Adalis Martinez, editora Aleph — 2018

A maldição do conhecimento em “Flores Para Algernon”

Roberto Honorato
Aug 25, 2018 · 4 min read

Daniel Keyes questiona sua realidade de um jeito diferente

Flores Para Algernon é um livro bastante conhecido do público norte-americano. Originada em forma de conto na Magazine of Fantasy & Science Fiction, a história conseguiu vencer um prêmio Hugo em 1960 e dar certa visibilidade para o autor, Daniel Keyes. Em 1966, ele transformou o conto em um romance que acabou bastante aclamado, também vencedor de alguns prêmios, como o Nebula, e até hoje é considerado leitura obrigatória em muitas escolas dos EUA. Com sucesso, sempre vem as adaptações. A primeira mais conhecida é o filme Charly, de 1968, estrelado por Cliff Robertson, que acabou ganhando um Oscar de Melhor Ator. A segunda adaptação cinematográfica só aconteceu em 2000, desta vez direto para a televisão e com Matthew Modine no papel do protagonista. O livro também foi parar nas rádios e nos palcos do teatro, tendo até mesmo uma versão musical. E mesmo sendo uma obra tão icônica, é curioso como é pouco conhecido no Brasil. Felizmente, com o lançamento do livro pela editora Aleph em 2018, pude ler Flores para Algernon e entender porque é considerado tão essencial.

Charlie Gordon é um bom amigo e um bom funcionário em uma padaria local, porém sofre de uma deficiência intelectual, tem um QI muito baixo. Ele quer muito mudar isso, quer surpreender seus amigos e impressionar todos sendo uma pessoa “tão normal quanto as outras”. Por isso Charlie se submete a um experimento que envolve uma cirurgia inovadora capaz de aumentar sua capacidade mental.

O livro é escrito na forma de epístola, como se fossem relatórios de progresso do protagonista. Com isso temos uma leitura em primeira pessoa, mas o que chama a atenção de primeira é a decisão do autor em incorporar uma escrita propositalmente errada (Charlie não é bom com as palavras, por motivos óbvios), no entanto fazendo sentido na proposta e contribuindo para o desenvolvimento não apenas do personagem, como o narrativo. Ver a forma que são empregados os acentos ou pequenos detalhes, como vírgulas, por exemplo, criam uma conexão e simpatia maior por Charlie.

Infelizmente, o que deveria ser considerado um milagre, logo se torna uma maldição. Charlie começa a ficar inteligente, mais até que os próprios médicos que o operaram. Além disso, ele agora reconhece todas as vezes em que foi humilhado. As pessoas riam dele, não com ele. Onde antes existia um indivíduo inocente e com um eterno sorriso no rosto agora dá lugar a um homem amargo e desconfiado. Algernon, o pequeno ratinho que serviu de cobaia antes que testassem a cirurgia em Charlie, acaba sendo seu único companheiro.

Imagem da adaptação de 2000, estrelada por Matthew Modine.

Alguém pode argumentar que a obra não tenha elementos o suficiente para justificar ser categorizada como ficção científica, mas não é só na parte “científica”, a cirurgia no caso, que se sustenta o gênero. Keys questiona uma realidade com outra. No começo não confiamos na veracidade de alguns relatos, o passado é revelado lentamente depois de passarmos pela neblina do esquecimento na cabeça do protagonista. Além disso, antes do experimento surtir o efeito desejado, os personagens tem características que nos são apresentadas de uma forma completamente diferente da que é relatada assim que Charlie começa a ter uma nova óptica sobre suas relações. Seus companheiros de trabalho na padaria eram divertidos e engraçados, agora são maldosos e ignorantes.

A nova realidade deveria trazer alegria para Charlie, mas ele não consegue mais se divertir com quem fazia piada de sua condição. Descobrir que todos que você considerava de maior confiança são na verdade pessoas falsas e maliciosas dói demais para o protagonista, e pensar que tudo que ele queria era ser inteligente o suficiente para entender as coisas e surpreender seus amigos.

Ao longo da história o leitor descobre pequenos detalhes e informações através das reminiscências de Charlie, que ou esqueceu as coisas ou reprimiu para evitar um sofrimento maior. Essa é a parte mais dramática do livro, com questionamentos sérios e o momento mais catártico da obra, que não vou estragar para você porque esse livro realmente deve ser considerado leitura obrigatória de qualquer currículo escolar.

Mesmo tendo um narrador não muito confiável por conta da forma que interpreta as coisas “à flor da pele”, Flores para Algernon é um livro carregado de significados e debates sobre a condição humana. Essa é provavelmente uma das melhores leituras que você pode ter e uma das mais emocionantes da ficção científica.

“Flores para Algernon””,
de Daniel Keyes

Editora Aleph, 2018

228 páginas

Tradução de Luisa Geisler

Capa de Adalis Martinez


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