade e autocrítica.
Obviamente, Nada a Perder é uma biografia chapa-branca. Ou melhor: uma esforçada hagiografia. Feita para convertidos.
Há alguns pontos positivos que merecem ser frisados. A caracterização da época, os cenários são muito bons, verossímeis. Petrônio Gontijo se esforça, até que se saiu bem, afinal, o bispo é uma figura que corre o risco de cair no caricato. O ator convence com a personalidade impulsiva, teimosa e carismática do líder religioso.
Mas há certos problemas que incomodam. Os saltos temporais são deficientes: de 1962 para 1971, o personagem envelheceu uns 30 anos. O roteiro deixa a desejar: diálogos sofríveis, com frases de efeito, tudo descamba para o sentimentalismo, para a breguice edificante. A trilha sonora está empenhada em levar o público para o choro fácil. E é curioso notar isso partindo da biografia do cara que sempre diz que a “fé nada tem a ver com sentimentos”.
Como um bom enlatado da indústria do entretenimento, o filme procura envolver seu público via táticas de novelão. O que denuncia, de certa forma, a formação televisiva do diretor, Alexandre Avancini.
Ele é competente e inspirado, em alguns momentos, mas, via de regra, é um diretor de panfleto e platitudes sem fim.
O filme é manipulativo: tudo é apresentado sem nuances, num esquematismo quadrado, maniqueísta. Toda a Igreja Católica é resumida na figura patética e vilanesca de um padre. R. R. Soares é de se ter pena: é pintado como uma figura grotesca, vaidosa, que sempre se interpõe no caminho do cunhado para desempenhar um papel constrangedor de rival unidimensional.
Há alguns atropelos flagrantes na historicidade: Macedo, Soares e Samuel Coutinho começaram juntos a Universal, mas, no filme, isso é colocado como se a igreja fosse uma iniciativa individual e posterior ao “racha”. Roberto MacAlister tem seu nome omitido, ACM, ministro das telecomunicações à época da compra da Record, também.
Incomoda a fala em que o bispo agradece o confisco das poupanças no Plano Collor, que prejudicou milhões de pessoas, mas, surpreendentemente, o salvou no pagamento da compra de seu canal de TV.
Nessas frestas, enxergamos algo de individualista, de egoísta na fé do Edir Macedo real que talvez seja a chave para entendê-lo — ele e o Deus macunaímico que ele defende com tanto ardor.
Macedo nunca superou a prisão de 1992. O momento em que a multidão se aglomera fora da delegacia é brega, mas bonito. Ergue-se com pretensões de símbolo, de divisor de águas na vida do líder evangélico, mas a custo aceitamos que aquilo tenha acontecido realmente.
De complô em complô, o bispo toma ares de personagem de videogame, pulando pedras, enfrentando ataques dos inimigos. Isso para o público que participa dos cultos da Universal pode ter alguma lógica, mas diz pouco para quem nunca sentou em suas cadeiras.
Nada a Perder, no final, entretém, mas não esclarece. No fundo, aprendemos sobre o poder da fé, essa força invisível, interior, do homem que recebe um chamado lá do alto. Mas a verdadeira natureza do personagem se esconde mais uma vez em densas brumas de mistério.
Quem é o homem por trás do mito?
Enquanto a resposta não vem, alguém irá abordar você, entregar um panfleto, rosa ungida ou jornal. Você nunca viu essa pessoa antes, mas ele fala com uma proximidade artificial de talentoso vendedor. Ele o convidará para participar de uma “reunião abençoada” na Igreja Universal mais próxima da sua casa. Você olhará para os lados, constrangido, tentará dar uma desculpa, e perceberá que nas ruas, becos, hospitais e prisões, a fúria expansionista do Edir Macedo é uma realidade incontornável.

